terça-feira, junho 23, 2009

Teatro do Absurdo: o ilógico que invade os palcos


Por Andressa Gonçalves

Surreal. É esta a palavra que descreve o Teatro do Absurdo. O termo criado pelo crítico norte - americano Martin Esslin caracteriza todas as peças produzidas nas décadas de 1940 a 1960 que abordam o tratamento inusitado da realidade.

Em Belém do Pará, Jogo de Sete e A Cantora Careca, são espetáculos Absurdos das companhias Em Cores e Thaetro de Performances & Espetáculos. Com enredos constituídos de elementos chocantes e ilógicos que norteiam o cenário, os figurinos, os diálogos e os personagens, as narrativas tecem críticas sobre a sociedade moderna e difundem uma ideia subjetiva acerca do obscuro e do que não pode ser visto e nem sentido.

O Teatro do Absurdo é o sonho que invade o real. As companhias apresentam no palco a crise social vivida pela humanidade. Uma das primeiras produções absurdas, A Cantora Careca (1950), de Eugene Ionesco (que se inspirou nos diálogos “absurdos” de um livro didático de inglês para construir sua narrativa), é montagem da companhia Thaetro que apresentou a peça pela primeira vez em 2003, no Festival Criação Volkswagen, onde representou o Pará.

Quem assiste ao espetáculo, se impressiona de imediato com os figurinos. Todos em preto e branco constituindo uma harmônica e inusitada combinação de estampas. Os sapatos usados em cena denunciam a preocupação do diretor Chagas Franco com cada detalhe do espetáculo: foram todos pintados à mão.

O cenário é composto por quatro cadeiras e um relógio de ponteiros, localizado na parte central do fundo do palco, cujos algarismos são absurdamente ilógicos. Os personagens, todos com ótima postura, satirizam a sociedade aburguesada do século XX. Com narizes empinados, rostos e cabelos pintados de branco, proferem diálogos alienados em uma melodia peculiar. Durante o espetáculo, o público recebe a maior surpresa: um silêncio de aproximados 20 minutos.

Jogo de Sete, da companhia Em Cores, trata sobre as tensões humanas que existem na linha tênue que separa o pecar e o amar. Na trama, sete pessoas se relacionam com Julia, a principal personagem da história, que assim como a Cantora Careca, fica a cargo da imaginação do público.

Um, Dois, Três, Quatro, Cinco, Seis e Sete são os personagens que retratam as loucuras, as anormalidades e o surrealismo que todo ser humano apresenta. Por meio de diálogos constituídos pelo jogo de palavras, melodias e passagens bíblicas, os Jogadores materializam o irreal (ou o reprimido) pelas pessoas “comuns” que temem em encarar a anormalidade e ser leal às suas próprias insanidades. O preto é, igualmente, a cor trabalhada nos figurinos. A monocromia é quebrada com sete vendas coloridas, cada uma de uma cor do arco-íris.

Sobre a origem da peça, explica o diretor Haroldo França que “a montagem começou como pura experimentação de um grupo que estava começando, com um diretor dramaturgo que também estava (e ainda está) se descobrindo. Eu tinha o desafio de costurar dentro de uma mesma peça, sete personagens propostos por sete atores, cada um com seus objetivos e seus conflitos. Atentei para o número sete, e costurei a trama trabalhando a temática dos mistérios que surpreendem nas ocorrências deste número, trabalhando principalmente com os sete pecados capitais. Depois disso, começamos a desconstruir tudo de novo, num processo de devaneios que eu acho fascinante pra qualquer artista. Hoje, o Jogo de Sete já é outro trabalho, mais consistente”.

Haroldo teve o primeiro contato com o Teatro do Absurdo, através da peça Nosso Qorpo Santo, encenada pelos alunos do primeiro ano do Curso Técnico de Formação em Ator da Escola de Teatro e Dança da UFPA. O interesse pelo gênero foi imediato e o levou a fazer o teste de seleção para ingressar na instituição.

Quando interrogado sobre o que mais o atrai no gênero teatral, Haroldo responde: “um professor meu usava uma metáfora interessante para explicar isso, ‘entreguem o bolo inteiro pra platéia, não mastiguem por eles’. Acho fascinante a ideia de obrigar o público a ‘mastigar’ todo o material semântico que despejamos neles. E mais fascinante ainda é perceber que cada pessoa tem apreensões diferentes do espetáculo”.

A peça Absurda tem narrativa alinear, personifica o ilógico na personagem Júlia, a protagonista, que nunca aparece, mas que tem um pouco de si em cada personagem. “O mais ilógico é que eles vêem a Júlia uns nos outros, ou no invisível e até em partes de seus corpos. Em certo momento da peça, os atores falam ‘sete e sete são quatorze, com mais sete vinte e dois, somos sete jogadores e a Júlia vem depois! ’. Esse trecho mostra bem como a dramaturgia assume a questão do ilógico, quando tenta legitimar uma conta que não tem lógica matemática”, complementa.

Jogo de Sete é o Teatro do Absurdo pós-moderno. A narrativa trabalha principalmente o elemento humano e explora seus sentimentos, sensações, dores e prazeres. “Eu vejo o Jogo de Sete como uma brincadeira. Claro que a obra aponta para as mais diversas direções, e toca, sim, em feridas do ser humano, mas o meu intuito pessoal ao montar esse espetáculo é simplesmente jogar, brincar de misturar conflitos, sensações, sentimentos; causar estranhamento e encanto no público.”

segunda-feira, junho 08, 2009

Perfil: Andressa Gonçalves coloca tudo pra fora

Roxo. Essa é a cor da parede da sala. Andressa Gonçalves se encontra sentada em um sofá verde limão. Ao redor, muitas árvores que podem ser vistas pelas várias janelas. “Tudo bem?” “Tudo tranquilo”, responde a entrevistada com um sorriso discreto.

