quarta-feira, abril 01, 2009

Ver-o-Peso álbum de figuras


por Andressa Gonçalves

Belém. Uma feira. Há quase quatro séculos, um pedaço de terra às margens da Baia do Guajará reúne realidades plurais de pessoas que fazem do Ver-o-Peso mais do que a maior feira livre da América Latina: um lugar interessantíssimo para se observar seres humanos que passaram grande parte de sua vida neste pedaço de chão.

Caminhando pela feira à procura dos personagens dessa reportagem, encontramos Abel Modesto. O homem de 38 anos trabalha com muito bom humor: “isso aqui é uma terapia pra mim”. Vendendo açaí e peixe frito há 23 anos, Abel constrói paulatinamente o seu futuro descanso: “o meu plano é me aposentar e viver num lugar tranquilo”. A barraca que ele herdou do pai, não será repassada aos filhos: “quero que meus filhos estudem e que construam uma vida melhor pra eles”.

O vendedor bem humorado diz que a sua clientela é grande e variada: “aqui vem gente de todas as classes. Baixa, média, alta...”. Durante a entrevista, somos interrompidos por um freguês: “tem pirarucu frito aí?”. “Tem tudo on-line!”, responde Abel. “O meu jeito de atender o cliente é assim: alegre, bem humorado” (risos), completa.

Há mais de 30 anos Maria Raimunda, 68, chega ao Ver-o-Peso às 5h30 da manhã. A vendedora de polpas de frutas deixa seus produtos trancados em dois freezers que ficam dentro da barraca. Seu local de trabalho é privilegiado. Do “ponto” localizado na beira do rio, a vendedora acompanha o caminhar do sol até às seis horas da tarde quando volta pra casa. “O meu pai veio do interior morar com os cunhados. Ficou em Belém e começou a vender fruta aqui no Ver-o-Peso”, conta. Aos 35 anos Maria começou a trabalhar com o pai: “enquanto eu tiver saúde, continuo trabalhando. Eu adoro isso aqui!”. Quando a indagamos sobre os estrangeiros que visitam a grande feira, ela diz: “esses turistas não compram polpa da gente. Parece que eles têm medo. Até a água eles não compram na rua. Só bebem a água deles”.

O sucesso entre os turistas é a “Barraca da Carioca”. A dona, Maria Vitória Rodrigues, 80, há 49 anos vende comidas típicas e refeições. O espaço no Ver-o-Peso ela herdou do pai. “Eu comecei onde era a parada do bonde e mudei várias vezes de lugar conforme as reformas aconteciam aqui.”

A filha de Maria, Cláudia, 42, lhe ajuda desde os 8 anos de idade. “Eu lavava umas panelas enormes de maniçoba. Tinha que colocar todo o meu corpo pra dentro pra lavar. Naquela época a gente usava a água do rio e trazia as comidas prontas de casa pra vender aqui. Antigamente a gente trabalhava mais, mas ganhava mais também. Uma panela daquela esvaziava rapidinho. Hoje uma menor custa a terminar. Tudo ficou mais caro, os produtos pra fazer as comidas encareceram, e o povo compra menos também. Não dá pra competir com o “Restaurante Popular” (restaurante construído pela Prefeitura de Belém), por exemplo. Lá as pessoas pagam um real e ainda tomam o suco de graça. Muita gente prefere ir comer lá do que vir aqui”.

Mesmo com todas as dificuldades, Dona Maria trabalha com muita satisfação. Quando lhe perguntamos se ela gosta de trabalhar no Ver-o-Peso, somos interrompidos por Cláudia: “tem uma raiva dessa feira!” (risos). “E quando a senhora pretende se aposentar?”, pergunta a repórter. “Só quando estiver com o corpo estirado na sala!”, diz Maria.

Mãe e filha contam que o Ver-o-Peso antigo (antes de várias reformas feitas pela prefeitura e pelo governo de Belém do Pará) era um lugar sujo e perigoso. “As barracas eram cheias de ratos e baratas e os clientes não sabiam se comiam ou se olhavam pra bolsa. Mas hoje em dia está muito melhor”, relatam as duas. Mesmo com a fiscalização da Polícia Civil, as comerciantes contrataram um segurança para cuidar dos utensílios e das comidas que ficam na barraca que funciona 24h por dia.

Maria diz que atende muitos clientes estrangeiros e do Brasil inteiro. “Vem muito turista de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Fortaleza”, complementa Cláudia. A vendedora troca telefone com os clientes que lhe mandam presentes: “eu tenho camiseta de tudo quanto é estado. Tem cliente que todo Círio vem aqui em Belém e visita a nossa barraca. Quando eles sabem que alguém do estado deles vem pra cá, eles dizem 'vai na Barraca da Carioca'! Às vezes acontece deles ligarem pra gente pedindo comida paraense. A gente compra e manda. Quando a gente quer alguma coisa da terra deles, é só ligar que eles mandam também (risos)”.

Na feira do Ver-o-Peso encontramos Wando, 22, que, assim como Cláudia começou a trabalhar ainda muito novo. Aos doze anos o menino já vendia tapioquinha e café com leite em uma barraca que também funciona as 24h do dia. O garoto com um pouco mais de duas décadas de vida lembra o Ver-o-Peso “antigo”. Ele conta que há dez anos as barracas ficavam muito próximas umas das outras e que por este motivo aconteciam muitos furtos: “era só se distrair um pouco que sumia panela, grade de refrigerante e até a garrafa de café”, relata. (O cafezinho, a 30 centavos, foi muito vendido durante a entrevista).

Junto com Wando trabalha Cristina, 29. Mesmo trabalhando há apenas 2 anos no Ver-o-Peso, a “caloura” conta histórias: “o meu pai trabalhou aqui 15 anos. Na época dele aqui ainda era muito ruim, muito sujo. Com a reforma melhorou, mas não tem manutenção, só lavam aqui quando é aniversário do Ver-o-Peso ou o Círio...Em compensação aqui não é mais perigoso, tem guardas que vigiam. A violência diminuiu”. A barraca onde trabalham Wando e Cristina já existe há mais de 40 anos.

Os 23 anos trabalhados de Alberto Modesto, junto com os 40 anos da barraca de Wando e Cristina, mais os 49 da Barraca da Carioca, somados aos 30 anos de Maria Raimunda e de mais outros anos de muitos comerciantes que constroem o filme desta grande feira, igualam os 380 anos do Ver-o-Peso contador de histórias e colecionador de personalidades que só se enxerga neste pedaço – de – terra – mundo – de – gente.

foto: autor desconhecido de muito bom gosto.