sábado, dezembro 04, 2010

Não sei pra onde a gente vai andando pelo mundo

foto: Andressa Gonçalves

Um dos melhores lugares do mundo é o corredor a caminho do avião. O melhor lugar é a poltrona do avião. Eu falo isso porque uma das melhores coisas dessa vida é conhecer, passar a saber sobre algo/alguém que antes nem de raspão passava pelos seus pensamentos. Sempre gostei de viajar e faço isso desde os seis anos de idade, quando minha família se mudou pra São Paulo. Lá , eu cresci subindo e descendo ladeiras, pegando um metrô e dois ônibus nos primeiros dias na cidade para ir à escola, enfrentando os desafios do frio, - como levantar da cama quentinha, em uma noite congelante, só por causa do xixi. Nas noites mais frias, minha mãe passava ferro na cama e fazia um charuto de cobertor com a gente dentro e nos colocava pra dormir.

Vez ou outra, especialmente nas férias do final de ano, eu vinha para Belém. Sentia uma felicidade enorme de voltar para os braços da minha vóvis lindona e para a cozinha dela onde eram feitas coisas deliciosas que até hoje alegram principalmente o meu almoço. Por alguns anos, sentar no banco do avião significou matar saudade. Hoje, significa dar uma pausa. Por enquanto, a vida que eu tenho não é a vida que eu quero, embora a esteja construindo aos poucos. Já estou colocando os últimos tijolos. Embora eu ame a hospitalidade e a generosidade paraense, os gostos, cheiros e cores de Belém, não me identifico com a cultura local e nem com o modo de vida da cidade e nem com a mentalidade da maioria das pessoas. A sensação de não pertencimento é desagradável. Pra falar a verdade, eu me sinto turista em todos os lugares pra onde vou.

Tá me faltando encontrar identidade com algum povo que eu não sei qual é. A cultura de cada um é formada a partir dos valores, opiniões e costumes da família onde crescemos. Cresci ouvindo rock old school, tomando açaí e comendo batata frita. Led Zeppelin é o som preferido do meu pai ex-cabeludo-artista. Moro em uma casa colorida, onde todos, exceto eu, só ouvem músicas em língua inglesa. Sou a única mulher de uma família de três filhos e um pai engraçadíssimo.

Minha mãe adora música brasileira. Mas os nove anos da infância que passei com ela, dos quais cinco eu lembro vagamente, não foram suficientes pra eu aprender a gostar de Chico, Tom, Cartola e todos os monstros da música brasileira. Fui escutar todos eles depois de adulta, principalmente por influência dos namorados e da madrasta que ama Chico, assim como todas as mulheres da idade dela.

Viver um dia de cada vez em uma cidade quente, convivendo com coisas/pessoas pouco atraentes ou repulsivas, muitas vezes nos faz cerrar o cenho e olhar só pra dentro da gente na tentativa de controlar os desagrados que ficam se estapeando dentro do peito. Aí dá crise de gastrite, enjoo, sono e uma preguiça incontrolável. Nessas condições, o gosto das coisas boas dura só um pedaço. O conforto de estar se afastando do local que desagrada para buscar um clima menos úmido e uma população cuja maioria das pessoas é educada e gentil, disfarça o desconforto da poltrona do avião (prefiro mil vezes ônibus-leito).

Tudo isso faz o corredor até o avião o caminho mais gostoso que se percorre, com exceção da hora de voltar. Especialmente porque eu só pego avião por um motivo: pra conhecer comunidades diferentes e me divertir com a descobertas dos hábitos e da mentalidade de pessoas de uma cultura estrangeira. E friso logo aqui que a paraense é uma das mais interessantes. Mas sobre isso a gente conversa outro dia.