quinta-feira, dezembro 31, 2009

Feliz Ano Velho!

No último dia do ano de 2008, no meio da tarde, estava no Rio de Janeiro. Já tinha feito as unhas em um salão na Tijuca e, arrumada e com o meu esmalte roxo, pegava o bonde para Copacabana (posto seis). A Avenida Atlântica estava fechada para os carros (as usual). A maioria em massa da população (maior parte de turistas) usava branco. Todos marchavam com flores e oferendas nas mãos da Barata Ribeiro, Nossa Senhora e adjacências rumo à "Copa" para jogar no mar as flores para Iaiá (que logo me faria descobrir ser a minha parceirona, mas isso fica pra próxima).

Um apartamento cheio de mulher doida e uma geladeira aborratada de cerveja me esperava lindo e sorridente . Passamos a noite inteira fazendo tudo o que pessoas comuns fazem num dia desses: dançando, bebendo, jogando conversa fora e rindo desesperadamente. Dez pra meia noite todas descemos para a praia e bebemos (desta vez champagne). Cantamos "adeus ano velho" e recebemos 2009 (que se foi voando) com cerca de vinte minutos de queima de fogos que não chegam aos pés dos fogos da transladação, da descida da Presidente Vargas.

2009 começou lindo com passeios em Ipanema e um monte de bofe escândalo no meio do caminho. 2009 acabou e mesmo que quinta tenha sido mais uma noite que virou dia, todos nos preparamos para que boas energias nos acompanhe no novo ano . Novas metas? Não, o de sempre: que seja diferente. Ano novo tem que ter novidade e terá. Olha a lista aí: primeira viagem internacional, matar a saudade do Rio de Janeiro, trabalhar na TV, assistir ao show do Cranberries, ler mais, escrever mais, ver mais filmes, voltar a tocar guitarra e conhecer a Toscana (além de ter saúde, paz, fé, tolerância e essas coisas que todo mundo precisa pra aguentar esse mundo de cão).

Feliz Ano Velho? Sim! E como coisa boa atrai coisa boa... já imaginam como tem sido desde sexta, né? Pintei minha unha de rosa, comprei um vestido com as cores de Vênus (planeta do amor, o astro que regerá 2010... Tá, prometi não falar mais sobre essas coisas, mas só um lembrete: adentraremos neste ano "the age of aquários"), usei uma calcinha feliz (acreditem no poder da calcinha) e... bem, o resto é segredo. Eu não uso mandinga, o meu papo é direto com Ele: eu peço e se Ele achar que me fará bem e se eu merecer, Ele manda. Com Ele ninguém pode, certo?

Para dar o impulso incial que vibrará as partículas de vosso corpo para que entrem em sintonia com as energias do cosmo e tenham um 2010 MA - RA, eis que posto um momento poético de 2009 como foram muitos outros.

FELIZ ANO NOVO!



domingo, dezembro 27, 2009

"The thing".


Os pinguins, macho e fêmea, vivem em torno de um mesmo objetivo: mater-se vivo e garantir a perpetuação da espécie. A cumplicidade e parceria reinam absolutas na sociedade de pinguins. Cada um precisa de um par para sobreviver. A dupla é a regra.





- Desencontros desconsertantes, desencadeadores de discórdias e desídias, definitivamente dilaceradores.
- Deixam dúvidas dinamitarem distâncias dolorosas, dicotomias dardejantes de dois doentios destruidores de dizeres denotativos.

Eu estava no quarto escrevendo quando tocou meu telefone. No visor, o 021 sinalizou que era um número do Rio de Janeiro. Retornei.

- Alô...
- Alô.
- André?
- êêêêê, jogadoooora...! A senhora retornou. Tenho lembrado muito da senhora...

A conversa foi breve porque precisaram usar o telefone. Ficou combinada a hora que ele retornaria a ligação. Um desencontro nos impediu de nos falarmos. Enviei a mensagem. "Esses tais desencontros desconsertantes, desencadeadores de discórdias e desídias, definitivamente dilaceradores." "Deixam dúvidas dinamitarem distâncias dolorosas, dicotomias dardejantes de dois doentios destruidores de dizeres denotativos", respondeu ele.

Uma afinidade existia, assim como um sentimento recíproco. Paixão, carinho, afeto...o segundo amor.