A escritora e jornalista iniciou sua produção textual aos treze anos. “Eu tive uma crise existencial. Acho que porque estava naquele negócio de compreender a adolescência e dar um tchau pra infância. O meu primeiro beijo aconteceu quando eu ainda brincava de boneca.” Alabastro foi o primeiro texto a ser escrito, uma poesia autobiográfica que abusa em metáforas. “Eu sempre gostei de falar sobre mim, mas sou orgulhosa o suficiente para não conversar sobre as minhas particularidades com os outros. Besteira”, confessa.

A moça branca, trajando um saião que fez de vestido, conta que cresceu com dois irmãos mais novos e o pai. Em uma casa em Ananindeua, município da Região Metropolitana de Belém, onde mora até hoje. A mãe esteve pouco presente. “Meu pai me ensinou as primeiras palavras em inglês, a pintar e a compreender que música boa é feita com guitarra, baixo e bateria. Eu e os meus irmãos sempre tivemos contato com arte, manifestações culturais. Meu pai sempre leu muito. O fato dele ter sempre respostas pras minhas perguntas aguçou em mim a vontade de saber de tudo ou quase isso.”

O primeiro vestibular prestado foi para medicina. Não passou. No cursinho, descobriu a paixão por ciências humanas. Foi aprovada no curso de Direito da Universidade Federal do Pará que concluiu com dificuldade. “No Brasil, muitas pessoas não levam nada a sério. Isso aconteceu comigo na Federal. A minha turma sofreu muitos problemas com falta de professor, de aula, com greve, fora o mau temperamento dos funcionários da universidade. Parecia que eles faziam tudo para gente desistir, mas se ferraram porque a gente conseguiu e eu ainda publiquei o meu tcc (risos).”

O trabalho de conclusão de curso foi sobre a liberdade de imprensa e o respeito ao direito de privacidade. “A sociedade pós-moderna tenta relativizar o conceito de respeito e acaba violando direitos básicos que toda pessoa tem, mas que, por uma questão cultural de ultrapassagem de limites, pensam que não podem impedir certos abusos. Sou totalmente a favor das resignificações, mas elas têm que ser positivas.”

“É verdade que você já atuou e fez parte de uma banda?” Surpresa, Andressa solta uma gargalhada. “Nossa! Como vocês conseguiram essa informação? Fizeram o trabalho direitinho! Eu sempre gostei de me ocupar. O meu vício sempre foi sugar todas as minhas energias e me esgotar produzindo coisas legais, criativas, úteis para as pessoas. A vida está aí pra ser vivida, não é? Eu atuei quando ainda era jovem, fiz parte de uma banda, também. Maristela. Eu adorava compor. Sempre gostei de escrever. No caso do teatro, a experiência foi diferente e exótica porque eu escrevi usando uma linguagem não-verbal, só com partitura de corpo. Criar é muito bom.”

Andressa diz sempre ter sido curiosa sobre como as pessoas se tornam o que são, como aprendem, como armazenam informações. “Eu procurei justificativas químico-biológicas, mas depois de ler Laraia (Roque de Barros Laraia), entendi que se tratava de cultura.” A compreensão acerca do aprendizado e da constituição cultural das sociedades fez com que a escritora criasse o blog Buguela e o Sonho Feio: “Já tive depressão que eu entendo como um problema comunicacional. Tenho muitos símbolos e signos que precisam ser resignificados, mas os traumas são um pouco difíceis de se trabalhar. É do mau estar, causado pela depressão, que vem o Sonho Feio. Buguela significa ‘menina’, uma expressão criada pelo meu irmão caçula. O blog foi uma forma de colocar para fora a digestão das informacoes que absorvo no cotidiano”.

“Coisas que brotam de dentro pra fora por conta do que vem de fora pra dentro” é o slogan do espaço virtual (hoje "Borrão") criado por Andressa quando ainda estava na adolescência. Quando pergunto sobre o por quê de ter dado continuidade ao blog, Andressa responde: “Sabe os risquinhos na parede que os pais fazem para marcar a nossa altura e deixam lá para comparar com a próxima medição? É assim que funciona o blog. Ele mostra o meu crescimento como mulher, como ser humano. É interessante olhar para trás e ver que eu não falei tanta merda (risos), que eu tive coisas interessantes para serem ditas.”

Aos trinta anos a escritora publica o livro Buguela e o Sonho Feio com os melhores textos do blog. “O livro coloca tudo pra fora, sem restrição. Foi muito gostoso trabalhar com ele porque não tive imposições de limites do editor e nem mesmo do meu próprio super eu (risos). Quanto mais tempo na análise, menos a gente se importa com a opinião alheia. As minhas reflexões só fazem sentido se externadas. Eu gosto que as pessoas saibam sobre a minha opinião, que conheçam os meus tormentos, os meus fantasmas. Que chorem, deem risadas, sintam medo, raiva, prazer junto comigo. Eu sou o que eu leio. Eu sou o que eu escrevo. Gosto do fato de ‘estranhos’ poderem saber sobre algumas percepções minhas.”

Depois de algumas fatias de bolo mesclado, ao leite, com chocolate, e alguns litros de suco de laranja, Andressa acompanha a equipe de reportagem até a porta: “Adorei a entrevista. Foi completamente narcísico”.