quinta-feira, abril 16, 2009

Páscoa.

por Andressa Gonçalves


Paixão. Sexta-feira. Mais uma vez prenderam Jesus Cristo na cruz e simbolizaram suas sete últimas palavras por meio do apagar de sete velas.

O dia amanheceu cinza, como sempre. Como sempre as ruas da cidade estavam desertas e abrigavam um mórbido silêncio, mas no apartamento 1901 ouvia-se música alta.

Manhã de sexta-feira. Antonieta saiu de casa (do apartamento 1902). A salada e o risoto de bacalhau já estavam prontos desde a véspera. Toda Sexta-Feira Santa a família Campos acorda cedo, toma banho e depois de um café da manhã reforçado vai para a Igreja. A Igreja que não é uma Igreja, mas sim uma Capela, é um anexo do Colégio Santo Antônio outrora asilo, depois de ter sido um manicômio. É nesta capela que tradicionalmente, há exatos 130 anos, é “celebrada” a cerimônia das três horas da agonia sofridas por Cristo (por que celebrar a agonia de alguém?). Incoerências à parte, onze horas a família Campos se encontrava sentada em lugares muito próximos ao púlpito de onde o padre proferiria sábias palavras que compreendiam até mesmo a teoria da ação comunicativa de Habermas.

O ritual sádico que rememora o assassinato de um bom homem foi antecedido por um “terço” comandado por um sujeito que declamou, a cada dezena de Ave-Marias, os “mistérios” muito bem decorados, o que o denunciou como um assíduo “rezador”.

Enquanto nos bancos, ocupados em sua totalidade, rezava um coro quase que predominantemente constituído por mulheres, nos demais púlpitos da capela, e onde quer que se pudesse colocar uma câmera, posicionavam-se cinegrafistas e fotógrafos para capturar o melhor ângulo de uma imagem que ilustraria uma matéria com pouquíssima novidade. Os cinegrafistas, todos homens. As repórteres, mulheres que de posse de um microfone com o cabo enrolado, uma caneta e um papel bem amassado, já colhiam as informações que constituiriam um futuro off e umas passagens.

Meio dia. A partir daquele instante, tudo o que se ouviria além do coral de cantores líricos, muito bem afinado, seriam as reflexões do Padre Antropólogo e Doutor em História da Igreja. Todo o discurso deste homem foi naturalmente constituído por passagens da Bíblia, mas sabiamente concentrado na contemporaneidade. “Ao contrário de uma música que toca muito por aí, o amor não mata! Isso é uma grande bobagem”, disse ele.

O coral entoava um belo canto cujas ondas invadiam a capela constituída por vários estilos artísticos. As paredes brancas e os azulejos barrocos, o teto ogival sem a função estruturalista gótica e as colunas gregas de capitel coríntio (cilíndricas e quadriláteras), refletiam o lirismo de vozes maduras de senhores e senhoras de meia idade que se dedicaram com muito esmero para aquela cerimônia. Os cantos faziam eriçar os pêlos de tão belos.

Antes de cada vela apagada, um canto entoado. Depois de cada vela apagada, um discurso bem planejado. Por três horas todos ficamos sentados. Por três horas todos escutamos. Por três horas, todos refletimos (nem que fosse por um mísero minuto).

Uma pluralidade de acontecimentos se passava naquele recinto temperado com melancolia, cansaço, tensão, concentração, devaneios. Enquanto alguns escutavam atenciosamente as palavras do padre, outras se preparavam para a gravação das passagens, outros se concentravam no ajuste das lentes de seus equipamentos, outros aqueciam as suas vozes, alguns sentiam orgasmos intelectuais (como pode este padre falar coisas tão fantásticas?!), alguns sentiam o tédio e uma vontade enorme de voltar pra casa.

Sete velas. Uma apagada por vez. Sete quedas. Sete cores do arco-íris. Sete igrejas do apocalipse. Sete colinas de Roma. Sete trombetas. Sete pecados capitais. Sete palavras. Várias simbologias em um texto escrito, sonoro e imagético que durou três horas.

Cruz. “A cruz”, disse o padre, “para os antigos era sinal de maldição, consistia na penalidade suprema para Cícero. Eram vários os tipos de crucificação. As cruzes eram enterradas no solo ou mesmo escoradas nos muros localizados fora da cidade. Somente os nobres tinham o direito de não morrer crucificados”. Ele deixou claro, muito claro que só os desgraçados eram merecedores da cruz. E revivíamos, ali, todos, o assassinato daquele desgraçado que volatilizou seu corpo dois dias depois e subiu aos céus, sem deixar qualquer vestígio material.

A família Campos continuava sentada. Quieta. Introspectiva.

Viu o bom homem ser torturado, humilhado, crucificado. Presenciou o seu assassinato à prestação. A sua sede. O seu medo. O seu sentimento de dever cumprido (valeu o sacrifício?).

Uma vela para o final da agonia. Um esclarecimento: “Ele não morreu para nos livrar da morte e da dor. Enquanto existir natureza humana, dor e morte existirão. Cristo nos acompanha na dor e na morte. Temos que resignificar esses signos para podermos aprender a viver o amor e a felicidade para podermos buscá-lo”.

Não se sabe se esse discurso comunica. Não se sabe se a família Campos e o resto das pessoas que o escutaram decodificaram a mensagem. Mas sete velas se apagaram. Sete palavras foram ditas, faladas, explicadas, discutidas, dissecadas.

Três horas da tarde. Adentra a capela uma imagem do Senhor Morto que traz consigo um forte olor de uma planta que se desconhece, mas que se sabe que é cheirosa demais. Ao passar pela nave central da capela, são muitos os que se esticam ao máximo que podem para tocar aquele corpo assassinado. Todos trajam roupas pretas, roxas ou de uma cor neutra, nenhum pouco quente. Um velório é simulado. Mas as lágrimas partem do peito como se aquele jovem homem tivesse acabado de perder a vida. Bizarro? Pitoresco? Macabro?

É entoado um canto lírico agressivo e cheio de melancolia. Um ritual termina. A família Campos retorna para casa. Faz silêncio no apartamento 1901.

No resto do dia não se comerá carne vermelha. No resto do dia sete igrejas serão percorridas por aqueles que desejam alcançar uma graça. No resto do dia serão veiculados nos canais abertos filmes sobre a Sua morte.

Sábado. Judas é malhado (será que todos sabem o porquê de se pendurar aquele boneco no poste?).

Domingo. Ele ressuscita. Eis que retornamos ao niilismo cotidiano: onde estão os chocolates?