As empatias são assim, existem e ponto. Não adianta vagina de bota, chora nos meus pés, lavar a neném com sei lá o que. Quando é pra ter o "the thing", "the thing" existe e ponto. Começa sempre com uma boa conversa. Pode até haver uma troca de olhares, um sorrisinho maroto, um despir com os olhos que gritam "quero te pegar de qualquer jeito e tem que ser agora", mas a conversa é o start. E este "start" não incia um jogo, porque se tem jogo, é porque não tem "the thing".




Sim, a conversa.

A conversa começa com uma lista de assuntos que não acaba nunca. Sempre tem uma novidade, uma descoberta. É um troca troca de música, de filmes, de lugares legais para se comer não sei o que , ou beber sei lá o que. Lugares bons para "causar", para se pegar, para relaxar... As listas são infinitas. O melhor bolo, a melhor pizza, o melhor sushi, o melhor caldo de feijão...O desenrolar da conversa é tão fluente que o tempo passa ligeiro e é tão relaxante quanto qualquer coisa que você ache ser tããão relaxante.

Entre uma música e outra os pontos em comum aumentam. A cada nova conversa, novos prazeres, novas gargalhadas e pronto: já nos envolvemos completamente. Já era. É aí que chega o momento em que somos condenados a viver as melhores coisas, mas os receios de ontem que não nos deixam fluir com calmaria funcionam como freios ABS super eficientes. Medo de me arrebentar como me arrebentei quando tive que dar adeus ao André? Sim, medo. Dá um frio quando a gente pensa no impacto da dor, mas é tão gostoso se permitir.

A permissão nos causa boas sensações e más também, claro. A cada dia, uma vontade. A cada ato, uma recompensa. Um abraço apaixonado depois de uma fuga malabarística de casa numa madrugada de quando ainda se tinha dezesseis anos. O beijo roubado em um show de rock totalmente ignorado por aqueles dois espectadores. Uma rua pichada que grita "tô apaixonado por você!". Uma ligação triste que precedeu um casamento. Uma boa surpresa no sofá de uma boate onde só tocava música legal...Uma boa lembrança que foi embora pra Recife. "The thing".

"The thing" é tão gostoso quanto o som de um pau de chuva, de um piano suave, quanto um carinho na nuca, quanto uma pegada no cofrinho, quanto um beijo carinhoso enquanto se satisfaz a lascívia. "The thing" não chega a ser raro de acontecer, mas é incomum. "The thing" a gente não encontra, "The thing" acha a gente e quando estamos diante de "The thing", bem, cada um reage de um jeito. Uns se jogam(os) de cabeça, com sede por "The thing", tudo por causa do único objetivo de viver tudo o que tem pra ser vivido, porque esse tipo de coisa a gente não deixa passar. Outros mais tímidos, lidam com "The thing" cautelosamente. Muitas vezes nem sabem que "The thing" é "The thing". Tem alguns que preferem fazer de conta que não perceberam "The thing". Movidos pelo medo, receio ou frouxidão, tentam se abicorar do "The thing", inutilmente. Quando se rendem, às vezes já passou o momento.

Sentir "The thing" causa calos, pelo menos em mim, porque em todos os casos "The thing" veio e se foi. Mas "The thing" is always so gooood, so good.










quinta-feira, novembro 26, 2009

Peaches.


Sentiu falta de um chocolate meio amargo. Seu arroto estava com gosto de suco de pêssego. Depois de cantadas de pneu tomou um banho de areia que deixou o chão depois de um bater de vento. Rosas parecem não fazer tanto sentido agora.

Na porta de sua casa deixaram um quadro grande com uma imagem pouco familiar de um rosto que demonstrava um alívio em olhos pintados com delineador. Além do quadro, roupas que nunca usou e um saco cheio de algodões coloridos e lacinhos dourados.

Tudo o que queria agora era um chocolate meio amargo. Ah, os teimosos que reistem tanto em escutar. Queria querer tanto o natal, os planos, os doces e a certeza de um final não triste. Por que tanto medo de pular lá do alto num rio que se conhece? Medo, não. Falta vontade.

Seu lugar preferido agora é uma sala com muitas cores e duendes onde a vida não é levada tão a sério e as pessoas choram quando veem Amelie Poulin. Quanta bobagem em não deixar estar.

