domingo, agosto 31, 2008

cor.


As cores não consistem apenas nas sete cores do espectro luminoso – vermelho, alaranjado, amarelo, verde, azul, anil e violeta -, elas dizem respeito a uma cor de voz que diz, que recita, que canta. Essa voz, mesmo que não escutada, canta uma música arranjada em vários gêneros, algumas vezes com a presença de cordas ou mesmo de uma guitarra distorcida. E pra isso ser percebido, não é necessário uma pontuação correta. É claro que o hábito da leitura e a prática da escrita ajudam bastante para que a mensagem enviada ao receptor seja compreendida por ele com o sentido e com a intenção que o emissor imprimiu nas frases. Mas mesmo diante de algumas falhas no código do conteúdo enviado, para aqueles receptores que se encontram em sintonia com o emissor, esta emoção sempre é percebida.

É o que acontece, por exemplo, com a linguagem dos olhares entre duas pessoas que se encontram em uma sintonia recíproca. Elas geralmente se compreendem. Mas, nesse caso, como os olhos não podem se ver, a mensagem é transmitida com sucesso ao receptor na medida em que, com ela, implicitamente, se encontram as músicas, os desenhos e as fotografias compartilhadas, além de todo sentimento que é muito sincero e sem qualquer tipo de vício.

Com a linguagem verbal escrita nos comunicamos e percebemos, reciprocamente, a intenção das mensagens recebidas por nos encontrarmos em sintonia – eu emissor, tu receptor ou vice e versa – e, deste modo, descobrimos uma nova modalidade de sensibilizar nossos sentidos com a cor da voz que não escutamos. E essa cor é tão forte que nos proporciona a extesia, estabelecendo o contato entre nós e as sensações sinestésicas além da nossa visão.

terça-feira, agosto 26, 2008

O mundo onde perto do fogo a gente só se bronzeia.


eu não vou me restringir à fome ou à violência pra falar do fim pra onde o mundo tá caminhando, mas vou falar sobre a má índole dos meus vizinhos, do egoísmo dos que dizem ter me amado um dia e da falsidade daqueles que cruzam comigo e me distribuem sorrisos esperando que a distância nos separe para que me alfinetem como um vudu.

vou falar sobre a falta de respeito e de consideração e do uso de alguns seres humanos por outros seres humanos só porque aqueles são convenientes para estes.

eu tento até dissimular uma realidade que me violenta, vestindo-a com trajes de quinze anos, para que, no lugar de todas as merdas, sejam vistas rosas e sejam sentidos os olores mais agradáveis.

eu criei um mundo onde perto do fogo a gente só se bronzeia.

eu coloquei nas capas dos jornais mulheres saudáveis, trajando a saúde pós-moderna.

coloquei na minha sala - de - estar aquela nata, que mais parece uma qualhada (delícia!), mas que chega a causar uma diarréira violenta.

mesmo sabendo de todo esse ambiente podre, eu dissimulo porque é mais fácil assim.

por que franzir o cenho se eu posso me emocionar com as omlimpíadas? daqui a pouco chega o natal, depois o réveillon e logo o carnaval...

arte: Banksy.
texto: Buguela e o Sonho Feio.

sexta-feira, agosto 15, 2008


Na noite passada a chuva deixou o céu meio nublado, cheio de nuvenzinhas que se emendavam umas às outras, deixando a lua que estava cheia, ora escondida, ora à mostra. a temperatura caiu um pouco, disfarçando o calor que comumente invade a cidade.
Era aniversário de uma casa conhecida no município e a programação da noite desconhecida pela maioria das milhares de pessoas que se colocavam na fila ansiando um lugar na festa, atraia cada vez mais pessoas. era tanta gente que não mais se encontrava vagas para estacionar qualquer tipo de veículo.
A noite terminou com uma volta pra casa mais cedo que o planejado. o pensamento consistia em questionamentos acerca de qual seria o sabor da pizza que a esperava em casa e igualmente qual o filme que ela iria assistir.
na barriga haviam borboletas. nos ombros um cansaço. nos olhos o sono. no peito um princípio de saudade.

quinta-feira, agosto 07, 2008

beware


Cuidado com as palavras.
Do jeito que eu sou, depois de tudo o que me fizeste e me disseste, posso te dar amor.
Posso querer te dar carinho e te preparar um belo jantar, esgotando o meu ralo conhecimento de culinária.

Cuidado com os teus gestos.
Do jeito que eu sou, vou querer mostrar logo pra todos o quanto eu gosto de ti.
E vou te querer comigo no primeiro lugar bonito que eu descobrir, desde a semana passada.

Cuidado com as cartas que me escreves.
Do jeito que eu sou, vou começar a compor pra ti outras coisas bonitas que também vão fazer sentido pra outras pessoas que não sejam nós.

Cuidado com o jeito que tu me olhas.
Do jeito que eu sou...Já sabes, né?
Eu me apaixono, tu também e já era...
Seremos condenados a sentir as melhores coisas.

arte: Banksy
texto: Buguela e o Sonho Feio