quinta-feira, maio 28, 2009

Perguntas Lilás: entrevista com Haroldo França

Buguela e o Sonho Feio conversou com o diretor do espetáculo em cartaz em Belém.

1) Quando ocorreu o teu primeiro contato com teatro do absurdo?

Aconteceu quando assisti ao espetáculo Nosso Qorpo Santo, montagem do primeiro ano do Curso Técnico de Formação em Ator da Escola de Teatro e Dança da UFPa. Um mês depois, me inscrevi no processo seletivo para ingressar no curso.

2) O que te atrai no teatro do absurdo?

Um professor meu usava uma metáfora interessante para explicar isso: "Entreguem o bolo inteiro pra platéia, não mastiguem por eles". Acho fascinante a idéia de obrigar o público a "mastigar" todo o material semântico que despejamos neles. E mais fascinante ainda é perceber que cada pessoa tem apreensões diferentes do espetáculo.

3) Como surgiu o Jogo de Sete?

O Jogo de Sete começou como pura experimentação, de um grupo que ainda estava começando, com um diretor dramaturgo que também ainda estava (e ainda está) se descobrindo. Eu tinha o desafio de costurar dentro de uma mesma peça, sete personagens propostos por sete atores, cada um com seus objetivos e seus conflitos. Atentei para o número sete, e costurei a trama trabalhando a temática dos mistérios que surpreendem nas ocorrências do número sete, trabalhando principalmente com os sete pecados capitais. Depois disso, começamos a desconstruir tudo de novo, num processo de devaneios que eu acho fascinante pra qualquer artista. Hoje, o Jogo de Sete já é outro trabalho, mais consistente.

4) Jogo de Sete conta a história do que / de quem?

A peça expõe sete seres humanos - alguns com uma dimensão bastante animalesca - que se confrontam com os pecados capitais, através da relação deles com uma mulher - Júlia -, que está presente em todos os momentos da peça, mas, que ao mesmo tempo, nunca aparece.

5) O teatro do absurdo é um estilo de peça influenciada pelo surrealismo que trabalha elementos do ilógico, do irreal, trata do sonho (de dormir mesmo) que invade o real. O que tem de sonho, de absurdo no Jogo de Sete?

O enredo da peça não trabalha com uma narrativa linear, ele trabalha com fragmentos de narrativas que se cruzam em alguns momentos, causando os mais diversos efeitos de sentido. Uma boa personificação do ilógico, na peça, é a própria personagem Júlia, que é a protagonista, mas que não está na peça, e que ao mesmo tempo, está dentro de cada um dos outros personagens. O mais ilógico é que eles vêem a Júlia uns nos outros, ou no invisível, e até em partes de seus corpos. Em certo momento da peça, os atores falam "Sete e sete são quatorze, com mais sete vinte e dois, somos sete jogadores e a Júlia vem depois!". Esse trecho mostra bem como a dramaturgia assume a questão do ilógico, quando tenta legitimar uma conta que não tem lógica matemática.

6) As produções do Teatro do Absurdo (décadas de 1940, 1950 e 1960) tinham a função de provocar no público a reflexão sobre o paradoxo, a incoerência e a ignorância de seus personagens, e teciam críticas a respeito da sociedade hipócrita de suas décadas. O Jogo de Sete tem essa mesma função ou é teatro do absurdo apenas por ser uma peça ilógica, fora da normalidade da maioria das peças?

Acredito que a existência da obra de arte se completa nela mesma, não necessita de uma "função". Mas o Jogo de Sete, a partir do momento que toca na linha do ilógico, pode se encaixar na mesma filosofia desses outros trabalhos. Mas isso eu deixo para os intelectuais, acho que o que vai importar para o público é o esforço de entender as regras ilógicas desse jogo, e tentar, das mais diversas formas, entender o que se passa com aquelas pessoas, e com Júlia.


7) Jogo de Sete trabalha principalmente o elemento humano, no sentido de explorar seus sentimentos, sensações, dores, prazeres, etc. O intuito do Jogo é mostrar os diversos tipos de sofrimentos e loucuras que toda pessoa tem, por mais que não queira admitir que elas existem? (é esse o ponto da peça que trabalha a hipocrisia da nossa sociedade em fazer de conta que a loucura só existe nos manicômios?)

Eu vejo o Jogo de Sete como uma brincadeira. Claro que a obra aponta para as mais diversas direções, e toca, sim, em feridas do ser humano, mas o meu intuito pessoal ao montar esse espetáculo é simplesmente jogar, brincar de misturar conflitos, sensações, sentimentos; causar estranhamento e encanto no público. Não posso prever se o espectador vai se identificar com o que ver, ou se vai estranhar; afinal, a obra de arte só se completa quando assimilada pelo interlocutor.

8) Por que todos devem assistir ao Jogo de Sete?