Deixa ela buscar sua Mother Mary, conhecer lugares pouco frequentados e fazer absolutamente nada sem ter que responder porque é tão prazeroso não deixar o tempo passar.

terça-feira, outubro 13, 2009

@#$&!?#&%*

Escrever. Exorcizar. Colocar tudo para fora. Espremer para que se extraia a última gota de onde quer que seja.
A mente está cansada e mesmo que as palavras de um texto passeiem pelo cérebro elas refletem, batem nos neurônios e voltam. São poucos os vestígios de suas passagens pelo raciocínio.
Nessas horas o cérebro está tão amortecido que os verbos não chegam a fazer cócegas nas sinapses. O corpo pede uma massagem. A boca, o beijo. As mãos, um lugar para fazer carinho.
Os olhos pedem o escuro. A língua, o doce ou o gosto da pele.
O olfato clama pelo cheiro de uns cabelos, de um perfume, de um amaciante que só se encontra naquela roupa.
A costa quer a cama. Os pêlos, o arrepio. O pescoço, o travesseiro. Os pés, outros pés. Quatro membros que se enrolam de baixo de um cobertor.
Escuridão. Silêncio.
Mais um dia.

Retalho.


não ouso em esconder minha saudade
mas eu sei que já é tarde para reparar remendos
e costurar uns rombos de um tecido tão cutâneo
lavar com sabão e enxugar

recato exposto em função do senhor mundo
tanto zelo em ser pra não ser nada
máscara posta em face do imundo
busca de um sentido sem sentido pra sentir

vou fazer do coração um origame
e deixar de dar tanto vexame
ao invés, dar sentimento
e fazer das emoções um tormento
que desarrumam a cama toda vez que tem visita em casa

quinta-feira, outubro 01, 2009

Quem eu sou e porque escolhi o jornalismo como profissão...

Uma curiosa pelo ser humano. Esta sou eu, Andressa Gonçalves, que desde a minha primeira crise existencial, ocorrida há dez anos, persigo as respostas de inúmeros por quês que tentam explicar a razão de ser do Homem e a razão de ser do mundo.

Profissão jornalista. Existe um meio melhor para alcançar este fim? Não. A psicologia pode compreender a formação substancial do homem e entender porque nos comportamos como nos comportamos. A sociologia pode explicar porque as sociedades funcionam do jeito que funcionam. A antropologia pode explicar porque somos o que lemos, o que escutamos, o que vivemos. Mas só o jornalismo flagra as situações que fundamentam o ser e o estar de cada um, em razão de um só fato: o jornalismo trabalha com o presente. O hoje e o agora são o objeto de trabalho do jornalista.

Tem coisa mais gostosa do que reportar para o mundo fatos sociais dotados de valor notícia que ocorrem em tempo real e escala global? Tem coisa mais prazerosa do que reportar uma informação que estará impressa nos futuros livros de história? Tem coisa mais deliciosa do que fazer tudo isso mediante a construção de uma mensagem que irá intimidar, seduzir, provocar e/ou tentar seu receptor? Claro que não.
Ser jornalista é querer saber de “tudo e mais um pouco” e mostrar para inúmeros receptores de nossas mensagens verbais ou imagéticas a razão de ser de um assassinato, de uma descoberta científica, de uma roupa que virou moda.

As investigações que nos levam às respostas do “que”, “quem”, “onde”, “quando”, “como” e “por que” desvelam realidades e nos mostram as entranhas do Homem que, com o passar do tempo, descobrimos ser capaz de tudo... E mais um pouco. Por mais absurda que seja a explicação de um fato, ela sempre existirá. E nós jornalistas buscamos respostas o tempo inteiro e eu não me canso de caçá-las.

Comunicar é inerente apenas ao ser humano. Por este motivo somos os únicos seres racionais entre os seres vivos. Esta característica, em mim, é aflorada demasiadamente. Sempre fez parte dos meus planos comunicar, veicular mensagens a receptores que as compreendam (a compreensão do receptor concretiza o processo de comunicação). Para comunicar observo o ser humano para melhor compreendê-lo e saber “o que” e “como” escrever para seduzí-lo através de meus textos que terão seus conteúdos absorvidos por um leitor que refletirá sobre eles por um minuto que seja.

Sempre tive curiosidade em saber como as pessoas se tornam o que são, como aprendem, como armazenam informações. Em um primeiro momento procurei justificativas químico-biológicas, mas depois entendi que se tratava de cultura. Nada melhor do que compreender o outro para escrever para ele. O resultado dessas constantes observações combinadas com um estudo sobre semiótica e cultura brasileira me levou a montar o blog “Buguela e o Sonho Feio” que trata sobre “coisas que brotam de dentro pra fora por conta do que vem de fora pra dentro”.

