quarta-feira, março 24, 2010

Os perigos do salto alto


A certeza versus uma possibilidade. O nariz empinado torna mais fácil a queda do salto alto que, de plataforma, vira salto agulha, mais suscetível à queda. No primeiro Re-Pa, ao entrar no campo, conversei com um amigo entendido de futebol que me disse, depois deu proferir "vai ser uma peia" (leia-se, Remo vai levar uma surra): "o time do Remo é mais experiente, está mais entrosado. Vai ser difícil pro Paysandu levar essa". O comentário, eu já tinha escutado de outros entendidos, mas como sou do tipo que acredita que tudo é possível, não dei muito ouvido, talvez usando um pouco a minha intuição. Esperei pra ver. Afinal, o salto alto no futebol é algo comum. Início do jogo.


perigoooso.

A arrogância remista é algo impressionante. Coincidência ou não, 90% dos remistas que passaram pelo meu caminho eram mauricinhos orgulhosos que adoravam arrotar vantagem com relação a quase tudo. Nariz empinado, peito de pombo, quadril "engessado", responsável por aquele andar de quem parece estar cagado, esses pequenos adoravam causar. Ô raça. Já sendo totalmente preconceituosa, é um povinho que torce o nariz quando não consegue o que quer, ou dá qualquer jeito pra conseguir o que quer, mesmo que seja na grosseria. E não é que fazem o mesmo os jogadores do Remo? É impressionante a capacidade que esses atletas têm de descontar o desgosto causado por um passe mal feito (deles), ou um bom passe (do outro time, é claro), no jogador do time adversário. Isso eu percebi ainda na época que era intimada a esboçar um mínimo de simpatia pelos azulinos, nas poucas vezes em que fui ver o Remo jogar e perder. É notório que a baixa infraestrutura dos times paraenses prejudica em muito o bom desenvolvimento das equipes, mas enfim, todos enfrentam a mesma dificuldade e o que se deve fazer nessas horas? Ser humilde, erguer a cabeça e batalhar. Sempre. Foi isso o que fizeram os jogadores do Paysandu no primeiro Re-Pa.

apoiar é importante.

Reação ofensiva do papão versus o baixar de cabeça do Remo. O azulino sumiu no campo e, de repente, o time que teria que batalhar um bocado para conseguir um bom resultado pintou um 3, contra o zero do Remo, no placar. Claro que os bicolores irradiaram toda energia positiva que estimulou ainda mais o Paysandu. Os remistas, o que fizeram? Baixaram mais a cabeça. Se metáforas fossem visíveis, o que se perceberia no lado da arquibancada onde o sol bate forte, sem piedade, nessa época do ano, seriam milhares de azulinos com as cabeças enterradas naquele concreto ardente. Quando alguém tá pra baixo, a gente precisa ajudar a levantar e não empurrar mais pro fundo. Mas a torcida azulina calou e o Remo levou 4. Fez dois, mas não adiantou. Poderia ter entrado com mais raça e, de repente, vencido o jogo. A prepotência também se manifestou na bilheteria que refletiu a ganância de alguns cabeças azulinos que elevaram para R$ 30 o preço do ingresso que, normalmente, custa R$ 20. Nem adiantou o olho gordo, aliás, não para o Remo, mas para o Santos, que lucrou com tudo isso.

Re-Pa. Decisão. Meu parceiro de jogo que me acompanhou no comportamento batalhador do Paysandu no jogo contra o Palmeiras e na sorte do Remo de não ter sido goleado no jogo contra o Santos, estava ausente, mas fui pro campo mesmo assim. Dessa vez assisti ao jogo de um lugar menos privilegiado, na arquibancada, mas que me permitiu exercer o meu direito de liberdade de expressão. Nos demais jogos ou estive entre a imprensa, ou entre remistas . O jogo. Paysandu e Remo jogaram equilibrados por cerca de quinze minutos. O Remo entrou raçudo, até gostei. Aprecio gente que batalha. Sobressaiu no jogo. Fez dois a zero. Intimidou a torcida bicolor que esqueceu a imponência e a empolgação com a qual começou o jogo. Os papõezinhos ficaram caladinhos até que a agressividade do Remo, que se manifestou em vários momentos do jogo, causou um pênalti, naturalmente contestado pelos remistas que, como qualquer jogador, com uma intensidade um pouco superior, criticaram a arbitragem veementemente, porque o problema geralmente está no outro e não neles. Desculpem - me os remistas sensatos.

foto: Ray Nonato

ah, o grande esforço que se deve fazer quando a regra é a neutralidade.

Gol. A torcida do Paysandu acordou. O placar, mesmo com um gol a menos para o Paysandu, já indicava o encostar dos dedinhos bicolores na taça do primeiro turno. Segundo tempo. A chama acesa azulina apagou no intervalo. Eles voltaram murchos para o segundo tempo. Por outro lado, o Paysandu voltou raçudo como no primeiro Re-Pa. Mas é assim que funciona. O jogo só acaba quando termina e quem não faz, leva. Não é assim que funciona? Com Zeziel no segundo tempo e Moisés com o turbo ligado, os mini jogadores do Remo (como são pequeninos!) ficaram mais mini, embora tenham reagido e conseguido chegar perto de também por os dedinhos azuis (ó, marciano!) no trofeuzinho tão desejado. Mas o Paysandu continuou o quê? Brigando contra uma sentença que tinha sido arrotada uma semana antes: de que poucas eram as chances do Paysandu.

Às vezes, tamanho não é documento. Atitude é tudo.

Podem os azulinos dizerem que o esquema tático do Remo ficou abalado no primeiro Re-Pa. Podem eles dizerem que a arbitragem os persegue. Podem dizer que foi conspiração, que a soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa, que não adianta. Com determinação, garra e o apoio da torcida, um time consegue. E futebol combina com chuteira e não com salto alto. Resultado? A humildade provou mais uma vez que reina absoluta nas conquistas.