segunda-feira, dezembro 06, 2010

Menos lixo, economia e criatividade


Por Andressa Gonçalves, Ísis Neto e Rosivaldo Almeida

foto: Camila Lima


Cerca de um milhão de garrafas pet foram utilizadas na decoração do Natal ecologicamente correto de Benevides. O material que iria para o lixo foi reaproveitado para a confecção de guirlandas, bengalas, pinheiros e toda a decoração natalina dos principais pontos do município. Os enfeites foram confeccionados na Fábrica dos Sonhos, um sítio localizado no município onde trabalham 150 pessoas contratadas pela prefeitura local. A decoração já está enfeitando as ruas do município e poderá ser vista até o dia 6 de janeiro.

O verde, vermelho e dourado que ocupavam o barracão da Fábrica dos Sonhos já anunciavam a chegada no Natal em Benevides desde o início de novembro. Pinheiros, bengalas, flores e bolas natalinas, feitos a partir de garrafas de plástico, enfeitam as principais ruas da cidade. Os adornos também decoram o prédio da prefeitura e das secretarias do município. Pontos que se tornarão turísticos no final do ano. Na Igreja de Nossa Senhora do Carmo será montado um presépio em tamanho real. A decoração se estenderá à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, ao pier e à praça principal de Benfica, distrito de Benevides. Os artesãos aprenderam a confeccionar os enfeites em oficinas ministradas pela proprietária da empresa que produz a decoração natalina de Gramado (RS). Desde junho, os encontros são realizados uma vez por mês, em Benevides.

É a segunda vez que a prefeitura municipal investe no reaproveitamento das garrafas pet. A coordenação do projeto espera que o número de visitantes supere as 200 mil pessoas que compareceram ao evento em 2009. Turistas e moradores de Benevides que aquecem a economia do município a partir do consumo de comidas e artesanato comercializados durante o evento. Além de arrecadar dinheiro para a cidade, o projeto educa os visitantes sobre a importância do reaproveitamento de materiais que, na maioria das vezes, são jogados fora.

A campanha de coleta das garrafas é direcionada, principalmente, aos estudantes de Benevides. Eles foram motivados a trocá-las por cupons para concorrer a sorteios de brindes e informados sobre a importância de preservar o meio ambiente. A coordenação do projeto estima coletar cerca de um milhão de garrafas, dos 15 mil alunos envolvidos. Membro da coordenação, Izi Noronha disse que a população local já se mostra mais preocupada com a produção de lixo. "A conscientização do município aumentou bastante (desde o evento realizado ano passado)", observou. Para Rafael Silva, 19 anos, um dos artesãos que confecciona os enfeites, além de fonte de renda extra, o trabalho é uma forma de contribuir para a preservação do meio ambiente. "Além de me ajudar, ajuda o meio ambiente e eu fico muito orgulhoso com a decoração da cidade", disse.

O consumo sustentável também chegou à casa do engenheiro Marcus Vinicius Neto. Ele instalou um sistema de aquecimento solar em sua caixa d’água para obter água morna sem gastar energia elétrica. “A caixa d’água recebeu a cobertura de uma capa térmica que aquece com a luz solar”, explica. Marcus também planta em seu quintal vegetais para a alimentação da família. “Planto o que for possível, mesmo sem muito espaço reservei uma área para plantar temperos e algumas verduras, reutilizo a água da chuva para irrigar”, diz.

Para ele, a preocupação com o meio ambiente não é só um compromisso com o planeta, mas com toda a comunidade mundial, além de ser uma forma de reduzir os gastos domésticos. O consumo sustentável também se estende ao ambiente de trabalho. Sempre que possível, ele recicla o lixo e reaproveita materiais que poderiam ser jogados fora, com plástico e madeira.