Eu quero saber, compreender e escrever sobre. Adoro as mudanças, adoro o relativo, adoro pontos de vista. Adoro as resignificações. É muito positivo rever o significado de símbolos, signos e índices, afinal é o homem que atribui suas denotações e conotações. Como o ser humano não é e sim está, as significações não podem ser perpétuas. O melhor meio que nos leva à resignificação é o contato com o ponto de vista alheio. E como se dá isso? Através da entrevista!

Ser jornalista é a minha realização mais profunda já que a profissão engloba tudo o que eu mais amo fazer: ler o mundo, as pessoas e escrever sobre ambos. Fazer este exercício implica em conhecer um pouco de todas as ciências humanas. Como adoro estudar o homem, não preciso me ater a somente um de seus aspectos. Ser jornalista é conviver com perguntas, perseguir respostas e investigar o melhor meio de fisgar o leitor para consumir a informação que veiculo e fazê-lo não só ter prazer ao consumi-la, mas se sentir inserido em uma coletividade que tem a mesma sensação.

quinta-feira, setembro 17, 2009

A vida continua e o sol nascerá mais outro dia.

Sol. O dia amanheceu ensolarado, contente. Parecia um convite a um passeio descompromissado que terminaria com um sorvete de sonho de valsa da Cairu. Não era esperado que dois moços nojentos pulassem em cima de mim e me levassem um cordão, uma pulseira e três pingentes que aguardavam o iminente roubo desde à época em que se recolhiam na gaveta do meu criado mudo.

A João Balbi estava em paz. A 14 de março repousava tranquila, com cheiro de banho tomado. Quando cheguei na Nazaré já senti aquela harmonia do círio. Que energia! Tudo psicológico, mas o astral estava inspirador.

Interrompi todo o prazer quase hedônico com um questionamento: "qual é a parada dos ônibus que passam pela Br?". "Aquela do CAN", lembrei. Espremendo os meus olhos por causa do sol, bem como para enxergar o nome do ônibus azul que se aproximava, estiquei o braço direito. O motorista não me viu. Passou direto. Mas dois rapazes astutos não só me enxergaram como perceberam o meu pescoço e o meu pulso esquerdo. As jóias nem eram tão perceptíveis. (Mas besteira minha de não ter saído "pelada", sem nada.) Perdemos o direito até de nos embelezarmos. Acontece.

Eles me viram. Pularam em mim. "Filho da puta, larga o meu cordão", disse pro desgraçado enquanto atraquei na correntinha, tentando impedir o roubo. O outro se aproximou. Pensei que fosse uma ajuda. Ele pulou no meu pulso e me arrancou a pulseira. Que vontade de estourar aquelas bochechas imensas. Levaram tudo, menos o cordão que caiu com o fecho arrebentado no meu pescoço, mas sem o pingente.

A parada tinha bastante gente. Mas cada um ficou na sua apreciando o crime enquanto eu dava o meu jeito de me defender. Eu segui o meu caminho, assim como todos eles. Inclusive os meliantes. Uma senhora se aproximou. "Minha filha, você foi assaltada?".

Óbvio.

sexta-feira, setembro 11, 2009

hora hora


A arte de não fazer nada. Não sei fazer esta arte. Quisera eu fazer tudo e sempre iria existir a vontade de fazer o "mais um pouco".

De olho no relógio. Passar o dia calculando se as 24h darão para tudo o que se quer fazer, para tudo o que se tem para fazer. É essa a rotina que eu adoro. Detesto não ter compromissos ou preocupações rondando a cabeça. Qual a graça de não resolver nenhum pepino, de tudo dar certo?

A gente reclama, mas no fundo adora o dia apertado, os trabalhos de faculdade, pesquisa de TCC, matérias de rua, coletiva, uma pauta de última hora pra ontem...um milhão de textos para ler, outro milhão de textos para escrever.

O final do dia não é a hora do descanso, porque sempre tem uma coisa pra fazer. Tem uns que se descabelam porque o tempo os consome. Eu aprendi a dilatar o tempo. Também sei como se faz para ele correr ligeiro. Mas é segredo.