Creio que, para esse tipo de trabalho, é preciso conferir antes de fazer qualquer juízo de valor; já que o mais provável é que as pessoas saiam do teatro com as mais diferentes sensações.

segunda-feira, maio 18, 2009

Para a Sociedade, um Band-Aid



Belém, duas da tarde. Um grupo formado por aproximadamente 40 policiais ganha as ruas da cidade, tendo como destino os bairros com maior número de criminalidade. Em dez viaturas e quatro motos, membros da CIEPAS, Força Nacional, DPA, ROTAN e CIPC (órgãos da Polícia Militar) se dirigem às comunidades onde há maior incidência de crimes. Os dados são coletados pela PM com base no número de ocorrências feitas em delegaciais.

Ao chegarmos ao prédio da Seccional do bairro da Sacramenta, durante a ronda regular dos repórteres de polícia, sob a informação de que a Delegacia registrara ocorrência de abuso sexual de menor, somos surpreendidos por uma quantidade relevante de policiais que ocupam o pátio, quebrando a monotonia de tons amarronzados do cimento sujo, com o verde musgo e o preto de seus uniformes. O grupo evidenciava excitação e logo foi revelado o motivo da agitação: a Operação Ronda nos Bairros.

A Ronda nos Bairros é um planejamento do Comando de Policiamento da Capital (CPC) e segundo O Tenente comandante da operação o procedimento tem o objetivo de previnir ou reprimir crimes. Telégrafo e São Brás foram os primeiros bairros visitados do dia. A PM, no momento da entrevista, se dirigia para os arredores da Sacramenta e, posteriormente, Cremação e Terra Firme, onde finalizaria a operação durante a noite.

Para aqueles que ususfruem da região metropolitana de Belém, o procedimento é desconhecido, uma vez que nessa área a atuação dos órgãos da Polícia Militar pertence a uma outra operação: a Armagedon. A Ronda visita vários bairros periféricos diariamente. O procedimento tem início e fim, mas a hora do final não é divulgada, já que pode prejudicar a atuação da polícia.

Em momento de alto índice de crimes de naturezas variadas que atingem a sociedade, o Estado encontra um meio de "amenizar" a violência que não consiste no investimento em políticas educdacionais, mas sim por meio do exercício do poder de polícia para vigiar e punir. Seguindo um modelo no estilo panoptico de Foucault, funcionários públicos fardados e armados visitam as comunidades mais violentas. Os visitantes dispensam chá e biscoitinhos.

O Major responsável pela operação informa que a vistoria das comunidades é um procedimento rotineiro dividido em dois turnos. Pela manhã a Ronda nos Bairros ocorre das 9h00 às 11h00 e durante a tarde, das 14h00 às 16h00. Logo após a reportagem colher as informações sobre a operação, decidimos ir em busca de uma das viaturas que se dirigia para regiões periféricas específicas de Belém. No meio do caminho tinham policiais... e nenhuma atividade de investigação.

Durante a vigência da Ronda nos Bairros é esperado que a criminalidade amenize, mas para o tumor da violência, qual será a operação?



foto: Marco Antonio Cavalcanti, Agência JB.

quarta-feira, maio 13, 2009

Prêt-à-Porter

Sensações em prêt-à-porter. Medo do escuro, medo de perder a chave do carro, perder a cabeça, a última peça de um puzzle.

Sensações de um domingo, sensações de um dia inteiro, sensações em um banheiro, sensação de um devaneio, sensação de desolée, sensação de tô tristão, sensação prêt-à-porter, sensação pra se esconder... Não se quer sentir as coisas que o peito sente e sente muito e eu sinto muito.

Sensação que se enterra, sensação que está por perto, orgasmo trio elétrico, essa é a sensação! Sensação de estar com sono, sensação de estar cansado, sensação no sense, sensação...

Sensações sensivelmente insensatas, insustentáveis, sensações, sozinhas são só sensações.

sábado, maio 02, 2009

Ela e o passarinho.

Deitada na rede atada com nó de porco, próximo à janela, Ela enxergava, do décimo nono andar, a vista que se tem da cidade quando olhada do avião. O céu estava cinza. Batia um vento que acariciava sua bunda, coxas, pés e um início de costa que afundavam o tecido amarelo da rede. Como Ela adora amarelo!

O vento que arrepiou um por um seus pêlos, adentrou o quarto no momento em que um passarinho pousou na caixa do ar condicionado. Que lindo as suas asas empurrando o ar...!

É muito comum, neste apartamento, que aves bonitinhas e pequenininhas descansem em suas arestas, decorando amorosamente as janelas e as sacadas onde Ela se debruça quando o sol se põe. O passarinho parou apoplético, talvez por causa da beleza do que via: ela, a cidade que repousa à beira do rio.

Toda a atenção Dela voltou-se para o passarinho que voltou-se para a cidade.

Uma eternidade passou durante alguns segundos que levou um ponto final dado pelo passarinho. Ele se jogou.

Desenhou no ar uma simulação de suicídio.