quarta-feira, dezembro 28, 2011

A Índia e suas mulheres

Grávida, a mãe indiana procura uma clínica clandestina para fazer o ultrassom. O exame proibido na Índia é para as mulheres, literalmente, um caso de vida ou morte. No país, parir uma filha é tragédia. Mães que não parem homens são socialmente marginalizadas, a mais sutil das punições que englobam ainda agressões físicas (muitas são queimadas) ou assassinatos.

Ser do sexo feminino é carregar um fardo. É a família da noiva que paga o dote quando a filha se casa. Um valor alto que, para um pai de três ou quatro mulheres, implica investir uma fortuna economizada em uma vida inteira. Dar a luz à uma menina é uma grande tristeza para a maioria dos indianos, um fato que justifica o crescimento do feticídio das nenéns. Um fato que justifica a população predominantemente masculina.

As meninas não têm direito ao estudo. Se tiverem um irmão, devem conviver com a desigualdade de tratamento. Se os irmãos são filhos de família pobre, a menina passa fome para que seu irmão se alimente. Mesmo que case, tenha filhos homens, se ficar viúva, terá que conviver com o abandono até a morte. É proibida de casar novamente. Traços de uma cultura registrados pelo jornalista fotográfico Walter Astrada nesse documentário.

Pensar a respeito da posição que apresenta a mulher na sociedade indiana nos leva a identificar imediatamente violação de direitos do homem. Do ponto de vista jurídico, tempos que considerar que tais normas são baseadas nos valores de sociedades ocidentais capitalistas, embora o direito à vida e à integridade física nos soem como algo inerente ao homem. Mas na cultura indiana não é, pelo menos para as mulheres.

É nesse momento que me dá um nó na cabeça. Tentemos nos desprender do que entendemos por certo e errado, conceitos que dependem totalmente da nossa cultura. A desvalorização da mulher indiana é um traço cultural deles. Teriam, os países ocidentais, o direito de intervir punindo aqueles que violam os direitos dessas mulheres e assim violar os costumes e normas daquela cultura? Entendo que não. Isso seria exercer uma espécie de imperialismo, a partir de atitudes etnocêntricas.

Por outro lado, acredito no direito que temos de interceder por essas mulheres dando-lhes a chance de poder construir uma vida. Uma chance que lhes é tirada pelo fato de serem geneticamente XX e não XY, como são os homens. Essa chance já é dada a essas mulheres a partir de trabalhos assistencialistas desenvolvidos por entidades não governamentais, por exemplo.

A grande ironia dessa sociedade cujos homens repudiam mlheres é que elas são essenciais pra perpetuação da espécie. Outra ironia tremenda é os homens serem os responsáveis pelo nascimento dessas mulheres.

No processo da reprodução, a mulher sempre fornecerá o cromossomo X. Já o homem é quem determinará o sexo do feto. Fornecendo o cromossomo Y, nascem meninos, e se o X, meninas. Será que eles sabem disso? Será que aceitariam essa informação?

O documentário me causou estranhamento e perplexidade, tendo em vista que se trata de uma cultura com valores totalmente diferentes da qual me educou. Enquanto observadora do modo de funcionar da sociedade indiana, só me restou um questionamento: o que pensa a maioria das indianas a esse respeito.

Nos condenamos esse costume. Elas condenam também?

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Pra ti, minha mensagem de Jingle Bell

Coroa de flores. Não existe símbolo que me cause maior calafrio e a coroa de flores me provoca esse frio na espinha porque sei que alguém perdeu pra sempre um pedaço.

Odeio filmes com cachorros.

Entretanto, diante de pessoas cujas opiniões considero muito, que relataram se emocionar com "Marley e Eu", me permiti a experiência.

"Marley e Eu" não é um filme sobre cachorro. Dei o play e procurei me livrar de todo meu preconceito pra absorver a mensagem da história. Não chorei hectalitros no final, mas lágrimas escorreram e não por causa da morte do cachorro no final (ah, por favor! Qualquer um que se propõe assistir um filme com cachorro assume a possiblidade dele morrer no final! Eu assumi.). Esquece a morte, o filme emociona porque fala sobre viver.

Construir uma família, arrumar um bom emprego... Clichês que fazem parte de estar vivo. Segundo minhas observsações e vivências, boa parte das pessoas tem filhos e investe na carreira porque "é assim que deve ser". Aí depois de casar e arrumar um emprego, reclama no Twitter do excesso de trabalho, das pautas, de ir pra audiência e saber que ela não acontecerá, do trabalho que dão os alunos em sala de aula. Ou se queixa na mesa do bar sobre a mulher que envelheceu e as balizas que tem que fazer pra usufruir de carne fresca.

