terça-feira, abril 21, 2009

How does it taste like?


Amor. Desejo. Devoção extrema. Dedicação absoluta. Veneração. Culto. Adoração. Atração física. Afeição. Amizade. Carinho. Simpatia. Ternura.

Amor. Frio na barriga que espreme as vísceras, seca a boca, faz o ar faltar. Adrenalina. Seja por uma surpresa que provoca o gozo, seja pelo susto medonho que traz à tona os pesadelos.

Amor. Pele. Pêlos. Peitos. Fluidos. Coxas. Fricção. Esforço intenso que caminha pra uma explosão. Suor. Transpiração. Pêlos eriçados. Pupilas dilatadas. Respiração ofegante. Gemidos.

Dor. Desespero. Desencontro desconcertante, desencadeador de discórdias e desídias, definitivamente dilacerador.

Dor. Dacnomania. Dente cravado na carne. Prazer dionisíaco.

Lascivo. Concupiscente. Hedônico. Bacanal.

Posse. Amor monopolizado. Individualizado.

Monogamia! Meu, meu! Teu, teu!

Nosso...?! Egoísta!

Amar. Amar como? Amar a quem? Amar o quê?

Objeto depósito do meu inconsciente.

Desejos sórdidos.

Meus!

Mãos dadas. Amor sadio.

Mãos acorrentadas. Amor doente.

Mãos esporadicamente trocadas. Amor moderninho.

Mãos pra sempre atadas. Amor.

Amar a ti. Amar teu corpo, teu cheiro, tua saliva, tua pele, teus fluidos.

Amor doença. Tu, remédio do meu oco afetivo.

Amar teu sorriso, amar teu abraço, amar teu olhar, amar tua conversa.

Amor que cura. Tu, amigo que desejo.

Sem niilismo. Sem hipocrisia.

Subjetividades que se fundem quando se ensaia o ato que perpetua a espécie.

Amor narcísico.

Me amo tanto que me comeria pelo mero prazer de sentir meu próprio gosto.

Me desejo tanto que prefiro a solidão para poder contemplar unicamente o meu próprio reflexo.

Cálido amor. Apaixonante.

Eu, eu mesmo. Eu, tu. Nós.

Poligamia!

Paixão. Projeção. Imagem. Criação. Ludismo. Epicurismo.

Paixão que passa. Irracionalidade mutilada. Irracionalidade que mutila.

Coerência. Consciência.

Virtudes remanescentes.

Amor que fica.

Incondicional.

quinta-feira, abril 16, 2009

Páscoa.

por Andressa Gonçalves


Paixão. Sexta-feira. Mais uma vez prenderam Jesus Cristo na cruz e simbolizaram suas sete últimas palavras por meio do apagar de sete velas.

O dia amanheceu cinza, como sempre. Como sempre as ruas da cidade estavam desertas e abrigavam um mórbido silêncio, mas no apartamento 1901 ouvia-se música alta.

Manhã de sexta-feira. Antonieta saiu de casa (do apartamento 1902). A salada e o risoto de bacalhau já estavam prontos desde a véspera. Toda Sexta-Feira Santa a família Campos acorda cedo, toma banho e depois de um café da manhã reforçado vai para a Igreja. A Igreja que não é uma Igreja, mas sim uma Capela, é um anexo do Colégio Santo Antônio outrora asilo, depois de ter sido um manicômio. É nesta capela que tradicionalmente, há exatos 130 anos, é “celebrada” a cerimônia das três horas da agonia sofridas por Cristo (por que celebrar a agonia de alguém?). Incoerências à parte, onze horas a família Campos se encontrava sentada em lugares muito próximos ao púlpito de onde o padre proferiria sábias palavras que compreendiam até mesmo a teoria da ação comunicativa de Habermas.

O ritual sádico que rememora o assassinato de um bom homem foi antecedido por um “terço” comandado por um sujeito que declamou, a cada dezena de Ave-Marias, os “mistérios” muito bem decorados, o que o denunciou como um assíduo “rezador”.