Sabe aquela coisa do "não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã porque o dia de amanhã já guarda as suas próprias preocupações"? Pois é.

sexta-feira, julho 10, 2009

O segredo da Victoria



Creme. Muitos cremes. É assim que fica a situação cutânea. Cheiro de rosas, de bom - bom, de chocolate, de cera de depilação. Adoro o cheiro de líquidos rosa-claro que fica no quarto. É uma mistura de tantos olores que o ar se torna um coquetel de gases bem cheirosos. A gente sempre se abraça, sorri... "ai, saudade!". Todas nos jogamos onde dá, escutamos aquele set de músicas "over and over and over". A gente nunca cança. O quarto fica uma bagunça e sempre há várias tonalidades de pó espalhadas pelos lençóis. O banheiro fica uma desgraça.

Conversamos, rimos, falamos alto. Não paramos um minuto e mesmo assim a pauta de conversas nunca chega ao fim, mas chega a hora de tocar com a boca aqueles fiozinhos de massa que a gente cozinha por três minutos e depois tempera. Estouramos milhos e os comemos, mas só escovamos os dentes muitos minutos depois de ingerí-los.

O tempo passa rápido apesar de muitas vezes parecer estático enquanto estamos entre paredes que guardam qualquer tipo de informação veiculada naquele espaço. Música. Mais música, mais dancinha, mais conversas, mais pós coloridos, mais tudo outra vez.

É um "brain storm" de coisas engraçadas e inusitadas. Quanta criatividade. A gente nunca se cansa. Pode o mundo cair lá fora, a gente não tá nem vendo. Nem escutando, também. Quando amigas se reúnem é assim, desse jeito, dessa maneira. Cremes, muitos cremes.

Segredo da Victoria.


terça-feira, junho 23, 2009

Teatro do Absurdo: o ilógico que invade os palcos


Por Andressa Gonçalves

Surreal. É esta a palavra que descreve o Teatro do Absurdo. O termo criado pelo crítico norte - americano Martin Esslin caracteriza todas as peças produzidas nas décadas de 1940 a 1960 que abordam o tratamento inusitado da realidade.

Em Belém do Pará, Jogo de Sete e A Cantora Careca, são espetáculos Absurdos das companhias Em Cores e Thaetro de Performances & Espetáculos. Com enredos constituídos de elementos chocantes e ilógicos que norteiam o cenário, os figurinos, os diálogos e os personagens, as narrativas tecem críticas sobre a sociedade moderna e difundem uma ideia subjetiva acerca do obscuro e do que não pode ser visto e nem sentido.

O Teatro do Absurdo é o sonho que invade o real. As companhias apresentam no palco a crise social vivida pela humanidade. Uma das primeiras produções absurdas, A Cantora Careca (1950), de Eugene Ionesco (que se inspirou nos diálogos “absurdos” de um livro didático de inglês para construir sua narrativa), é montagem da companhia Thaetro que apresentou a peça pela primeira vez em 2003, no Festival Criação Volkswagen, onde representou o Pará.

Quem assiste ao espetáculo, se impressiona de imediato com os figurinos. Todos em preto e branco constituindo uma harmônica e inusitada combinação de estampas. Os sapatos usados em cena denunciam a preocupação do diretor Chagas Franco com cada detalhe do espetáculo: foram todos pintados à mão.

O cenário é composto por quatro cadeiras e um relógio de ponteiros, localizado na parte central do fundo do palco, cujos algarismos são absurdamente ilógicos. Os personagens, todos com ótima postura, satirizam a sociedade aburguesada do século XX. Com narizes empinados, rostos e cabelos pintados de branco, proferem diálogos alienados em uma melodia peculiar. Durante o espetáculo, o público recebe a maior surpresa: um silêncio de aproximados 20 minutos.

Jogo de Sete, da companhia Em Cores, trata sobre as tensões humanas que existem na linha tênue que separa o pecar e o amar. Na trama, sete pessoas se relacionam com Julia, a principal personagem da história, que assim como a Cantora Careca, fica a cargo da imaginação do público.

Um, Dois, Três, Quatro, Cinco, Seis e Sete são os personagens que retratam as loucuras, as anormalidades e o surrealismo que todo ser humano apresenta. Por meio de diálogos constituídos pelo jogo de palavras, melodias e passagens bíblicas, os Jogadores materializam o irreal (ou o reprimido) pelas pessoas “comuns” que temem em encarar a anormalidade e ser leal às suas próprias insanidades. O preto é, igualmente, a cor trabalhada nos figurinos. A monocromia é quebrada com sete vendas coloridas, cada uma de uma cor do arco-íris.