Gente que faz tudo errado.

Uma música me chamou atenção na trilha sonora do filme. O Verve cantando "Lucky Man" enquanto o Owen Wilson solta a coleira do Marley e o deixa correr com sede e se jogar na água do mar naquele dia ensolarado na praia. O prazer do cachorro e o olhar do seu dono denunciam o quanto a vida que têm lhes é demasiadamente agradável.

Liberdade.

"Marley e Eu" fala sobre a construção de uma vida "feliz", como dizem. "A vida é onde estamos", diz Jennifer Aniston em resposta à decisão do marido em recusar a entrevista de um emprego melhor, que os faria mudar da cidade onde tiveram os três filhos, onde compraram a casa com piscina e foram felizes nas manhãs de sol. Medo de arriscar e perder a felicidade.

Mudaram e continuaram felizes. Quantas pessoas o fazem sentir especial e raro? Quantas pessoas o fazem sentir extraordinário? Sempre contadas nos dedos, mas o que importou pra família do Marley foi que todas essas pessoas moravam sob o mesmo teto e sabiam que eram reciprocamente extraordinárias. Inclusive o chachorro.

Morrer também faz parte de estar vivo. Ninguém está preparado pra ser pai, ninguém tá preparado pra ser mãe, nem pra ser esposa, nem pra ser marido, muito menos está preparado pra perder um pedaço e seguir em frente.

Por esse motivo me arrepio toda vez que me deparo com uma coroa de flores. Toda poesia da flor sucumbe quando a finalidade dela é te dizer que um pedaço teu foi embora pra sempre.

"Marley e Eu" não é um filme sobre Natal, mas muito propício pra essa época. Época na qual os filhos voltam pra casa em busca de braços que sentem por eles um amor incondicional. Em busca de abraços que dizem quanto eles são extraordinários e raros.

Não entremos no mérito de discutir o que é felicidade. Mas quando um olhar e o sorriso de alguém transmite serenidade e paz, ali tem felicidade.

O Natal tem felicidade porque reúne pessoas extraordinárias, embora algumas delas nem se apercebam do significado de estar vivo e poder confraternizar. Muitas reconhecem o valor desses momentos depois do ponto final que é a coroa de flores.

Não desejarei que vocês tenham um Feliz Natal, mas que possam fazer desse um momento muito feliz.



 

 





segunda-feira, dezembro 19, 2011

Os bolhas

O capitalismo educou muito bem seus filhos a saciar desejos usando como instrumento de troca um papel com valor financeiro. Ter dinheiro é necessário, especialmente quando o anseio vale boas cifras. Facilitam o gozo um cheque pré-datado, o crediário e o arriscado cartão de crédico. Como uma droga, o poder de compra (ou a falsa sensação desse poder) traz o prazer quase imediato de percorrer mais rápido o caminho que existe entre homens e seus objetos de desejo.

Mas e quando esse desejo diz respeito a algo substancial?

Paz de espírito, sossego. O respeito dos filhos, o respeito dos colegas de trabalho, o respeito dos seus pais e irmãos. O respeito de seu marido. O respeito de sua esposa. Idoneidade. Uma mente psicologicamente saudável. Amigos de verdade.

Engordando o débito do final de cada mês, pessoas tentam aliviar os pesares dessas ausências já que não podem quitá-las com os algarismos de sua conta corrente. Para quem tem pouco ou quase nenhum dinheiro, ameniza o pesar a página do Facebook ou o prefil do Twitter que simula a vida que se gostaria de ter.

O que não compreendo é porque alguns insistem em apostar nessa roleta russa.

Há quem use a comida e o sexo pra simular a sensação de bem estar também. Há quem também desconte nos cosméticos, tratamentos estéticos e salões de beleza. Mas se tirarmos de nós os quitutes, a grana, a água e a luz, nos resta o equilíbrio psicológico e os aprendizados impressos no repertório cultural. Como um recém-nascido, somos quase nada sem essa bolha chamada realidade que construimos com tanto esmero.

Uma bolha com valores agregados a sobrenomes, a áreas vips, a locais de trabalho, a condomínios residenciais, a bairros. Patético, não? 

