terça-feira, julho 27, 2010

A racionalidade, quando é perdida, torna possível escolher absurdos, incoerências e insensatez. Expressão literal do dar murros em ponta de faca. Nem os dedos estourados impedem o gesto que só faz mutilar.

quarta-feira, julho 14, 2010

O início que justifica o fim

fotos: Filipe Faraon

Traição. A mulher descobre que a melhor amiga a trai com o marido há cinco anos. Pouco adiantaram os atos de cumplicidade da traída para despertar na outra consideração. Mesmo que a traída tenha recebido em casa os filhos da outra com atenção e pão nas várias vezes em que a outra esteve ocupada ou doente, a outra desejou e tomou emprestado o marido alheio. Traição. É perdoável? Compreensível? Cada pessoa pensa de um jeito e valoriza determinadas importâncias. A cultura e a educação – ou falta dela -, de cada um, influencia na hora de escolher: trair, ou resistir? Roubar, ou trabalhar pra comprar? Assassinar, ou pagar a pensão? Temos que fazer muitas escolhas difíceis que mexem com os nossos desejos e pulsões.


Esta semana, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) comemorou 20 anos. O texto legal, assim como o da Constituição Federal de 1988 – leia o artigo quinto -, impressiona. Como o legislador pensou em tudo isso? Uma pena que, na prática, grande parte do texto dessas leis não seja colocado em prática, por diversos motivos. É desnecessário que uma lei mostre algo tão óbvio para ressaltar a importância de algo que todos já deveriam saber. Uma criança sem amor, educação e brincadeira cresce um adulto com muitas lacunas, espaços vazios que algumas crianças crescidas se dão ao trabalho de tentar preencher da melhor forma. A deficiência de interpretar um texto, consertam no ensino médio, ou na universidade. A carência afetiva tentam suprir nos relacionamentos a dois e a infância encurtada pelo amadurecimento precoce que interrompeu a pira-se-esconde e a queimada brincadas nos finais de tarde, bem, acho que resolve com terapia. O ECA só reforça os pontos mais importantes para a criança crescer de uma forma saudável porque será adulta a maior parte da vida, isto quando não morre ainda na adolescência, vítima da violência.



Criança que brinca, lê e tem uma família que a ama, aprende a construir amizades, confiar, acolher, ser acolhida. Aprende a ser leal. Aprende a noção do justo, do coerente, do sensato. Comete erros e aprende com eles. Aprende a pedir desculpa. Aprende a desculpar. Quando me deparo com situações reais que mais parecem narrativas de Nelson Rodrigues, questiono o por quê de muitas coisas. Aliás, o que torna a vida também angustiante é não encontrar essas respostas. Minha vida mudou desde que filosofei sobre o que seria o arché da physis – a coisa que gerou todas as outras sem ser gerada. Sócrates me ensinou a questionar, a indagar, a não aceitar nunca uma resposta sem entender a razão de ser de uma sentença, de uma afirmação. Ao observar de maneira objetiva os problemas da nossa sociedade, vejo que as pessoas estão cada vez mais perdidas. Não se conhecem, não sabem o que querem realmente e, por causa disso, causam dor aos outros. Dores físicas e emocionais.


crianças que brincam se tornam adultos interessantíssimos

Todos deveriam crescer bem. Comer bem e ter experiências emocionais que fazem bem à saúde. Infelizmente, quando o ser humano em formação é criado em condições adversas – e nem precisa ser tão adverso assim – pode não aprender coisas simples como receber e dar um abraço, ficar sozinho, conversar, e coisas complicadas como confiar, acreditar, ter fé. Depois de um abandono familiar, de uma traição, de perder muitas pessoas amadas porque morreram tragicamente, de ser vítima de qualquer tipo de violência, voltar a viver dando uma nova chance a tudo, assumindo a possibilidade dessas grandes dores nos maltratarem novamente, é uma tarefa difícil. Por isso é tão importante ter um apoio. Todos deveriam entender isso e permitir a construção desse apoio naturalmente, sem ser necessária uma lei que imponha isso. Os melhores adultos foram as melhores crianças. É necessária a vivência e boas influências até que se aprenda a ser sensato, ponderável e respeitoso. Aliás, a noção de respeito é algo do qual as pessoas estão distantes. Tem certas coisas que eu não consigo entender e, muitas vezes, tenho muito trabalho para construir uma opinião a respeito.