segunda-feira, junho 08, 2009

Perfil: Andressa Gonçalves coloca tudo pra fora

Roxo. Essa é a cor da parede da sala. Andressa Gonçalves se encontra sentada em um sofá verde limão. Ao redor, muitas árvores que podem ser vistas pelas várias janelas. “Tudo bem?” “Tudo tranquilo”, responde a entrevistada com um sorriso discreto.

A escritora e jornalista iniciou sua produção textual aos treze anos. “Eu tive uma crise existencial. Acho que porque estava naquele negócio de compreender a adolescência e dar um tchau pra infância. O meu primeiro beijo aconteceu quando eu ainda brincava de boneca.” Alabastro foi o primeiro texto a ser escrito, uma poesia autobiográfica que abusa em metáforas. “Eu sempre gostei de falar sobre mim, mas sou orgulhosa o suficiente para não conversar sobre as minhas particularidades com os outros. Besteira”, confessa.

A moça branca, trajando um saião que fez de vestido, conta que cresceu com dois irmãos mais novos e o pai. Em uma casa em Ananindeua, município da Região Metropolitana de Belém, onde mora até hoje. A mãe esteve pouco presente. “Meu pai me ensinou as primeiras palavras em inglês, a pintar e a compreender que música boa é feita com guitarra, baixo e bateria. Eu e os meus irmãos sempre tivemos contato com arte, manifestações culturais. Meu pai sempre leu muito. O fato dele ter sempre respostas pras minhas perguntas aguçou em mim a vontade de saber de tudo ou quase isso.”

O primeiro vestibular prestado foi para medicina. Não passou. No cursinho, descobriu a paixão por ciências humanas. Foi aprovada no curso de Direito da Universidade Federal do Pará que concluiu com dificuldade. “No Brasil, muitas pessoas não levam nada a sério. Isso aconteceu comigo na Federal. A minha turma sofreu muitos problemas com falta de professor, de aula, com greve, fora o mau temperamento dos funcionários da universidade. Parecia que eles faziam tudo para gente desistir, mas se ferraram porque a gente conseguiu e eu ainda publiquei o meu tcc (risos).”

O trabalho de conclusão de curso foi sobre a liberdade de imprensa e o respeito ao direito de privacidade. “A sociedade pós-moderna tenta relativizar o conceito de respeito e acaba violando direitos básicos que toda pessoa tem, mas que, por uma questão cultural de ultrapassagem de limites, pensam que não podem impedir certos abusos. Sou totalmente a favor das resignificações, mas elas têm que ser positivas.”

“É verdade que você já atuou e fez parte de uma banda?” Surpresa, Andressa solta uma gargalhada. “Nossa! Como vocês conseguiram essa informação? Fizeram o trabalho direitinho! Eu sempre gostei de me ocupar. O meu vício sempre foi sugar todas as minhas energias e me esgotar produzindo coisas legais, criativas, úteis para as pessoas. A vida está aí pra ser vivida, não é? Eu atuei quando ainda era jovem, fiz parte de uma banda, também. Maristela. Eu adorava compor. Sempre gostei de escrever. No caso do teatro, a experiência foi diferente e exótica porque eu escrevi usando uma linguagem não-verbal, só com partitura de corpo. Criar é muito bom.”

Andressa diz sempre ter sido curiosa sobre como as pessoas se tornam o que são, como aprendem, como armazenam informações. “Eu procurei justificativas químico-biológicas, mas depois de ler Laraia (Roque de Barros Laraia), entendi que se tratava de cultura.” A compreensão acerca do aprendizado e da constituição cultural das sociedades fez com que a escritora criasse o blog Buguela e o Sonho Feio: “Já tive depressão que eu entendo como um problema comunicacional. Tenho muitos símbolos e signos que precisam ser resignificados, mas os traumas são um pouco difíceis de se trabalhar. É do mau estar, causado pela depressão, que vem o Sonho Feio. Buguela significa ‘menina’, uma expressão criada pelo meu irmão caçula. O blog foi uma forma de colocar para fora a digestão das informacoes que absorvo no cotidiano”.

“Coisas que brotam de dentro pra fora por conta do que vem de fora pra dentro” é o slogan do espaço virtual (hoje "Borrão") criado por Andressa quando ainda estava na adolescência. Quando pergunto sobre o por quê de ter dado continuidade ao blog, Andressa responde: “Sabe os risquinhos na parede que os pais fazem para marcar a nossa altura e deixam lá para comparar com a próxima medição? É assim que funciona o blog. Ele mostra o meu crescimento como mulher, como ser humano. É interessante olhar para trás e ver que eu não falei tanta merda (risos), que eu tive coisas interessantes para serem ditas.”

Aos trinta anos a escritora publica o livro Buguela e o Sonho Feio com os melhores textos do blog. “O livro coloca tudo pra fora, sem restrição. Foi muito gostoso trabalhar com ele porque não tive imposições de limites do editor e nem mesmo do meu próprio super eu (risos). Quanto mais tempo na análise, menos a gente se importa com a opinião alheia. As minhas reflexões só fazem sentido se externadas. Eu gosto que as pessoas saibam sobre a minha opinião, que conheçam os meus tormentos, os meus fantasmas. Que chorem, deem risadas, sintam medo, raiva, prazer junto comigo. Eu sou o que eu leio. Eu sou o que eu escrevo. Gosto do fato de ‘estranhos’ poderem saber sobre algumas percepções minhas.”

Depois de algumas fatias de bolo mesclado, ao leite, com chocolate, e alguns litros de suco de laranja, Andressa acompanha a equipe de reportagem até a porta: “Adorei a entrevista. Foi completamente narcísico”.