José Saramago foi feliz quando mostrou em "Ensaio sobre a cegueira" o quanto dissimulamos nosso mau cheiro, nossas mediocridades, nossa impotência. Feliz também foi Freud ao nos mostrar que recalcamos informações com as quais não sabemos lidar. Na prática, fazemos ambos nos concentrando nos bons carros, nas boas roupas, nas boas comidas, nos lugares bem frequentados, nas fotografias photoshopadas.

Do ponto de vista platônico, somos nosso mundo de ideias. Do ponto de vista machadiano, somos pura hipocria. Do ponto de vista nietzschiano somos nossas próprias ilusões.

E ainda tem gente que se considera um suprassumo por causa do nome que carrega, por causa do poder político que possui. Pura mediocridade.

Como ouvi um dia desses, você ser babaca no século XIX e ser babaca no século XXI não faz a menor diferença.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Quem sou eu e porque escolhi jornalismo como profissão



Cobrindo o show do Iron Maiden, fui rock star. Entrevistando Sérgio Dias, me
senti um Mutante. Batendo papo com o Fundo de Quintal, vivenciei os
primórdios do Cacique de Ramos, no Rio de Janeiro. Acompanhando enchentes,
senti a dor de um desabrigado.

Acordar e não ter a mínima ideia do que nos espera em um dia de trabalho.
Sempre foi meu emprego dos sonhos. Encontrei esse ofício trabalhando como
repórter e descobri que o jornalismo reúne dois motivos que mantém em mim a
vontade de viver cada dia: conhecer pessoas e contar histórias. Ambos fazem
valer a pena cada respiração, cada batimento cardíaco.

Preocupada com o "futuro", me ocupo com a escolha profissional desde os onze
anos. Planejei o curso de inglês, os inúmeros testes vocacionais e a
faculdade. Depois de cursar Design, Letras e Direito - o único curso até
então concluído - me flagrei apaixonada por jornalismo e cultura. Aos 23
anos comecei do zero, fiz vestibular, arrumei dois estágios e fui feliz
durante os quatro anos da graduação.

Antes disso me ocupei com minha banda autoral e com meu grupo de teatro
independente. Tentando fazer da vida algo mais atraente e aliviando a dura
rotina do contato com as leis. Estudei alemão e desisti de aprender a
língua. Me apaixonei por francês e me alfabetizei na língua. Eu e a minha
necessidade de comunicar. Ainda me lembro dos meus seis anos quando
entrevistava a família com o microfone da Xuxa. Ou gravava offs e sonoras no
Meu Primeiro Gradiente quando brincava de radialista.

O micofone me fascinou. Lembro de ficar hipinotizada a cada encontro visual
com aquele objeto cilíndrico cujo pom-pom mudava de cor frequentemente nos
programas de auditório da década de 1980. Com mais idade, descobri que, mais
do que um objeto visualmente atraente, o microfone era uma ferramenta de
projeção.  Curiosamente descobri esse potencial com as várias entrevistas
que dei na infância e adolescência. Minha habilidade em me expressar chamou
atenção dos repórteres, hoje meus colegas de profissão.

Viciada em manifestar minha opinião, sempre fiz questão de mostrar o que
penso. Também sempre fiz questão de saber o que pensam os demais.
Encontrando nas manifestações artísticas uma forma de comunicar, me
apaixonei por escrever sobre cultura e comportamento. O que me levou a fazer
atualmente a especialização em jornalismo cultural e multimídia em São
Paulo, onde moro há dois meses.

O ser humano me fascina. Descobrir um pouco desse ser racional e criativo a
partir de cada entrevistado virou um elixir. A cada resposta ao
questionamento do repórter, eles revelam um código linguístico que vai além
do que a pauta quer saber. São aspas e sonoras que revelam quem é aquele ser
humano, o que viveu e aprendeu e as boas histórias que tem para contar.

Falar sobre ele e suas vivências em textos jornalísticos virou uma razão
para estar vivo. É escrever o lide, é apertar o rec e as letras constituem
um conteúdo que proporciona vivências e sensações. A possibilidade de se
sentir um pouco aquele personagem, de se sentir parte daquela vida que não
nos pertence.
Depois de passar por quatro graduações, continuo não sabendo "o que quero da
vida" porque minha gula por novas experiências persiste. Por isso busco
sempre mais. Aliás, descobri um dia desses que isso é que é viver. Aos meus
27 anos recém completados descubro que viver é vivenciar cada dia.

