segunda-feira, agosto 30, 2010

O colorido africano





As cores quentes do continente africano tomaram conta do Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia desde a tarde da última sexta-feira. Dezenas de pessoas ansiosas aguardaram a abertura dos portões da XIV Feira Pan-Amazônica do Livro que, ao invés de um país homenageado, presta homenagens aos africanos Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, nações falantes da Língua Portuguesa.

Os tambores da Timbalada celebraram a abertura do evento, junto com a discotecagem do coletivo Meachuta que abriu a programação musical assistida por cerca de dez mil pessoas. O público lota os estandes. Tem livro com temáticas e preços diversos (comprei dois do J.J. Benitez por cinco reais, cada. Basta catitar). Tem livro sobre religião (africana, inclusive). História, especializados, romance, best sellers, esotéricos, arte, até sobre como montar um currículo, sim eu vi.


Os encontros literários proporcionam bate papos interessantes. O primeiro deles, realizado sábado, com Ariano Susassuna, foi espetacular. Um senhor de oitenta e poucos, com voz rouca, fina e fraca e muito bem humorado. Contou várias histórias, todas arrancaram risos da plateia que lotou o auditório Machado de Assis (onde são realizados os encontros literários, diariamente, a partir das 19h30). Ah, pode fazer foto à vontade. Nas demais salas são apresentados shows com danças típicas – brasileiras e africanas -, oficinas, curta-metragens regionais de animação e o programa de auditório “Fala Sério”, destinado ao público jovem, que combina bate papo e apresentações musicais, uma versão local do “Programa Livre”, ou “Altas Horas”, para os mais novinhos.


A programação diária da Feira do Livro é distribuída na entrada do Hangar (Av. Doutor Freitas) e também pode ser consultada no site www.feiradolivro.pa.gov.br. No mesmo local é realizada a troca de um livro infanto-juvenil (generoso, não fino), por um par de ingressos para quem quiser assistir às apresentações musicais da área reservada do deck do Hangar. Mas ó, tem que apresentar o RG e chegar cedo, porque os ingressos são muito requisitados. Os livros serão doados para uma instituição ainda não escolhida. A programação musical tá pra todos os gostos, tem de Calypso à Suzana Flag. A “Feira vai até dia 5, próximo domingo. Ainda vai ter Fernanda Young, Milton Guedes, Pinduca, Gilberto Gil e comida porque a praça de alimentação tem coisas gostosas. Tem uma padaria que assa pastel de forno na hora e tem salgados apetitosos.

quinta-feira, agosto 26, 2010

M R O A



Ele me ama. Ousou em me dizer tal atrevimento depois daquela tarde em que o surpreendi agarrando uma puta. Sim, uma puta. Não é mulher. Com peitos tão caídos e aquela cara sem graça, oleosa e com os cabelos despentados. Linda tarde que me deixou plantada em casa, esperando uma ligação que não existiu. Eu, perder aquela tarde linda? Saí de casa irritada porque ele sumiu e encontro ele, pegando vento com aquela criatura feminina só porque carrega uma vagina ao invés de um pau. A feminilidade passou longe. Esse amor estranho, dispenso. Me deixou com a boca seca e taquicardia de tanta raiva. Um desgaste que me deu um ganho. Um poeta. Um homem lindo, simpático, que me deu de presente um livro artesanal depois de me declamar uma poesia que no final das contas dizia, em uma métrica bem pensada, "adorei saber da tua existência, mas o que me deixaria mais feliz seria tirar tua roupa e te pegar de quatro". Ainda, assim, valeram os versos. O poeta vestido com roupas de dois séculos atrás me parou em uma praça para onde fui buscar paz de espírito. Naquela noite, ele me salvou. Reacendeu em mim uma dignidade mastigada. Me senti mulher.



A saga da puta mal comida. Parte IX.

Ele está dormindo. A punheta bem batida o faz dormir um sono relaxante depois que o orgasmo massageou todos os seus músculos tensos até o momento da explosão. Não gozei. A falta do gozo não incomoda muitas mulheres, mas a mim, causa extrema irritação. Ao contrário dos músculos dele, os meus estão muito tensos e nem consigo dormir. Daqui a pouco o dia amanhece e não descansei um minuto sequer por um simples motivo: não senti a porra da explosão. Você nunca gozou? Uma pena. Se esforce, estude o seu corpo, peça ajuda ao seu parceiro e você sentirá uma das mais belas sensações.

