sábado, dezembro 11, 2010

A vocês que não conhecem a Amazônia


Quem nunca esteve na Amazônia não compreende quando o Pinduca canta “este rio é minha rua”. No início da colonização da Região Norte, portugueses e jesuítas usaram barcos e canoas como os principais meios de transporte para adentrar a mata amazônica à procura de especiarias e mão de obra barata. Para algumas comunidades amazônidas, o rio é a principal via pública. Não precisa viajar quilômetros para encontrar uma comunidade “quase” tradicional que more em palafitas construídas sobre as águas. Quem mora em Belém do Pará só precisa pegar um barco na própria cidade e passear alguns minutos para observar essa realidade.

Há alguns lugares específicos de onde partem embarcações. A escolha depende do seu bolso e do tipo de passeio que quer fazer. Já fiz vários desses passeios. Um dos mais divertidos foi almoçar na Ilha das Onças, localizada literalmente em frente à cidade de Belém. Os estudantes da Universidade Federal do Pará veem essa ilha todos os dias de uma das beiras de rio mais lindas da cidade (Belém poderia ter mais “janelas” pra baía de Guajará). Do campus básico é possível pegar um barco que nos deixa do outro lado do rio, direto em um restaurante que faz um peixe frito delicioso. E pra quem não tiver frescura e souber nadar, é só pular do píer da palafita e aproveitar o banho de rio. Quando o dia tá ensolarado tudo fica ainda mais lindo.


o transporte hidroviário seria uma ótima alternativa pra Belém

Pra quem preferir pratos mais elaborados e um conforto maior, é só ir ao Hotel Beira Rio e pegar um barco pra almoçar no restaurante do hotel localizado do outro lado da rua. Uma área grande que tem até trilha natural – pelo menos tinha nas várias vezes que fui. O ambiente é menos simplório. As mesas ficam em contato com a natureza e você ainda pode ouvir música ao vivo – pra mim, isso é totalmente desvantajoso. Não tem nada mais chato do que uma voz e violão/teclado pra atrapalhar a tua conversa com as pessoas queridas.

Os dois lugares são localizados na rodovia Artur Bernardes. O acesso é fácil e rápido quando não há trânsito. A área é próxima ao centro da cidade e pra quem vai de ônibus, há várias linhas que passam no local. Só tem que ter cuidado com os pertences e evitar acessórios chamativos. A área pobre tem muito assalto, principalmente à noite. Mas é sempre bom ficar atento. Nesta mesma rodovia há outros lugares de onde se pode pegar barco. As passagens são baratas. Não custam mais de dez reais ida e volta.

surpresas que a gente encontra no passeio de barco


enclausuraram o pobre do caranguejo

Os passeios de barco mais caros são realizados por companhias de turismo. É o peso do valor agregado da segurança, entretenimento e, às vezes, até uma comidinha. A paisagem que se vê em todos é muito semelhante: uma imensidão de água que não acaba, a vegetação de árvores com grandes copas e as comunidades ribeirinhas, uma das coisas mais curiosas desse mundo (depois eu conto pra vocês em detalhe). Da Estação das Docas – o Puerto Madero de Belém – partem barcos quase todos os dias. Geralmente ao som de carimbó e com o visual das saias floridas das paraenses que balançam muito bem as ancas, o barco parte.

Foi o passeio mais lindo que já fiz. Saímos no meio da tarde da Estação e voltamos no início da noite. O sol exibido iluminou a paisagem muito bem. Uma tarde agradável com um por do sol maravilho. Ele, o sol, antes de ir embora, pareceu que quis fazer um espetáculo especialmente pra população do barco. Pintou logo o céu de vários tons quentes que iam do amarelo, passavam pelo alaranjado e até pelo cor-de-rosa. Um lindo contraste com o azulão. Não bastasse isso, ele foi embora e veio ela, a lua. Redondona e gigante. Prateou a água e me deixou com cara de besta. Um visual que a gente só vê aqui. O bom da Estação das Docas é que depois do passeio ainda pode rolar uma broca firme. É só escolher um dos restaurantes. Todos com comidinhas deliciosas. Agora prepara o bolso porque é caro.

te garantes?

Mais barato e mais distante é o passeio pra Ilha de Cotijuba, localiza em frente ao Distrito de Icoaraci. Mais exige paciência pra enfrentar as três horas de viagem de Belém até a praia do Vai quem quer. Icoaraci - em tupi, de frente pro sol – é uma extensão de Belém distante do centro da capital cerca de 27 km. A viagem de ônibus dura quase uma hora. Sem trânsito, 40 minutos de carro. De lá, mais 40 minutos de barco para atravessar para Cotijuba. O passeio é longo, mas barato e super vale a pena. A paisagem do passeio de barco é a mesma, aliás, um visual interessantíssimo é ver em uma margem do rio a metrópole e na outra uma comunidade que ainda usa lampião.

A entrada da ilha é receptiva com barraquinhas que vendem tapioquinha e café com leite. Uma forra pra quem acordou cedo e não pôde comer nada antes de sair de casa. Na entrada da cidade, os curiosos já podem visitar as ruínas do educandário, local disciplinador para onde foram vários criminosos, durante o regime militar. Dizem que alguns deles foram jogados no rio e morreram afogados. Uma política do governo da época de “higienizar” a sociedade de Belém. Em frente às ruínas ficam estacionados as charretes e bondinhos, os meios de transporte que levam as pessoas às praias de Cotijuba (lá não tem carro). A mais popular é a praia de “Vai - quem - quer”. O nome já desafia os turistas. São 40 minutos de estrada de terra até chegar lá. Outra experiência antropologicamente interessante.

o meio de transporte

No passeio já dá pra conhecer um pouco da pequena ilha. A praia é grande, o banho é gostoso e o peixe frito, uma delícia. Mas tem carne, também. São refeições simples feitas pelas mãos dos pacatos paraenses de Cotijuba. Alimentos e condimentos a população compra nas tabernas ou mesmo em carroças que estacionam na beira da pista principal para comercializar suas iguarias, como o tucupi ingrediente do tacacá, pato do Círio e outras receitas paraenses. A tecnologia é mais distante daquela comunidade do que a outra margem do rio. Em pelo século XXI, ainda há homens que trocam a força braçal por uma fonte de renda. As famílias são pobres e tem um estilo de vida simples. A realidade deles é muito distante dos relógios e das buzinas urbanas.

Para aproveitar bem a ilha, o ideal é sair de Belém por volta de sete horas da manhã para então chegar na ilha às dez e aproveitar o dia. Durante a tarde, o bondinho parte da praia de Vai-quem-quer para o porto a cada uma hora. É só ficar atento para não perder o horário do barco da volta. Um dia em Cotijuba é cansativo, mas é uma experiência que todo mundo deveria ter. Há populações muito distantes do nosso modo de vida corrido e virtual que mantém hábitos tão igualmente distantes do nosso.

tucupi às pencas

o educandário

trabalho braçal ainda muito presente em Cotijuba