O jornalismo me proporcionou acompanhar vivências de várias pessoas. Pedaços
de realidades que existem nesse mundo. Pedaços de realidades que chamamos
notícias. São histórias boas para serem contadas por serem interessantes,
atraentes, socialmente relevantes, peculiares. Histórias que muita gente
gosta de ouvir porque satisfazem a curiosidade, a necessidade por
informação.

Curiosa, quero descobrir essas histórias. Faladeira, quero contá-las também.
Sendo um ser humano interessado por boas narrativas e apreciador da espécie
humana, não poderia me atrair por outra profissão. Me cansando fisicamente e
intelectualmente trabalhando como jornalista, descobri que minhas energias
consumidas na redação fazem de mim uma pessoa muito feliz e insaciável.

quinta-feira, dezembro 08, 2011

exclusivo. não necessariamente sensacional.

Inofensivo seria se não tivesse efeito prejudicial. Indícios que comunicam a falsa impressão da ausência de periculosidade porque é fofinho demais.

Óculos de grau e vestido florido - estampa Liberty -, especificamente, jamais poderiam anunciar maus presságios. Por outro lado, a aparência desleixada, o uniforme de presidiária e a lista de crimes na sentença só poderiam evidenciar que aquelas jamais seriam boas mães.

Errado.



Ler alguém a partir de sua aparência se torna cada vez mais difícil. Que o digam os psicopatas. Diante da possibilidade do imprevisível, paranoicos somos quando assumimos a possibilidade do risco do dano em qualquer um. Despreocupados somos quando entendemos que pode ser dono de um bom coração mesmo o ser humano com a aparência mais desagradável.

Quasímodo.


Conhecer ainda nos é permitido? 

Tenho minhas dúvidas. Com tantos conceitos pré-concebidos, imersos em tantos receios, tenho minhas dúvidas. Já não nos bastavam nossas projeções e platonismos.

Andando por ruas de cidades ditas “grandes”, o que se percebe é a conversão do individualismo em uma roupa por demais confortável. Vão as possibilidades de experiências interpessoais. Fica a segurança do peito que baterá sozinho, mas sem nenhum risco de outra dor que não seja a de ficar só.

Prazer narcísico de conviver consigo mesmo.

Nem tão prazeroso assim. Há aqueles muitos que não toleram se olhar no espelho. 

Que jeito a não ser carregar o próprio corpo?

Imagem: Banksy



quinta-feira, novembro 10, 2011

O imperativo categórico padilhiano

Dias morosos como o de hoje nos quais eu me sinto demasiadamente cansada. A vida é doce, já disseram. Com o percentual cada vez maior de horas ocupadas em um dia, passa o tempo e eu tenho mais certeza que só dá pra trabalhar ou estudar aquilo pelo qual você daria a sua vida. De fato damos nossa vida a cada uma das 24 horas consumidas em uma quinta, quarta, terça-feira. Por isso me recuso a estar atrás de uma mesa despachando papéis e nada mais.

"Eu quero agora te vender uma ideia", me disse Dona Padilha de uma forma nem tão sutil e direta, mas, em suma, foi isso o que ela quis dizer. Entendi seu recado numa manhã de sábado há mais ou menos cinco semanas. Cansada depois das tradicionais 40 horas de trabalho, acordo cedo num sábado ensolarado decidida a comprar minha árvore de natal a ser decorada com adornos roxos e dourados (acabou ganhando tons de lilás, mas não violei a ideia original).

Sacudindo a saia com um andar ansioso a curtos passos que percorreram os econômicos metros quadrados do meu quarto, me olhando com aquele olhar atiçador ela ordenou "vá pra rua!". O dia estava mesmo com uma energia especial e uma paisagem convidativa. O problema, ou não, de sair em companhia de Dona Padilha é que os dias tendem a ser agitados e assim foi.

Dona Padilha é uma pombagira que conheci no Rio de Janeiro há três anos. Hoje, especulo que ela sempre andou na minha ilharga, mas só nos apresentamos naquele ano. De formação católica com primeira comunhão e crisma no meu lattes, não compreendo a organização social da umbanda. Aliás nunca acreditei em incorporações de espíritos que curtem uma cachaça, um fumo e um tambor até eles atropelarem meios de caminhos meus para uma boa ou má conversa. Nem sei ao certo se Dona Padilha concorda com as classificações que lhe foram atribuídas.

Conheço algumas de suas representações, mas nunca a vi pessoalmente. Do jeito que ela é, imagino que seja uma mulher muito sensual. É sagaz e tem um cinismo impressionante. Dona Padilha tem palavra e quando ela diz, está dito. O mais admirável, entretanto, é a sua impressionante capacidade de passar batom! Já presenciei a destreza de colorir com batom vermelho lábios não seus de forma cirúrgica, sem deixar nenhum borradinho.

