terça-feira, agosto 17, 2010

400 contra 1 - a história do comando vermelho


Queridos leitores do Buguela e o Sonho Feio. Tive a oportunidade de entrevistar o cineasta Caco Souza, diretor do filme 400 contra 1. Ele esteve em Belém, me recebeu simpático e acolhedor, muito disposto a conversar sobre a violência, um tema que é temática de várias de suas produções. Entre goles de café expresso sem açúcar, ele me disse coisas interessantes. O resultado desse encontro está logo abaixo. Boa leitura.

por Andressa Gonçalves
fotos: divulgação



A origem do comando vermelho, uma das quadrilhas cariocas mais conhecidas, virou filme. "400 contra 1 - a história do Comando Vermelho", o primeiro longa metragem de Caco Souza, já está nos cinemas. O filme é uma produção da Destiny International, em parceria com a Globo Filmes, distribuído pela Playarte Pictures. No elenco, Daniel de Oliveira e Daniela Scobar nos papéis principais.

O filme é inspirado no livro "400 contra 1", de William da Silva Lima, o fundador do "Comando". O cineasta leu a obra e se impressionou. "O que chamou mais atenção foi o início da história". O filme retrata o contexto político do Brasil da década de 1970. Segundo o diretor, mostra a ditadura militar de uma forma inusitada.

Um assalto a banco para financiar churrascos e mantimentos para a população pobre -amigos e familiares do futuro Comando Vermelho - sentenciou o bando de William, preso à época da ditadura. O crime estava no hall dos ilícitos da Lei de Segurança Nacional, que definiu as condutas que atentaram contra a "segurança" do Brasil, durante o regime militar. Os vários assaltos a bancos financiaram ações de militâncias políticas contrárias ao regime, motivo que levou o legislador a dar tratamento diferenciado aos militantes. Todos os condenados por crimes da "LSN" ficaram reclusos no "Fundão", área do presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Não tinham direito a banho de sol e não dispunham de comida e roupas suficientes.

Caco explicou que o fim da ditadura e o da Lei da Anistia colocou em liberdade os presos políticos. Foi então que o bando de William e outros criminosos da "LSN" mudaram de presídio e passaram a conviver com presos comuns. A "tensão" definiu bem o novo ambiente carcerário. Convivendo com os presos políticos, os criminosos da "LSN" aprenderam um pouco sobre companheirismo, cumplicidade e disciplina que tentaram instituir no Presídio Cândido Mendes, tudo para garantir a harmonia entre os detentos. Os presos comuns resistiram. Como consequência, a "Falange LSN" - apelido do bando de William - entrou em confronto violento que culminou com a morte de seis lideranças da "Falange Jacaré", hoje conhecida como "Terceiro Comando", uma das quadrilhas mais influentes do presídio, formada por moradores da favela do Jacarezinho.


Segundo Caco, o então diretor da casa penal escreveu um relatório identificando a "Falange LSN" como "Falange Vermelha" e "Comando Vermelho", em menção ao rubro comunista. "O grupo do William rechaçava esse nome, mas a imprensa continuou os chamando assim e eles assumiram o nome".

O Comando Vermelho assumiu o controle do Presídio Cândido Mendes. Eles brigaram por melhores condições de vida na casa penal. Caco explicou que, à época, era comum a violação aos direitos humanos. Os presos se alimentavam mal, não tinham remédios e eram constantemente agredidos por agentes penitenciários. "[O Comando Vermelho] começou com a ideia de se fortalecer no presídio, como uma forma de resistência ao sistema que tinha uma mão extremamente pesada", explicou.

Ainda presos, os membros do CV começaram a se organizar para, em liberdade, montarem um caixa com dinheiro que financiasse a compra de gêneros alimentícios, roupas, remédios e outras mercadorias necessárias aos presos. O CV também articulou fugas. A partir da década de 1980, os membros fundadores do "Comando" morreram ou desapareceram. Entre os remanescentes ficaram apenas William e mais dois homens. "Falamos [no filme] sobre um movimento que começou na década de 1970 e em 2010 está mais forte do que antes", observou Caco.