Sobre a origem da peça, explica o diretor Haroldo França que “a montagem começou como pura experimentação de um grupo que estava começando, com um diretor dramaturgo que também estava (e ainda está) se descobrindo. Eu tinha o desafio de costurar dentro de uma mesma peça, sete personagens propostos por sete atores, cada um com seus objetivos e seus conflitos. Atentei para o número sete, e costurei a trama trabalhando a temática dos mistérios que surpreendem nas ocorrências deste número, trabalhando principalmente com os sete pecados capitais. Depois disso, começamos a desconstruir tudo de novo, num processo de devaneios que eu acho fascinante pra qualquer artista. Hoje, o Jogo de Sete já é outro trabalho, mais consistente”.

Haroldo teve o primeiro contato com o Teatro do Absurdo, através da peça Nosso Qorpo Santo, encenada pelos alunos do primeiro ano do Curso Técnico de Formação em Ator da Escola de Teatro e Dança da UFPA. O interesse pelo gênero foi imediato e o levou a fazer o teste de seleção para ingressar na instituição.

Quando interrogado sobre o que mais o atrai no gênero teatral, Haroldo responde: “um professor meu usava uma metáfora interessante para explicar isso, ‘entreguem o bolo inteiro pra platéia, não mastiguem por eles’. Acho fascinante a ideia de obrigar o público a ‘mastigar’ todo o material semântico que despejamos neles. E mais fascinante ainda é perceber que cada pessoa tem apreensões diferentes do espetáculo”.

A peça Absurda tem narrativa alinear, personifica o ilógico na personagem Júlia, a protagonista, que nunca aparece, mas que tem um pouco de si em cada personagem. “O mais ilógico é que eles vêem a Júlia uns nos outros, ou no invisível e até em partes de seus corpos. Em certo momento da peça, os atores falam ‘sete e sete são quatorze, com mais sete vinte e dois, somos sete jogadores e a Júlia vem depois! ’. Esse trecho mostra bem como a dramaturgia assume a questão do ilógico, quando tenta legitimar uma conta que não tem lógica matemática”, complementa.

Jogo de Sete é o Teatro do Absurdo pós-moderno. A narrativa trabalha principalmente o elemento humano e explora seus sentimentos, sensações, dores e prazeres. “Eu vejo o Jogo de Sete como uma brincadeira. Claro que a obra aponta para as mais diversas direções, e toca, sim, em feridas do ser humano, mas o meu intuito pessoal ao montar esse espetáculo é simplesmente jogar, brincar de misturar conflitos, sensações, sentimentos; causar estranhamento e encanto no público.”

segunda-feira, junho 08, 2009

Perfil: Andressa Gonçalves coloca tudo pra fora

Roxo. Essa é a cor da parede da sala. Andressa Gonçalves se encontra sentada em um sofá verde limão. Ao redor, muitas árvores que podem ser vistas pelas várias janelas. “Tudo bem?” “Tudo tranquilo”, responde a entrevistada com um sorriso discreto.

A escritora e jornalista iniciou sua produção textual aos treze anos. “Eu tive uma crise existencial. Acho que porque estava naquele negócio de compreender a adolescência e dar um tchau pra infância. O meu primeiro beijo aconteceu quando eu ainda brincava de boneca.” Alabastro foi o primeiro texto a ser escrito, uma poesia autobiográfica que abusa em metáforas. “Eu sempre gostei de falar sobre mim, mas sou orgulhosa o suficiente para não conversar sobre as minhas particularidades com os outros. Besteira”, confessa.

A moça branca, trajando um saião que fez de vestido, conta que cresceu com dois irmãos mais novos e o pai. Em uma casa em Ananindeua, município da Região Metropolitana de Belém, onde mora até hoje. A mãe esteve pouco presente. “Meu pai me ensinou as primeiras palavras em inglês, a pintar e a compreender que música boa é feita com guitarra, baixo e bateria. Eu e os meus irmãos sempre tivemos contato com arte, manifestações culturais. Meu pai sempre leu muito. O fato dele ter sempre respostas pras minhas perguntas aguçou em mim a vontade de saber de tudo ou quase isso.”

O primeiro vestibular prestado foi para medicina. Não passou. No cursinho, descobriu a paixão por ciências humanas. Foi aprovada no curso de Direito da Universidade Federal do Pará que concluiu com dificuldade. “No Brasil, muitas pessoas não levam nada a sério. Isso aconteceu comigo na Federal. A minha turma sofreu muitos problemas com falta de professor, de aula, com greve, fora o mau temperamento dos funcionários da universidade. Parecia que eles faziam tudo para gente desistir, mas se ferraram porque a gente conseguiu e eu ainda publiquei o meu tcc (risos).”