Por causa do nosso relacionamento de três anos, já sei quando ela está por perto. O resultado da presença dela é uma energia impressionante. Chegando com tudo, naquele sábado ela me disse "sai!". Assim eu fiz depois de um dia de pernadas atrás do que viria a ser a árvore mais fashion do bairro, desobedecendo todo o meu plano anteriormente arquitetado de montar a árvore, deitar e ler até o sono chegar. A árvore ficou linda, li deitada por horas, mas o chegar da noite trouxe junto uma enorme disposição.

O que Dona Padilha diz, se escreve. Assim prometi uma noite agradável às minhas companhias. Assim tivemos uma noite agradável. Assim encontrei um sorriso, até então eleito por mim o sorriso mais lindo da cidade.






terça-feira, outubro 25, 2011

Um ombro e fugir do mundo

Foto: Daniel Moraes



Procurar um ombro pra fugir do mundo...

Se estivesse despida de normas de conduta, me restaria apenas a certeza da satisfação dos meus
desejos e a permanência suprema do meu instinto de permanecer viva. Mataria, se preciso. Beijaria e ensaiaria o ritual de perpetuação da espécie com quem quer que me provocasse a libido. Me renderia à plenitude do estado natural humano.

Viveria em função de minhas pulsões. Bicho.

Procurar um ombro pra fugir do mundo.

Quando o tempo fecha e some o chão, desamparada fico sem nem ao menos saber pra onde correr. Isso se chama estar perdido. Pode o mundo explodir, pouca diferença faz se o solo que se pisa é norte ou sudeste. Na alma, pinta a sensação de ficar sem roupa no meio da multidão.

Encontrar o ombro e fugir do mundo.

Se teu colo é o pé de calmaria de onde brota o meu conforto, poderíamos estar até sob uma tempestade. Não me preocuparia nem o pior dos males. É nessa hora que mesmo fios de cabelo são fortes o suficiente pra tecer meu escudo, a linha tênue que separa a tormenta e a minha paz.

Nessas horas o amor é tudo o que me basta.

terça-feira, outubro 18, 2011

O esperador

Esperar cair do céu é muito mais cômodo. Nesses meus 27 anos de vida já cruzei com muitas pessoas passivas, daquelas que vêm a vida passar, de camarote e lounge vip. Uma resistência às vivências que até hoje eu não entendi. Outras esperam as coisas caírem do céu.

Elas aguardam o momento em que, por uma conspiração divina ou diabólica, a vida deixará na porta dela o problema resolvido e o sonho alcançado, via sedex e embrulhados pra presente. Há quem espere por milagres. Como eu sempre digo, se Deus fosse fazer algum milagre, atenderia causas mais urgentes do que aquelas que um pouco de força de vontade resolve. Então, nêgo, esqueça porque sua "graça" não será alcançada.

Preguiça mental, preguiça física, má vontade, covardia... São vários os fatores que, no meu entendimento, levam a pessoa a esperar as coisas caírem do céu. Soma-se à lista uma pitada de irresponsabilidade e indolência. O curioso (ou não) é que o tempo passa e os esperadores continuam na mesma, com os mesmos problemas e  com o número de insatisfações crescendo em progressão geométrica.

Minhas estatísticas constataram que dificilmente um esperador reage e muda de atitude. Acostumado a esperar cair do céu, algumas vezes é atendido. Curioso, não? E assim ele vai levando a vida. Hábil em causar problemas e se escorar nos outros, às vezes é considerado má companhia.    

sábado, agosto 13, 2011

Nova Guerra Fria?

Em uma sociedade capitalista, quando os direitos entram em conflito, a tendência é que os direitos que protegem o material, o concreto, o tangível, o que valha dinheiro prevaleça e reine em sua plenitude. Explico. O direito estuda interferências de condutas intersubjetivas. Isso quer dizer que a partir do momento em que condutas de duas ou mais pessoas entram em atrito e provocam um conflito, o Direito entra em cena pra resolver o problema. Acontece que nem sempre resolve da melhor maneira, ou de forma justa.

Quando falamos sobre o boom da internet, mídias sociais e plataformas de publicação de conteúdo virtual, entram em conflito dois direitos importantíssimos pro homem moderno: liberdade de expressão e direito de propriedade.