Enquanto nos bancos, ocupados em sua totalidade, rezava um coro quase que predominantemente constituído por mulheres, nos demais púlpitos da capela, e onde quer que se pudesse colocar uma câmera, posicionavam-se cinegrafistas e fotógrafos para capturar o melhor ângulo de uma imagem que ilustraria uma matéria com pouquíssima novidade. Os cinegrafistas, todos homens. As repórteres, mulheres que de posse de um microfone com o cabo enrolado, uma caneta e um papel bem amassado, já colhiam as informações que constituiriam um futuro off e umas passagens.

Meio dia. A partir daquele instante, tudo o que se ouviria além do coral de cantores líricos, muito bem afinado, seriam as reflexões do Padre Antropólogo e Doutor em História da Igreja. Todo o discurso deste homem foi naturalmente constituído por passagens da Bíblia, mas sabiamente concentrado na contemporaneidade. “Ao contrário de uma música que toca muito por aí, o amor não mata! Isso é uma grande bobagem”, disse ele.

O coral entoava um belo canto cujas ondas invadiam a capela constituída por vários estilos artísticos. As paredes brancas e os azulejos barrocos, o teto ogival sem a função estruturalista gótica e as colunas gregas de capitel coríntio (cilíndricas e quadriláteras), refletiam o lirismo de vozes maduras de senhores e senhoras de meia idade que se dedicaram com muito esmero para aquela cerimônia. Os cantos faziam eriçar os pêlos de tão belos.

Antes de cada vela apagada, um canto entoado. Depois de cada vela apagada, um discurso bem planejado. Por três horas todos ficamos sentados. Por três horas todos escutamos. Por três horas, todos refletimos (nem que fosse por um mísero minuto).

Uma pluralidade de acontecimentos se passava naquele recinto temperado com melancolia, cansaço, tensão, concentração, devaneios. Enquanto alguns escutavam atenciosamente as palavras do padre, outras se preparavam para a gravação das passagens, outros se concentravam no ajuste das lentes de seus equipamentos, outros aqueciam as suas vozes, alguns sentiam orgasmos intelectuais (como pode este padre falar coisas tão fantásticas?!), alguns sentiam o tédio e uma vontade enorme de voltar pra casa.

Sete velas. Uma apagada por vez. Sete quedas. Sete cores do arco-íris. Sete igrejas do apocalipse. Sete colinas de Roma. Sete trombetas. Sete pecados capitais. Sete palavras. Várias simbologias em um texto escrito, sonoro e imagético que durou três horas.

Cruz. “A cruz”, disse o padre, “para os antigos era sinal de maldição, consistia na penalidade suprema para Cícero. Eram vários os tipos de crucificação. As cruzes eram enterradas no solo ou mesmo escoradas nos muros localizados fora da cidade. Somente os nobres tinham o direito de não morrer crucificados”. Ele deixou claro, muito claro que só os desgraçados eram merecedores da cruz. E revivíamos, ali, todos, o assassinato daquele desgraçado que volatilizou seu corpo dois dias depois e subiu aos céus, sem deixar qualquer vestígio material.

A família Campos continuava sentada. Quieta. Introspectiva.

Viu o bom homem ser torturado, humilhado, crucificado. Presenciou o seu assassinato à prestação. A sua sede. O seu medo. O seu sentimento de dever cumprido (valeu o sacrifício?).

Uma vela para o final da agonia. Um esclarecimento: “Ele não morreu para nos livrar da morte e da dor. Enquanto existir natureza humana, dor e morte existirão. Cristo nos acompanha na dor e na morte. Temos que resignificar esses signos para podermos aprender a viver o amor e a felicidade para podermos buscá-lo”.

Não se sabe se esse discurso comunica. Não se sabe se a família Campos e o resto das pessoas que o escutaram decodificaram a mensagem. Mas sete velas se apagaram. Sete palavras foram ditas, faladas, explicadas, discutidas, dissecadas.

Três horas da tarde. Adentra a capela uma imagem do Senhor Morto que traz consigo um forte olor de uma planta que se desconhece, mas que se sabe que é cheirosa demais. Ao passar pela nave central da capela, são muitos os que se esticam ao máximo que podem para tocar aquele corpo assassinado. Todos trajam roupas pretas, roxas ou de uma cor neutra, nenhum pouco quente. Um velório é simulado. Mas as lágrimas partem do peito como se aquele jovem homem tivesse acabado de perder a vida. Bizarro? Pitoresco? Macabro?