Lixo reciclado pode ser fonte de rendafo

foto: Andressa Gonçalves

Quem coleta, ajuda trabalhadores da cooperativa do Aurá


Quem acha que o lixo reciclado não dá lucro está muito enganado. A mudança de pensamento quanto a este assunto é percebida desde a década de 1990 quando a mídia passou a utilizar o tema Ecologia. Mesmo sendo consciente, quem nunca pensou: “Será que dá para lucrar com lixo?”. Em Belém, milhares de famílias sobrevivem com o mercado da reciclagem. A reciclagem de metais é bastante presente na capital paraense e envolve empresas, sucateiros, caminhoneiros e catadores. Este último, por exemplo, é fácil de ser encontrado na disputa por espaço nas ruas da cidade.

A situação dos catadores de Belém tem características bem próprias. A sucata arrecadada é transportada por carroças puxadas por cavalos, ou ainda pelo próprio catador. Em sucatarias há uma tabela pronta que estabelece o preço de cada tipo de metal; do antimônio às latinhas de alumínio. Em média o preço do antimônio custa R$ 0,40 o quilo. Já as latinhas, R$ 2,20, mas para chegar a um quilo, o catador deve recolher cerca de 75 latas. O ferro vale apenas R$ 0,13 e o chumbo custa R$ 1. O metal mais valioso nas sucatarias é o cobre, que custa R$ 9 o quilo. A valorização deste material leva alguns a roubar os fios elétricos, feitos a partir do metal. O mesmo ocorre com tampas de bueiros, embora valham bem menos.

Quem trabalha neste mercado há mais de três décadas é Maria do Socorro Baía. Ela é dona de uma sucataria no bairro do Guamá e conta com a ajuda de seus quatro filhos. O trabalho consiste em comprar metais trazidos pelos catadores e revendê-los para empresas que reciclam ou para atravessadores, que então repassam para tais empresas, a maioria fora do Estado. “Uma vez por dia chega caminhão para levar o material que acumulamos em um dia, que é trazido por mais de 30 catadores que temos”, disse.

Quem sobrevive da coleta de materiais no lixo reconhece que o lucro é pequeno, mas é uma fonte de renda diante do desemprego. Alexandre Damasceno, 30 anos, trabalha há oito anos recolhendo metais que encontra no lixo. Segundo ele, os catadores, conseguem cerca de R$ 30, em média, se trabalharem 10 horas por dia. “Mas isso depende. Tem dia que é bom, que dá para tirar até uns R$ 80. Varia muito”, explicou. Outra maneira de ganhar dinheiro com a reciclagem é por meio da Cooperativa de Trabalhadores Profissionais do Aurá (Cootpa).

Ela foi criada pela Prefeitura de Belém e reúne 35 catadores. Separar o papelão, o plástico, o papel e o isopor do lixo. Esse é o trabalho diário de cada um deles. Ao todo, 15 dos catadores trabalham no Aterro Sanitário do Aurá. Os demais se dividem em grupo para fazer a seleção do lixo de condomínios e empresas de Belém. Dos criadores da cooperativa surgiu um grupo que separa o lixo doado em pontos na cidade.

Um deles é em um depósito da Big Ben, no Entroncamento. Oito catadores separam o lixo da empresa, sob a condição de também dar um destino ao lixo não aproveitável que a rede de farmácias produz. Depois de separado, o material é recolhido por caminhões da prefeitura e vendido para atravessadores e para uma empresa de reciclagem de Belém. A catadora Rosalinda Ferreira disse que a renda mensal varia de R$ 180 a R$ 250. “Com este dinheiro só dá para eu me alimentar; não sobra para nada”, pontuou. Ela mora com uma neta, mas para criá-la, conta com a ajuda da mãe da garota e de programas sociais do Governo Federal.

Segundo Elvira, 15 condomínios de Belém já fazem a coleta seletiva e doam o material para a cooperativa. “É necessário sensibilizar a população ‘de’ fazer a coleta seletiva, pois isto é bom para o meio ambiente da cidade e ainda ajuda dezenas de famílias. Com mais doação, vamos poder agregar mais catadores ainda à cooperativa”, disse.

Serviço: Condomínios ou empresas que também quiserem doar podem entrar em contato com o DRS pelo telefone 3039-3554.