Alguns líderes de Estado entendem que propriedade intelectual é direito de país desenvolvido. Por isso algumas nações europeias regulamentam o uso da internet e o acesso à informação digital. O Brasil com seu culto eterno à liberdade reforça o download gratuito, a celebração do Torrent, do 4Shared.

O acesso fácil e sem ônus à produção intelectual me provoca um questionamento: o download viola o direito autoral, portanto a propriedade imaterial. Por outro lado, dependendo do conteúdo virtual consumido, ele pode contribuir para a edução do consumidor dessa informação. Nesse caso, não seria compensatório a restrição e a violação do direito de propriedade?

Consequência da democratização da informação é o que presenciamos hoje na internet, uma mobilização social com cidadãos que acompanham mais de perto o que acontece na sociedade. Políticos (leia-se pessoa que participa da polis, no sentido do cidadão grego) que estão em todas as mídias sociais. Cidadãos que cuidam da sociedade enquanto coletividade, presando pelo bem comum, mesmo objetivo pelo qual presa o direito (ao menos teoricamente).

A internet estimula a pró-atividade dos cidadãos modernos. A democracia cada vez mais se reforça porque o cidadão tem mais voz, visibilidade e PODER. O que assusta grupos sociais acostumados a controlar a informação, a cultura, a opinião pública. A sociedade está acordada e questiona o status quo capitalista.

Hoje, não necessariamente dita as normas quem tem mais dinheiro. Aliás, como entendem alguns teóricos, a tendência é a consolidação do socialismo da informação. Compartilhar tem sido a ordem. Vejo a liberdade dando um mata leão na propriedade privada e por um bom motivo. Seria a nova Guerra Fria?

Quer pensar sobre a liberdade? deguste: http://vimeo.com/24172300



domingo, agosto 07, 2011

Égua mermão tu é doido!


Inspirada no final de semana e nos homens que embelezam ainda mais a vida em São Paulo, decidi finalmente escrever o post sobre os dez bofes TUDÃO da minha lista. Tá mais do que manjado que braços tatuados, costas largas, bundas redondinhas e pinto grande estão entre os assuntos preferidos das mulheres, pelo menos entre as mulheres que frequentam a minha mesa de bar. Sim, é verdade.

No meu grupo de amigas nunca aconteceram brigas por causa de hombres fuertes. Nada de cordialidade. Simplesmente respeitamos a regra de que quem viu primeiro a presa pode caçar à vontade. Não tem olho furado. Mas quando o bofe é tudão, chama atenção de todo mundo mermo, aí, só no palitinho.

Os homens podem se questionar, mas sim, o que é um bofe tudão? Melhor do que explicar, vejamos a minha lista e comecemos por homens experientes: Domingos Montagner e (claro!) Ravier Bardem.


Capitão Herculano, meu pai amado! Na pele de um cangaceiro, Domingos Montagner veio só pra colocar fogo de baixo das saias femininas. Alguns homens lucram com o passar do tempo e esse é um deles. Pode puxar o terçado e me levar pro acampamento que eu me rendo, seu TUDO! O jeito de cabra macho que não se ajoelha, de homem que pega a mulher pelos cabelos, que maltrata sem fazer sentir dor. Ai ai ai!

Mesma postura de homem maduro que sabe o que quer de Javier Bardem. Me leva pra Olviedo, leva!


O que é esse homem? Um dos artifícios mais poderosos em um homem é olhar. O dele já parece pedir pra mulher tirar a roupa. Sim, é verdade. As costas largas, a voz grave, o jeito de hombre fuerte é irresistível. Não tem como não suspirar. E o que é ele em "Vicky Cristina Barcelona"? Pois é.


E por falar em olhar, olhos pequenos são o poder! Mas não são só os olhos dele que tiram o fôlego. Aliás, o que de ti não tira o fôlego, Johnny Depp? E pensar que no Piratas do Caribe tinha um barco cheio de Jack Sparrow. Um sonho! Desculpa o emputecimento pela minha emoção ao ver essa cena, ex-namorado. Não deu pra repreender.

Os meigos também têm lugar na lista. Ah se eu te pego, Rafael Cortez! E vocês sabem que isso é muito possível. O sujeito adora beijar entrevistadas. Não queres vir me entrevistar em Perdizes?

A beleza e o charme do Cortez são simples. Traços que ficam ainda mais lindos com o bom humor que ele tem. Acho-o engraçadíssimo, além de ser inteligente e tocar violão (instrumentos musicais aumentam o poder de atração do homem. Pesquisei). É válido ressaltar que o sujeito que me faz rir já me conquistou pela metade. Fica a dica.