É entoado um canto lírico agressivo e cheio de melancolia. Um ritual termina. A família Campos retorna para casa. Faz silêncio no apartamento 1901.

No resto do dia não se comerá carne vermelha. No resto do dia sete igrejas serão percorridas por aqueles que desejam alcançar uma graça. No resto do dia serão veiculados nos canais abertos filmes sobre a Sua morte.

Sábado. Judas é malhado (será que todos sabem o porquê de se pendurar aquele boneco no poste?).

Domingo. Ele ressuscita. Eis que retornamos ao niilismo cotidiano: onde estão os chocolates?

terça-feira, abril 07, 2009

Ô cidadezinhas...

Lá foi onde eu mais me senti em casa. Onde pude encontrar pequenas coisas que fascinam a mim e a qualquer ser humano que aprecia os detalhes, as minúcias que qualificam um lugar, uma rua, um banheiro, uma calçada, uma escada, um circo...É tudo poético. Encanta. Parece até uma toalha de mesa feita por retalhos e bordada à mão.

A impressão que dá é que cada ponto de lá foi projetado com muito esmero por um autêntico brasileiro.


Niterói, Camboinhas: a praia onde o pôr-do-sol purpurina a água e pinta o céu com tons de lilás.


O lugar mais democrático do Rio de Janeiro.


Copacabana: estrangeiros que pulam "corda".


Copacabana: a paz a poucos metros do asfalto.


Cabo Frio: nenhum pouco tímido diante de tanta água.


sexta-feira, abril 03, 2009

Lotação


por Andressa Gonçalves

Sexta-feira, 18 horas. Um ônibus a cem quilômetros por hora atravessa a Avenida Augusto Monte Negro. No meio de tantas pessoas e do pouquíssimo espaço restante, tenta transitar um vendedor de “chocogel”: “boa noite! Gostaria de apresentar o meu “novo” produto “chocogel”, que é o chocolate gelado, muuuuuito gostoso, com recheio cremoso. Um por quarenta centavos, dois por setenta e três por um real...”. É bem difícil de acreditar que a esta hora, depois de uma semana puxada, trabalho de manhã e aula à noite, em pé há mais de uma hora no “bonde”, um “plus” além do vendedor do “chocogel” aparece pra importunar a nós que estamos na “pindaíba”. Porque diabos foram inventar o “chocogel”?!

Enésima parada do coletivo. Sobe uma bunda. Sim, uma bunda porque aquilo ali era um complexo de ancas e não um ser humano! A mãe da senhorita, quando na maternidade, na ânsia de saber o sexo do bebê perguntou ao obstreta “doutor, e o sexo, doutor? Qual é o sexo?”. “Não sei, minha senhora. Até agora só enxerguei bunda”.

Uma doceira. Tinha que ser uma doceira! E tava com um “cc” que Deus o tenha! Foi só ela entrar no ônibus que o coletivo virou um sovaco com rodas. A gorda subiu e logo o “motora meteu o pé”. Evitando uma queda, a mulher se atracou no ferro metendo a catinga na cara de um velinho que ia sentado no primeiro banco alto, logo depois da porta de entrada.

Foi metendo a bunda, a sacola e a axila fedida por entre os passageiros, amassando gente, desmaiando gente até que, enfim...A catacra. Pra rodar a roleta foi um sacrifício, maior do que já tinha sido pra tirar o trocado do bolso e pagar a passagem. Enquanto isso o motorista só “pisava” e metia o pé no freio sem piedade: “estás dando carona pra tua mãe, filho da puta?”, grita alguém lá de trás, de algum buraco, provavelmente.

O odor da gorda não passou despercebido e logo o cobrador olhou pra ela com o rosto no mais alto nível de contorcimento dos músculos “poxa, minha tia! Mataram uma mucura e esconderam debaixo do seu braço?”. A doceira já se “emputeceu” e girou a catraca com toda força, amassando mais gente, empurrando mais gente, esfregando o sovaco no nariz de mais gente.

