domingo, abril 20, 2008

O Inventário

O que diferencia o ser humano de outros animais é a capacidade de constituir cultura, sendo que esta é transmitida mediante a uma segunda peculiaridade do homem que consiste em organizar um sistema simbólico que lhe atribui, também, uma segunda capacidade qual seja a de poder comunicar-se. E é justamente por meio deste processo de comunicação que a cultura é transmitida de um sujeito para o outro dentro de uma mesma sociedade.

Os estudiosos da antropologia já identificaram que a única coisa que diferencia um ser humano do outro é o dimorfismo sexual. Ou o Homem é homem ou é mulher. E esses estudos mostraram que idéias machistas, por exemplo, recaem em apenas uma questão cultural. Tudo o que uma mulher faz, o homem pode fazer e a recíproca também é verdadeira. São muitos os estudos realizados em sistemas culturais diversos que mostram que a mulher, em determinadas tribos africanas, exerce atividades que em algumas culturas ocidentais dizem respeito ao homem. Foi comprovado, igualmente, que uma criança humana, através de um devido processo de aprendizagem é capaz de adaptar-se a culturas totalmente diversas da sua. Por exemplo, uma criança francesa, filha de pais franceses, se levada para a China desde seus primeiros anos de vida e for criada por chineses, adquirirá hábitos chineses e falará o mandarim sem qualquer tipo de sotaque francês. Nem mesmo saberá falar essa língua ou se comportar como um ocidental.

Esse pensamento que me levou à reflexões posteriormente à leitura de Cultura, um conceito antropológico, do Laraia. Me permitiu novos pontos de vista acerca do ser humano. Sabemos que cada pessoa é o que escuta, vê, ouve, toca e come. Afinal, são os sentidos que nos proporcionam o recebimento de mensagens que nos são enviadas do meio em que vivemos mediante estímulos. E nossa psique conjuntamente com a capacidade de raciocínio nos permite fazer a reflexão acerca dessas mensagens. Somos seres humanos, mas todos interpretamos os estímulos de maneira diferente pelo simples fato de não sermos iguais.

Tudo isso me levou a observar, de uma maneira mais profunda o comportamento do paraense. Diziam que herdáramos a indolência do índio, a alegria dos africanos e a luxúria dos portugueses.

Quanto a essa alegria, presenciei um fato semana passada. Enquanto passava pela Magalhães Barata com a José Bonifácio, no ponto de ônibus antes de chegar em São Brás estava um coletivo parado. O que é muito comum. Mas algo incomum, mas que também não era a primeira vez que eu presenciava acontecia dentro do ônibus. Todos os passageiros em pé, o cobrador se esticando todo e uma gritaria que parou todos os pedestres assim como o trânsito que compunha o cenário à ilharga da confusão. Dentro do ônibus uma mulher, um homem e outra mulher. A primeira mulher que estava próxima do motorista esbofeteava o homem e a outra, bem, a outra ninguém via, mas se imaginava que ela estivesse por perto ou não muito longe porque a esbofeteadora gritava “safado!”. Os passageiros só fomentavam a discórdia. Sempre se divertindo. Seria mesmo um exemplo da alegria herdada dos africanos ou seria o desrespeito à dignidade humana, cultura da Modernidade?

No que diz respeito à luxúria, nesta mesma semana, eu andava por uma das ruas do centro comercial de Belém, quando um sujeito de boa aparência, “marombado”, todo apertadinho, usando um cordão artesanal, atravessou a rua correndo num desespero que me fez pensar que corria atrás de um ladrão. Logo eu descobri que ele corria era atrás de uma mulher: eu. Me abordou já perguntando o meu nome, me pedindo pra sair com ele de qualquer jeito, a qualquer dia, ou mesmo passear com ele naquela tarde, muito bonita por sinal. O pedido naturalmente foi negado. Diante de tal situação embaraçosa, sobre a qual alguns depositaram a sua atenção, o sujeito pede um consolo: um beijo na bochecha que, também, naturalmente foi negado. E se mandou, correndo do mesmo jeito. Exemplo da luxúria portuguesa ou cara de pau?

Quanto à indolência herdada dos indígenas, bem, isso a gente deixa pra uma outra conversa.