segunda-feira, julho 07, 2014

Uma sociedade

Sempre namorei muito, além da conta. Emendei um namoro no outro, resultado de uma carência afetiva que criou em mim um "vício" por relacionamento (há alguns anos tratado). Pulando de um namorado em outro, como quem pula de uma pedra pra outra com o intuito de atravessar o rio, assim vinha atravessando a vida. 

O problema de iniciar relacionamentos por motivos errados é a tomada no cu diretamente proporcional à gravidade da decisão má tomada. Relacionamentos são assuntos delicados. As pessoas são demais complicadas e acabam mais somando problemas na vida de seu par do que soluções e sossego. 

É claro que nem todo mundo é inconsequente ao ponto de jogar seu coração na mão do outro sem pensar direito, como eu joguei. Mas se tu já viveste algum relacionamento roleta russa, sabes bem ao que me refiro.

Depois de viver relacionamentos mais cheios de roubada do que diversão, uma hora tu cansas (pelo menos quem tem vergonha na cara e um pingo de amor próprio, se cansa). Eu cansei. Assumi até a possibilidade de não casar, não ter filhos e aprender a ser feliz assim. Estava sendo, até conhecer meu marido. Quando a gente conquista a nossa paz, não troca a tranquilidade nem por uma transa caprichada. Eu não troquei.

Mas aí eu encontrei meu marido quando nem estava mais a procurar o meu amor. Encontrei em um momento de tranquilidade emocional que me permitiu conhecê-lo com a razão, além do sentimento. Depois de fazer um teste de resistência que sobreviveu nosso namoro à distância e viver momentos difíceis que fazem parte da vida de qualquer adulto, constatamos: somos bons sócios. 

Cuidamos um do outro, damos paz um ao outro, fazemos um ao outro crescer e mais: nos amamos (uma redundância). Somos pessoas melhores desde que nos conhecemos. 

Antes de casar oficialmente e assinar nosso contrato de sociedade, fizemos um teste de convivência. Vivenciamos a vida de casado por um ano antes de nos unirmos legalmente. Uma boa experiência para conquistar nosso alinhamento e deixar nossas tomadas de decisão redondinhas, enquanto dupla e chefes de família. Nos sustentamos na lógica do trabalho em equipe. Tínhamos que ser uma dupla. Nós somos.

Depois de algum tempo de casada, te digo uma certeza: tu tens que casar com alguém que some. Se for alguém que não negocia, não abre mão, alguma hora o teu desgaste vai ser insustentável. Quando uma relação depende exclusivamente de um dos lados pra dar certo, a hora que esse abandonar a remada solitária, o barco para, o barco afunda e resta apenas um monte de desgaste e uma coleção de perdas.

sábado, junho 21, 2014

Triângulo odioso

Sentimentos. Quando eu era guria, por volta dos 12, pelo que me recordo, lembro que comecei a pensar sobre o processo de sentir. "Acho que os sentimentos são compostos por uma seqüência de elementos químicos que, juntos, causam os efeitos que chamamos sensações", minha primeira especulação.

A cada vez que sentia algo muito ruim, desejava um remédio, uma solução com elementos químicos que neutralizassem aqueles que me causavam desconforto, como a base que neutraliza o ácido e acaba com a queimação no estômago.

Depois de viver dez anos em depressão, pulando de psicólogo em psicólogo, psiquiatra em psiquiatra com o intuito de encontrar o meu sossego, entendi que sentimentos não são soluções químicas. São pura pancada mesmo. Mesmo os bons sentimentos. A gente sempre sente um forte impacto quando eles nos acometem.

Será que eu sinto a dor igual vocês a sentem? 

As causas de cada dor, sei que são diferentes para cada pessoa. Mas sei também que dor dói em qualquer um e esse é nosso ponto em comum. Depois de sentir um bocado de dor, me familiarizei demais com o processo do sofrimento. Somos íntimos. 

Durante dez anos, todo mês, tomei benzetacil para evitar eventuais complicações cardíacas, resquícios de uma doença que tive na infância e que me deixou com dificuldade de andar.  A injeção mais doída que eu conheço. O medicamento dói por alguns minutos depois de aplicado. Quando injetado, por onde o líquido passa, parece levar junto um ferrolho que sai rasgando tudo o que encontra pela frente. Por ser tão dolorido, os médicos sempre recomendam aplicá-lo na bunda. No local perfurado, sempre há o carimbo de um hematoma que nos lembra a desagradável experiência. Ficamos sem poder sentar direito por alguns dias. É como se levássemos uma boa pancada.

A depressão e a benzetacil me deixaram íntima da dor da alma e da dor física. Estiveram presentes desde o final da minha infância até seis anos atrás, mais ou menos. Mas minha relação com a benzetacil começou mais cedo que o caso que tive com a depressão, e, por alguns anos, vivemos um triângulo odioso.