Uma moça que ia em pé, ao meu lado, desmaiou. Não sei se por causa do “cheirinho”, ou do aperto, ou dos dois. A menina nem chegou a cair totalmente, pois o aperto era tanto que ela permaneceu quase em pé. Logo as pessoas se manifestaram: “Mas que porra, sua gorda! Tu não ‘pode’ ter mais cuidado ‘pra’ andar nessa merda?”. “Caralho! Tu ‘podia’ ter tomado um banho! Alguém tem um limão galego?”. (A situação a essa hora: sovacão voando na Augusto Montenegro; a Gorda ouvindo aos montes; 91% da tripulação puta da vida ou passando mal - o percentual restante compete a Gorda que valia por vários passageiros.)

Foi então que a Gorda tentou se pronunciar e todos percebemos que a mulher era gaga. A doida ficou tão envocada que saiu distribuindo bofete até que com um empurrão quase que coletivo a bunda pesou pra frente e a mulher caiu com o peito pro chão, construindo a silhueta do Corcovado num espaço que surgiu, de repente, em meio a uma alta concorrência pelo centímetro quadrado.

O cobrador balbuciou algo que eu não compreendi, mas logo entendi que ele me avisava que a “minha” parada se aproximava, pois lhe pedi que me informasse o momento de descer, já que desconhecia a localidade.

Dei sinal ao “gentil” motorista e me equilibrei para atravessar o “Corcovado”. Quanta carne! Desci do ônibus. Segundos depois, um grito de agonia: “Puta que pariu! A gorda peidou!”.

arte: Adalberto Malcher e Andressa Gonçalves.

quarta-feira, abril 01, 2009

Ver-o-Peso álbum de figuras


por Andressa Gonçalves

Belém. Uma feira. Há quase quatro séculos, um pedaço de terra às margens da Baia do Guajará reúne realidades plurais de pessoas que fazem do Ver-o-Peso mais do que a maior feira livre da América Latina: um lugar interessantíssimo para se observar seres humanos que passaram grande parte de sua vida neste pedaço de chão.

Caminhando pela feira à procura dos personagens dessa reportagem, encontramos Abel Modesto. O homem de 38 anos trabalha com muito bom humor: “isso aqui é uma terapia pra mim”. Vendendo açaí e peixe frito há 23 anos, Abel constrói paulatinamente o seu futuro descanso: “o meu plano é me aposentar e viver num lugar tranquilo”. A barraca que ele herdou do pai, não será repassada aos filhos: “quero que meus filhos estudem e que construam uma vida melhor pra eles”.

O vendedor bem humorado diz que a sua clientela é grande e variada: “aqui vem gente de todas as classes. Baixa, média, alta...”. Durante a entrevista, somos interrompidos por um freguês: “tem pirarucu frito aí?”. “Tem tudo on-line!”, responde Abel. “O meu jeito de atender o cliente é assim: alegre, bem humorado” (risos), completa.

Há mais de 30 anos Maria Raimunda, 68, chega ao Ver-o-Peso às 5h30 da manhã. A vendedora de polpas de frutas deixa seus produtos trancados em dois freezers que ficam dentro da barraca. Seu local de trabalho é privilegiado. Do “ponto” localizado na beira do rio, a vendedora acompanha o caminhar do sol até às seis horas da tarde quando volta pra casa. “O meu pai veio do interior morar com os cunhados. Ficou em Belém e começou a vender fruta aqui no Ver-o-Peso”, conta. Aos 35 anos Maria começou a trabalhar com o pai: “enquanto eu tiver saúde, continuo trabalhando. Eu adoro isso aqui!”. Quando a indagamos sobre os estrangeiros que visitam a grande feira, ela diz: “esses turistas não compram polpa da gente. Parece que eles têm medo. Até a água eles não compram na rua. Só bebem a água deles”.

O sucesso entre os turistas é a “Barraca da Carioca”. A dona, Maria Vitória Rodrigues, 80, há 49 anos vende comidas típicas e refeições. O espaço no Ver-o-Peso ela herdou do pai. “Eu comecei onde era a parada do bonde e mudei várias vezes de lugar conforme as reformas aconteciam aqui.”