O trabalho de conclusão de curso foi sobre a liberdade de imprensa e o respeito ao direito de privacidade. “A sociedade pós-moderna tenta relativizar o conceito de respeito e acaba violando direitos básicos que toda pessoa tem, mas que, por uma questão cultural de ultrapassagem de limites, pensam que não podem impedir certos abusos. Sou totalmente a favor das resignificações, mas elas têm que ser positivas.”

“É verdade que você já atuou e fez parte de uma banda?” Surpresa, Andressa solta uma gargalhada. “Nossa! Como vocês conseguiram essa informação? Fizeram o trabalho direitinho! Eu sempre gostei de me ocupar. O meu vício sempre foi sugar todas as minhas energias e me esgotar produzindo coisas legais, criativas, úteis para as pessoas. A vida está aí pra ser vivida, não é? Eu atuei quando ainda era jovem, fiz parte de uma banda, também. Maristela. Eu adorava compor. Sempre gostei de escrever. No caso do teatro, a experiência foi diferente e exótica porque eu escrevi usando uma linguagem não-verbal, só com partitura de corpo. Criar é muito bom.”

Andressa diz sempre ter sido curiosa sobre como as pessoas se tornam o que são, como aprendem, como armazenam informações. “Eu procurei justificativas químico-biológicas, mas depois de ler Laraia (Roque de Barros Laraia), entendi que se tratava de cultura.” A compreensão acerca do aprendizado e da constituição cultural das sociedades fez com que a escritora criasse o blog Buguela e o Sonho Feio: “Já tive depressão que eu entendo como um problema comunicacional. Tenho muitos símbolos e signos que precisam ser resignificados, mas os traumas são um pouco difíceis de se trabalhar. É do mau estar, causado pela depressão, que vem o Sonho Feio. Buguela significa ‘menina’, uma expressão criada pelo meu irmão caçula. O blog foi uma forma de colocar para fora a digestão das informacoes que absorvo no cotidiano”.

“Coisas que brotam de dentro pra fora por conta do que vem de fora pra dentro” é o slogan do espaço virtual (hoje "Borrão") criado por Andressa quando ainda estava na adolescência. Quando pergunto sobre o por quê de ter dado continuidade ao blog, Andressa responde: “Sabe os risquinhos na parede que os pais fazem para marcar a nossa altura e deixam lá para comparar com a próxima medição? É assim que funciona o blog. Ele mostra o meu crescimento como mulher, como ser humano. É interessante olhar para trás e ver que eu não falei tanta merda (risos), que eu tive coisas interessantes para serem ditas.”

Aos trinta anos a escritora publica o livro Buguela e o Sonho Feio com os melhores textos do blog. “O livro coloca tudo pra fora, sem restrição. Foi muito gostoso trabalhar com ele porque não tive imposições de limites do editor e nem mesmo do meu próprio super eu (risos). Quanto mais tempo na análise, menos a gente se importa com a opinião alheia. As minhas reflexões só fazem sentido se externadas. Eu gosto que as pessoas saibam sobre a minha opinião, que conheçam os meus tormentos, os meus fantasmas. Que chorem, deem risadas, sintam medo, raiva, prazer junto comigo. Eu sou o que eu leio. Eu sou o que eu escrevo. Gosto do fato de ‘estranhos’ poderem saber sobre algumas percepções minhas.”

Depois de algumas fatias de bolo mesclado, ao leite, com chocolate, e alguns litros de suco de laranja, Andressa acompanha a equipe de reportagem até a porta: “Adorei a entrevista. Foi completamente narcísico”.

quinta-feira, maio 28, 2009

Perguntas Lilás: entrevista com Haroldo França

Buguela e o Sonho Feio conversou com o diretor do espetáculo em cartaz em Belém.

1) Quando ocorreu o teu primeiro contato com teatro do absurdo?

Aconteceu quando assisti ao espetáculo Nosso Qorpo Santo, montagem do primeiro ano do Curso Técnico de Formação em Ator da Escola de Teatro e Dança da UFPa. Um mês depois, me inscrevi no processo seletivo para ingressar no curso.

2) O que te atrai no teatro do absurdo?