A mesma beleza singela também fez Jayme Matarazzo conquistar meu coração. É muita beleza, égua mermão tu é doido! Na pele do príncipe Felipe em Cordel Encantado ele está ainda mais matador. Aliás, homem tudão é o que não falta nesse elenco que me faz uma mulher feliz diariamente com Cauã Raymond e Miguel Rômulo.

Jayme Matarazzo

Cauã Reymond (não precisa falar nada, né?)


Um moreno alto, bonito e sensual. Já vi ao vivo. Miguel Rômulo é um tipo atraentíssimo. Não é galã, tem cara de desenho e é competente por demais. Um dos melhores atores brasileiros da atualidade e alto, minha gente. Alto! Me desculpem os pequenos, mas altura é babado! Eis o box de homem lindo que me traz felicidade.

Pra fechar minha lista, mulheres, calma porque a emoção vai ser forte.


Podem os homens chiarem como for, mas Wagner Moura é tudo! Não é porque ele é Wagner Moura. Quando o vi pela primeira vez em Sexo Frágil, com rastafári, nem sabia de quem se tratava, só pensei uma coisa: pegava fácil! Depois da entrevista pra Rolling Stone esse ano, na qual foi publicada esse ensaio, me apaixonei mais ainda. Sem comentários.


Ai ai ai... O nome dele já é uma delicinha. Dudu Azevedo. Pouca gente conhece, ainda é um ator em crescimento, mas quem se importa com atuação se ele tem um corpo maravilhoso? Quer ver melhor? Assiste "Muita calma nessa hora", mana! E esse rosto de menino, hein? hein? hein? Moreno alto, bonito e sensual, tu és a solução de qualquer problema!

Pra encerrar. Ashton Kutcher. Não tenho o que dizer. Aproveita a vista. Sem mais.


quinta-feira, agosto 04, 2011

burburinho

A luz de cor quente do quarto não poderia ser mais convidativa. Entrei sem esperar o convite. A imagem refletida massageou minha vista que agradeceu a bênção de uma composição tão agradável. A luz contornou tetas lindas que apontavam pro céu e iluminou as partes que interessam de umas coxas e bunda cobertas por uma meia arrastão. Pés ainda descalços que aguardavam ser agasalhados em um salto vermelho. Os olhos dela me convidaram a ficar à vontade. Experimentei o colchão macio, a manta quente e a pele com cheiro de hidratante.

segunda-feira, agosto 01, 2011

em casa

a geladeira

Pode ser a menor casa que for. Quando habitada por uma pessoa apenas, fica enorme. Uma imensidão que a gente faz de um tudo pra preencher. A saudade da casa cheia de gente impera. Impera a saudade da muvuca na cozinha, da mesa de oito lugares.

Não há gritos de crianças pintando o sete, nem de vozes masculinas comemorando um gol, nem bebê chorando, nem o som da discovery kids. O que restam são outros prazeres, prazeres menores, como o cheiro do refogado, do alho e do azeite que enchem o coração de felicidade. E que bom que enche! O cheiro da roupa limpa que a gente mesmo lavou. O cheiro da casa limpa que a gente mesmo limpou.

Da muvuca da casa cheia restam um prato, um talher, um copo, um jogo americano. Panos de prato que são a nossa cara, lençóis que são a nossa cara, o canto pra chamar de nosso. Resta o despertador como o amigo mais presente, o homem do gás como o provedor da boa notícia e o carteiro que traz a felicidade da revista nova.

Até que descubramos outros prazeres aos poucos, nos sustentam esses de imediato, quebrando um galho quando a saudade invade a casa e chega até o peito.

domingo, julho 24, 2011

expressão coloquial da língua portuguesa

tomar no cu. tem gente que gosta. mandar alguém tomar no cu é uma expressão que muito me agrada pelo poder de síntese em expressar um sentimento que vai de uma revolta à ira. indignação é a palavra. "tomar no cu" extravasa a tensão. para alguns, em ambos os sentidos. para aqueles que consideram a expressão um nome feio e grotesco, perdão. mas é um dizer coloquial da língua portuguesa que muito me agrada aos ouvidos desde a primeira vez que escutei, quando tinha seis anos. vai tomar no cu. já virou até música. nesse final de domingo é só no que penso. vai tomar no cu.

quarta-feira, junho 22, 2011

A imbecilidade impera?

