quinta-feira, julho 31, 2008


Casamento tem cheiro de bolo, de caixeta com docinhos que não são brigadeiro (porque casamento não tem brigadeiro?). Casamento lembra vestido que a gente pisa depois que tira o salto alto quando já sente o pé dolorido de ter caminhado até o altar (ah, caminhada temerosa...!) e pisa na calda do vestido porque tá dançando “i will survive”...Casamento lembra as pontas de unhas com esmalte desgastado de tirar durexs que prendem um pedaço do papel de presente na caixa da panela de pressão, do pirex, da jarra de suco (porra, panela de pressão!). Casamento lembra dois canecos com cheiro de café, duas colheres, dois guardanapos descartáveis embolados e um prato com farelos de dois queijos – quentes, lembra quatro pés debaixo de um edredom, duas bocas na pia com pasta de dente. Casamento lembra saliência e sessão de cinema matutinas e revezamento pra limpada de bunda de criança. Casamento lembra um carro que não dá carona porque quase sempre tá com os cinco lugares preenchidos. Casamento lembra brinquedo espalhado na sala de visita, lembra danoninho e sopa batida na geladeira, lembra visitas na casa da vó e à pizzaria quase todo o final de semana...É, casamento...Casamento.

quinta-feira, julho 17, 2008

Alabastro

Escuridão. Há momentos em que somos impossibilitados de perceber o que há realmente em lugares onde a luz não alcança e assim nos encontramos duvidosos com relação ao que realmente existe e que pode acontecer.

Esta floresta é assim, obscura, mórbida. Não sei exatamente o que há ao meu redor, suas formas, mas reconheço o cheiro de ervas que nunca senti. Está frio. Muito frio! A umidade crava em meu peito e faz um rasgo enorme. É um ar que pesa no tórax. Parece até minhas obrigações que vivem sobre minhas costas.

Não sinto meu pulso. Acredito que meu coração parou de funcionar há muito tempo. Todavia, todas essas árvores, uma por cima da outra, assemelham-se a quantidade de coisas que já senti e que simplesmente vivem em meus sentimentos sem que eu me lembre, todos os dias, que permanecem aqui.

Ando na floresta pra encontrar um lugar aconchegante, que se pareça mais comigo. Estes gritos me assustam. Penso em pássaros e morcegos, mas a idéia de um ser desconhecido chegar e acabar com a minha vida, transmite medo. Como saberei se poderei vencê-lo se apenas imagino como é?

Está escuro, muito escuro. A superfície abaixo dos meus pés descalços é molhada, dura e esporadicamente inconsistente. Ainda agora pisei em minhocas ou vermes, não sei. Sinto frio, muito frio. Não posso dormir com todos esses sons. Tenho medo de animais peçonhentos... Ai! Um morcego... É horrível! Quero ir embora daqui!

Chegou aurora. Ainda sinto o cheiro de ervas e orvalho. Agora cantam os passarinhos. Meus pés sujos de terra dizem por onde eu andei. Minha roupa suja revela a pancada do morcego. Minhas olheiras, meu cansaço. Avisto uma árvore aconchegante, o frio é menor agora. Durmo para descansar, pois assim que a árvore não me satisfaça, parto em busca de outra melhor, mais ampla, com mais frutos.

Texto: Andressa Gonçalves.