Um professor meu usava uma metáfora interessante para explicar isso: "Entreguem o bolo inteiro pra platéia, não mastiguem por eles". Acho fascinante a idéia de obrigar o público a "mastigar" todo o material semântico que despejamos neles. E mais fascinante ainda é perceber que cada pessoa tem apreensões diferentes do espetáculo.

3) Como surgiu o Jogo de Sete?

O Jogo de Sete começou como pura experimentação, de um grupo que ainda estava começando, com um diretor dramaturgo que também ainda estava (e ainda está) se descobrindo. Eu tinha o desafio de costurar dentro de uma mesma peça, sete personagens propostos por sete atores, cada um com seus objetivos e seus conflitos. Atentei para o número sete, e costurei a trama trabalhando a temática dos mistérios que surpreendem nas ocorrências do número sete, trabalhando principalmente com os sete pecados capitais. Depois disso, começamos a desconstruir tudo de novo, num processo de devaneios que eu acho fascinante pra qualquer artista. Hoje, o Jogo de Sete já é outro trabalho, mais consistente.

4) Jogo de Sete conta a história do que / de quem?

A peça expõe sete seres humanos - alguns com uma dimensão bastante animalesca - que se confrontam com os pecados capitais, através da relação deles com uma mulher - Júlia -, que está presente em todos os momentos da peça, mas, que ao mesmo tempo, nunca aparece.

5) O teatro do absurdo é um estilo de peça influenciada pelo surrealismo que trabalha elementos do ilógico, do irreal, trata do sonho (de dormir mesmo) que invade o real. O que tem de sonho, de absurdo no Jogo de Sete?

O enredo da peça não trabalha com uma narrativa linear, ele trabalha com fragmentos de narrativas que se cruzam em alguns momentos, causando os mais diversos efeitos de sentido. Uma boa personificação do ilógico, na peça, é a própria personagem Júlia, que é a protagonista, mas que não está na peça, e que ao mesmo tempo, está dentro de cada um dos outros personagens. O mais ilógico é que eles vêem a Júlia uns nos outros, ou no invisível, e até em partes de seus corpos. Em certo momento da peça, os atores falam "Sete e sete são quatorze, com mais sete vinte e dois, somos sete jogadores e a Júlia vem depois!". Esse trecho mostra bem como a dramaturgia assume a questão do ilógico, quando tenta legitimar uma conta que não tem lógica matemática.

6) As produções do Teatro do Absurdo (décadas de 1940, 1950 e 1960) tinham a função de provocar no público a reflexão sobre o paradoxo, a incoerência e a ignorância de seus personagens, e teciam críticas a respeito da sociedade hipócrita de suas décadas. O Jogo de Sete tem essa mesma função ou é teatro do absurdo apenas por ser uma peça ilógica, fora da normalidade da maioria das peças?

Acredito que a existência da obra de arte se completa nela mesma, não necessita de uma "função". Mas o Jogo de Sete, a partir do momento que toca na linha do ilógico, pode se encaixar na mesma filosofia desses outros trabalhos. Mas isso eu deixo para os intelectuais, acho que o que vai importar para o público é o esforço de entender as regras ilógicas desse jogo, e tentar, das mais diversas formas, entender o que se passa com aquelas pessoas, e com Júlia.


7) Jogo de Sete trabalha principalmente o elemento humano, no sentido de explorar seus sentimentos, sensações, dores, prazeres, etc. O intuito do Jogo é mostrar os diversos tipos de sofrimentos e loucuras que toda pessoa tem, por mais que não queira admitir que elas existem? (é esse o ponto da peça que trabalha a hipocrisia da nossa sociedade em fazer de conta que a loucura só existe nos manicômios?)

Eu vejo o Jogo de Sete como uma brincadeira. Claro que a obra aponta para as mais diversas direções, e toca, sim, em feridas do ser humano, mas o meu intuito pessoal ao montar esse espetáculo é simplesmente jogar, brincar de misturar conflitos, sensações, sentimentos; causar estranhamento e encanto no público. Não posso prever se o espectador vai se identificar com o que ver, ou se vai estranhar; afinal, a obra de arte só se completa quando assimilada pelo interlocutor.

8) Por que todos devem assistir ao Jogo de Sete?

Creio que, para esse tipo de trabalho, é preciso conferir antes de fazer qualquer juízo de valor; já que o mais provável é que as pessoas saiam do teatro com as mais diferentes sensações.