Como todo relacionamento desgraçado, elas me ensinaram muito. A benzetacil, que a dor física deixa de doer tanto, quanto mais a gente a sente. Dessensibiliza. Depois dos primeiros anos de agulhada na bunda, já recebia o medicamento em minhas entranhas falando ao telefone. Continuava a doer, mas meu corpo já recebia a tormenta com tranquilidade, já me poupando do sofrimento inevitável. Há muitos anos sou muito tolerante à dor física.

À dor da alma, emocional, também. Mas diferente da dor física, a gente pode sofrer pela mesma causa algumas vezes. Mas ela dói igual em todas. O que muda é a nossa capacidade de lidar com a dor. 

Eu sinto falta das pessoas falarem sobre sentimentos. Viver é um processo cheio de muitos detalhes, um deles é o sentir. Por alguns anos eu senti falta dos adultos conversarem comigo sobre sentimentos e acabei tendo que descobrir sobre eles sentindo. 

"Filha, algumas vezes na vida, as coisas acontecem de um jeito diferente do que a gente deseja. A gente perde pessoas, sente ciúmes, se desentende com quem a gente ama e magoa quem a gente ama. Essas coisas chatas da vida provocam no coração umas sensações desagradáveis. Lembra uma câimbra no peito. Por mais que a gente tente alongar o peito, massagear o coração, não para de doer. Mas é assim mesmo. Com o tempo e com o amor de quem te quer bem, passa." Isso teria resolvido muita coisa.

A gente vive a vida despreparado. Não nos ensinam sobre os sentimentos. Não temos um manual de instrução que identifique o sentimento de luto, o ciúme, a inveja, o orgulho, a tristeza, a melancolia e tantos outros sentimentos desagradáveis e seus respectivos tratamentos com orientações sobre como proceder diante de um peito com alta concentração de dor. Mas a conversa ajuda, alivia, descarrega, nos ajuda a digerir a dor. 

Assim como meu corpo respeitou a potência da benzetacil e aprendeu a conviver em certa paz com ela, eu aprendi a conviver em certa paz com o sofrimento. Quando a gente respeita a dor, ela nos ensina. Quem para e pensa sobre a dor, geralmente se torna uma pessoa um pouco melhor. Quando a gente entende a causa da dor, aprende a preveni-la, evitando as situações que as têm como efeito colateral. Tem que ser esperto e evitar a auto-sabotagem.

Desde que eu comecei a entender as minhas dores e reconhecer que também fui responsável pela causa delas, passei a viver em sossego. Tem sido tão bom que eu tento levar a paz às pessoas. Todos merecemos sentir a tranquilidade a maior parte do tempo.





sábado, maio 31, 2014

Curta-metragem

É raro um videoclipe ser uma obra de arte. Isso acontece quando o artista consegue levar a sua arte para a vida real de cada pessoa que compõe a sua plateia. Pois a arte, quando comunica bem o viver e o sentir, provoca, no público, reflexões.

Justin Timberlake acabou lançando um curta-metragem realista a partir de uma letra que vestiria bem um clipe clichê. Me surpreendi. "Mirrors" tem uma poesia não muito frequente na música pop. A canção e o clipe são complementares. Constituem uma intertextualidade bastante construtiva. Se ainda não assistiram, recomendo a experiência.



terça-feira, março 04, 2014

Lembre que eu existo

Carta de uma criança de 11 anos à sua mãe.

Prioridades. 

Quando esse bilhete caiu em minhas mãos, não pude não pensar em outra coisa. Qual a prioridade de pais e mães? Já tinham, eles, sua lista de prioridades quando pensaram em ter seus filhos? Ou os filhos surgiram de repente, atropelando essa lista de prioridades (pelo menos momentaneamente)?

Babá. Hoje é quem mais eu vejo dando suporte às crianças enquanto elas se desenvolvem. Elas que crescem como podem, aprendem como podem, em casa, em salas de aula, no playground do condomínio, apreendendo e costurando referências e experiências enquanto os pais se ocupam com suas prioridades. Construindo como podem essa colcha de retalhos que aos poucos as consolidam como indivíduos com capacidade de tomada de decisão e de interferência na sociedade. 

Eu gostaria de ter a oportunidade de criar e educar os meus filhos. Ensiná-los a lavar as mãos, a comer sozinhos, a amarrar os cadarços. Estar presente quando eles derem o primeiro passo cambaleado. Quero estar presente. Pretendo. Não quero que eles sequer pensem que haja um minuto qualquer em que eu não os tenha em mente, porque filho faz parte da gente, crianças são nossas crias e é claro que elas não compreendem isso. Mas nós sim. E fica por nossa conta fazê-los compreender e confiar que sempre, sempre estaremos ao lado deles.