Ele continua dormindo. Aqui do meu lado, ignorando se o mundo vive em perfeita harmonia, ou respeitando todas as regras da lei de Murphy. Foda-se. Não, ele não me fudeu. Brochadas sucessivas, dele e minha, não nos foderam. Ele respira profundamente. Indícios de um corpo relaxado, diferente do meu. O fato de eu não conseguir dormir por ainda querer gozar não parece ser uma de suas preocupações. Eu adoro dar prazer aos meus homens e deixá-los satisfeitos. Mas para eles, o gozo solitário parece ser suficiente. Meninos, dêem atenção especial para a sua mulher, caso contrário, ela dará a buceta ao próximo que tratá-la com carinho e muita explosão. Quando falta carinho, a gente trai, mesmo.

Hoje eu não vou gozar. Bom pra mim que explodo amanhã. Pior pra quem fode há mais de cinco anos e não sabe o que é orgasmo. Pobre das mulheres mal tratadas.


foto: Buguela e o Sonho Feio


terça-feira, agosto 17, 2010

400 contra 1 - a história do comando vermelho


Queridos leitores do Buguela e o Sonho Feio. Tive a oportunidade de entrevistar o cineasta Caco Souza, diretor do filme 400 contra 1. Ele esteve em Belém, me recebeu simpático e acolhedor, muito disposto a conversar sobre a violência, um tema que é temática de várias de suas produções. Entre goles de café expresso sem açúcar, ele me disse coisas interessantes. O resultado desse encontro está logo abaixo. Boa leitura.

por Andressa Gonçalves
fotos: divulgação



A origem do comando vermelho, uma das quadrilhas cariocas mais conhecidas, virou filme. "400 contra 1 - a história do Comando Vermelho", o primeiro longa metragem de Caco Souza, já está nos cinemas. O filme é uma produção da Destiny International, em parceria com a Globo Filmes, distribuído pela Playarte Pictures. No elenco, Daniel de Oliveira e Daniela Scobar nos papéis principais.

O filme é inspirado no livro "400 contra 1", de William da Silva Lima, o fundador do "Comando". O cineasta leu a obra e se impressionou. "O que chamou mais atenção foi o início da história". O filme retrata o contexto político do Brasil da década de 1970. Segundo o diretor, mostra a ditadura militar de uma forma inusitada.

Um assalto a banco para financiar churrascos e mantimentos para a população pobre -amigos e familiares do futuro Comando Vermelho - sentenciou o bando de William, preso à época da ditadura. O crime estava no hall dos ilícitos da Lei de Segurança Nacional, que definiu as condutas que atentaram contra a "segurança" do Brasil, durante o regime militar. Os vários assaltos a bancos financiaram ações de militâncias políticas contrárias ao regime, motivo que levou o legislador a dar tratamento diferenciado aos militantes. Todos os condenados por crimes da "LSN" ficaram reclusos no "Fundão", área do presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Não tinham direito a banho de sol e não dispunham de comida e roupas suficientes.

Caco explicou que o fim da ditadura e o da Lei da Anistia colocou em liberdade os presos políticos. Foi então que o bando de William e outros criminosos da "LSN" mudaram de presídio e passaram a conviver com presos comuns. A "tensão" definiu bem o novo ambiente carcerário. Convivendo com os presos políticos, os criminosos da "LSN" aprenderam um pouco sobre companheirismo, cumplicidade e disciplina que tentaram instituir no Presídio Cândido Mendes, tudo para garantir a harmonia entre os detentos. Os presos comuns resistiram. Como consequência, a "Falange LSN" - apelido do bando de William - entrou em confronto violento que culminou com a morte de seis lideranças da "Falange Jacaré", hoje conhecida como "Terceiro Comando", uma das quadrilhas mais influentes do presídio, formada por moradores da favela do Jacarezinho.


Segundo Caco, o então diretor da casa penal escreveu um relatório identificando a "Falange LSN" como "Falange Vermelha" e "Comando Vermelho", em menção ao rubro comunista. "O grupo do William rechaçava esse nome, mas a imprensa continuou os chamando assim e eles assumiram o nome".

O Comando Vermelho assumiu o controle do Presídio Cândido Mendes. Eles brigaram por melhores condições de vida na casa penal. Caco explicou que, à época, era comum a violação aos direitos humanos. Os presos se alimentavam mal, não tinham remédios e eram constantemente agredidos por agentes penitenciários. "[O Comando Vermelho] começou com a ideia de se fortalecer no presídio, como uma forma de resistência ao sistema que tinha uma mão extremamente pesada", explicou.

Ainda presos, os membros do CV começaram a se organizar para, em liberdade, montarem um caixa com dinheiro que financiasse a compra de gêneros alimentícios, roupas, remédios e outras mercadorias necessárias aos presos. O CV também articulou fugas. A partir da década de 1980, os membros fundadores do "Comando" morreram ou desapareceram. Entre os remanescentes ficaram apenas William e mais dois homens. "Falamos [no filme] sobre um movimento que começou na década de 1970 e em 2010 está mais forte do que antes", observou Caco.