A filha de Maria, Cláudia, 42, lhe ajuda desde os 8 anos de idade. “Eu lavava umas panelas enormes de maniçoba. Tinha que colocar todo o meu corpo pra dentro pra lavar. Naquela época a gente usava a água do rio e trazia as comidas prontas de casa pra vender aqui. Antigamente a gente trabalhava mais, mas ganhava mais também. Uma panela daquela esvaziava rapidinho. Hoje uma menor custa a terminar. Tudo ficou mais caro, os produtos pra fazer as comidas encareceram, e o povo compra menos também. Não dá pra competir com o “Restaurante Popular” (restaurante construído pela Prefeitura de Belém), por exemplo. Lá as pessoas pagam um real e ainda tomam o suco de graça. Muita gente prefere ir comer lá do que vir aqui”.

Mesmo com todas as dificuldades, Dona Maria trabalha com muita satisfação. Quando lhe perguntamos se ela gosta de trabalhar no Ver-o-Peso, somos interrompidos por Cláudia: “tem uma raiva dessa feira!” (risos). “E quando a senhora pretende se aposentar?”, pergunta a repórter. “Só quando estiver com o corpo estirado na sala!”, diz Maria.

Mãe e filha contam que o Ver-o-Peso antigo (antes de várias reformas feitas pela prefeitura e pelo governo de Belém do Pará) era um lugar sujo e perigoso. “As barracas eram cheias de ratos e baratas e os clientes não sabiam se comiam ou se olhavam pra bolsa. Mas hoje em dia está muito melhor”, relatam as duas. Mesmo com a fiscalização da Polícia Civil, as comerciantes contrataram um segurança para cuidar dos utensílios e das comidas que ficam na barraca que funciona 24h por dia.

Maria diz que atende muitos clientes estrangeiros e do Brasil inteiro. “Vem muito turista de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Fortaleza”, complementa Cláudia. A vendedora troca telefone com os clientes que lhe mandam presentes: “eu tenho camiseta de tudo quanto é estado. Tem cliente que todo Círio vem aqui em Belém e visita a nossa barraca. Quando eles sabem que alguém do estado deles vem pra cá, eles dizem 'vai na Barraca da Carioca'! Às vezes acontece deles ligarem pra gente pedindo comida paraense. A gente compra e manda. Quando a gente quer alguma coisa da terra deles, é só ligar que eles mandam também (risos)”.

Na feira do Ver-o-Peso encontramos Wando, 22, que, assim como Cláudia começou a trabalhar ainda muito novo. Aos doze anos o menino já vendia tapioquinha e café com leite em uma barraca que também funciona as 24h do dia. O garoto com um pouco mais de duas décadas de vida lembra o Ver-o-Peso “antigo”. Ele conta que há dez anos as barracas ficavam muito próximas umas das outras e que por este motivo aconteciam muitos furtos: “era só se distrair um pouco que sumia panela, grade de refrigerante e até a garrafa de café”, relata. (O cafezinho, a 30 centavos, foi muito vendido durante a entrevista).

Junto com Wando trabalha Cristina, 29. Mesmo trabalhando há apenas 2 anos no Ver-o-Peso, a “caloura” conta histórias: “o meu pai trabalhou aqui 15 anos. Na época dele aqui ainda era muito ruim, muito sujo. Com a reforma melhorou, mas não tem manutenção, só lavam aqui quando é aniversário do Ver-o-Peso ou o Círio...Em compensação aqui não é mais perigoso, tem guardas que vigiam. A violência diminuiu”. A barraca onde trabalham Wando e Cristina já existe há mais de 40 anos.

Os 23 anos trabalhados de Alberto Modesto, junto com os 40 anos da barraca de Wando e Cristina, mais os 49 da Barraca da Carioca, somados aos 30 anos de Maria Raimunda e de mais outros anos de muitos comerciantes que constroem o filme desta grande feira, igualam os 380 anos do Ver-o-Peso contador de histórias e colecionador de personalidades que só se enxerga neste pedaço – de – terra – mundo – de – gente.

foto: autor desconhecido de muito bom gosto.