Crianças são frágeis. Precisam que nós a ensinemos a serem fortes. Precisam aprender o que é ter confiança (em si mesmo e nos outros). O que é cumplicidade, amizade, respeito, solidariedade. Entendendo tudo isso, elas entendem o que é amor. Crianças precisam de uma mão para dar a sua. Precisam da minha e da sua mão de mãe. Precisam da sua mão de pai. E do abraço, e da conversa também. Esses são fundamentais.

Quando se trata de criança, isso deveria ser prioridade.    

sábado, setembro 28, 2013

Um dos melhores lugares do mundo é a plateia

Joana,

há algum tempo me prometi fazer um mural com os ingressos de shows e peças que andei colecionando. Não foi a primeira vez que guardei com carinho as entradas de espetáculos memoráveis. Por onde andam os tantos outros vestígios de plateias por onde estive? Não sei, se espalharam por lixeiras com o tempo, sem que eu soubesse. Mas não são menos importantes, de jeito nenhum. Guardo os espetáculos na memória e no coração, claro. Estar numa plateia é sempre memorável.

Esse mural é especial. Não apenas porque reúne passagens por plateias de espetáculos como "Tim Maia - Vale Tudo" - belo musical com Tiago Abravanel, antes dele ir pra Globo e ficar famosíssimo (canta muito! emocionante) -, "Hair" - a peça mais linda e emocionante que assisti nesses últimos 29 anos -, "A Casa Amarela" - solo belíssimo com o Gero Camilo - e "Viver Sem Tempos Mortos" - monólogo com a dona Fernanda Montenegro - não tenho nem palavras...

Ou porque denuncia o carinho com o qual lembro de ouvir, e cantar junto, Alanis Morissette, Lobão - gravação do dvd "50 anos a mil", imagine! -, o primeiro Lolla Palooza Brasil e Aerosmith - que tive o privilégio de ver tão de perto que enxerguei o olho roxo do Steven Tyler que tinha caído durante o show em Buenos Aires uma semana antes.

A importância desse mural está em lembrar o quão é importante ir.

Quando a gente vai, gera movimento. A gente vai, a gente vê, a gente ouve, a gente sente. E quando vamos indo com a arte do lado, a gente vai ainda melhor.

Fui indo, indo, indo tanto que cheguei.

:)

quarta-feira, setembro 25, 2013

O ingrediente Calundu

Tenho estudado bastante sobre tradições religiosas afro. Nas minhas pesquisas, descobri que no Brasil dos séculos 17 e 18, há registros de práticas de curandeirismo e uso de ervas combinadas com adivinhações e possessões chamada calundu, uma prática religiosa africana.

Quem nasceu na Amazônia, como eu, cresce acostumado com o hábito dos banhos de ervas, que são tomados principalmente em datas festivas, como na madrugada do dia de São João e na véspera do ano novo.

Quando estou em Belém (PA), minha passagem pelo mercado do Ver-o-Peso é cumprida com tradição. Me dirijo logo para o espaço das erveiras - um lugar onde circula muita energia (quem tem uma certa mediunidade sabe do que estou falando). Sempre sou profundamente seduzida pelo perfume das ervas, especialmente o patchouli. É delicioso!

Compro meu banho de ervas para renovar as energias - descarregar as energias negativas e atrair boas vibrações. Só não imaginava que esse gesto bebia nas tradições negras. Pensei que fossem apenas heranças indígenas. Mas a história da nossa colonização demonstra que os brasileiros, especialmente os amazônidas, somos uma linda mistura de povos tradicionais, além dos europeus.

Confesso que muito me agrada flagrar nos meus hábitos tradições indígenas e africanas com as quais me preocupo em preservar. Elas me fazem me sentir peculiar, me sentir mais eu. Nada contra as tradições europeias, povo cujo sangue também carrego nas veias e artérias, mas, desculpem-me os brancos, me sinto mais índia e negra embora carregue um fenótipo que faz os nativos amazônidas terem sempre me tratado como estrangeira. 

quinta-feira, setembro 12, 2013

Trambolho: quando desmontada sua estrutura, vira um monte de coisa facilmente descartável.

Houve um tempo em que dançar perto do fogo só me bronzeava. Aposto que, diante de uma fogueira, o bronze ainda hoje seria a realidade. Mas sabes que de uns dois anos pra cá tenho preferido estar branquela? 

Quantas vezes a gente não leva um tapão porque ofereceu a cara pra provar a nós mesmos que suportaríamos o tabefe? Eu ofereci um monte... Até cansar e constatar que tanta mágoa era desnecessária. 

Mas o marasmo e o tédio fazem a gente procurar arte. E quem procura, acha. 

Mas sabes, Joana? Eu descobri a minha paz. Tava soterrada debaixo de um monte de entulho. Joguei tudo fora, fiz um faxinão. Um santo remédio pra energia circular bem é a arrumação, a higienização da alma. Fiquei nos trinques.

Mas deu um trabalho...

Mas tá sossegado.