Um clip me fez desencadear toda uma reflexão sobre o por quê das produções televisivas nacionais e internacionais. As produções são como são porque o público gosta delas ou são os veículos comunicacionais que ensinam o público a gostar dessas produções? Os comunicólogos sabem que as duas justificativas são plausíveis, dependem apenas do ponto de vista.

Jurgen Habermas e os frankfurtianos entenderam que os meios de comunicação de massa formavam consumidores. Você consome a informação e passa a desenvolver uma vontade de comprar. A teoria parte da ideia de um público consumidor palerma que não questiona a formação que recebe.

Palerma. Chegamos no ponto que me interessa, o clip. O video mostra dois homens que se acham foda falando que dão show na balada e sabem que as mulheres estão afim deles. Eles dizem: "Garota, já dei meu show, sei que tu me queres, então podemos sair daqui, você pega no meu (pi), eu pego na sua (pi) porque eu sei que você está na minha". É mais ou menos isso.

O "pi" é um efeito eletrônico do hip hop que embala uma das músicas mais gala secas que já ouvi na vida. O machismo da letra nem é a questão porque, de fato, mulheres babacas que não se dão valor e se consideram apenas um pedaço de carne estão super presentas em tudo quando é lugar.

A questão é: o mundo também está cheio de babacas como esses dois desse grupo de hip hop que nunca tinha ouvido na vida. São norte-americanos. O clip é uma super produção, daí eu penso: os Estados Unidos estão exportando conteúdo lastimável e o Multishow faz o favor de traduzir em legendas a letra babaca enquanto veicula o clip.

Detalhe, o clip se resume aos caras andando, cantando a música e destruindo tudo o que veem pela frente. A destruição dos objetos dialoga com surubas que acontecem em vários cômodos de uma casa bagunçada. Muito construtivo. O clip passa a pior das mensagens.

O que passou pela cabeça do letrista e da produtora dessa banda ao entender que isso valia a pena ser divulgado? Dinheiro é a única explicação plausível pra mim. Eles apostaram porque sabiam que a música poderia estourar.

No processo resumido de comunicação (emissor - mensagem - receptor), só posso concluir que os dois polos desse processo, emissor e receptor, são babacas. É só uma música? Pra quem enxerga apenas a um palmo dos olhos ou não fala inglês, sim. Mas a situação é delicada.

domingo, maio 22, 2011

chegadas e partidas

O aeroporto de Guarulhos vai ter sempre a cara dele. Eu vivi ali momentos que ficarão pra sempre aqui, dentro do coração. Da penúltima vez fiquei quase vinte horas naquele lugar que reúne tanto sentimento. Chegadas e partidas que trazem aperto ao peito e um monte de lágrimas. Aliás, quero dizer que não tinha nome mais perfeito pra esse programa da GNT. Uma ideia fantástica que traz a Astrid Fontenelle no seu melhor trabalho na televisão brasileira.

Tanto tempo no aeroporto de Guarulhos já nos tornaram íntimos. Já sei qual é o melhor banheiro pra chorar, o melhor lugar pra ler, pra tirar uma soneca, pra comer bem sem gastar tanto assim... pra passar o tempo. Um lugar que reúne gente de todo tipo, do mundo inteiro, onde a gente se sente porra nenhuma. Principalmente se você mora numa cidade pequena e encontra conhecidos em quase tudo quanto é lugar.

Lá eu conheci um paulistano que me vendeu pesos bem baratinho e ainda me deu moedas, porque as casas de cambio so trabalham com cédulas. De lá eu parti pra Buenos aires e vi um céu tão lindo. La esperei por quase vinte horas um aviao pra voltar pra uma cidade que eu detesto. Esperar nesse caso e duplamente ruim.

Em Guarulhos todo mundo espera, anda de um lado pro outro, carregada as vezes muita bagagem e fala linguas que eu nunca escutei na vida. Gente comum, gente estranha, gente diferente. Historias que se encontram em um mesmo espaco fisico. Historias que a Astrid conta muito bem, historia que a producao do Chegadas e Partidas seleciona com muito esmero. Tudo muito bem editado, dirigido, narrado e com uma trilha sonora maravilhosa.

Chegar no aeroporto de Guarulhos me da vontade de chorar. Sempre. E me aborreco sempre com a sala de embarque domestico sempre lotada, estressante por causa da voz estridente dos homens e mulheres que anunciam embarques e ultimas chamadas. Estar la e lembrar de coisa demais. Sempre choro vendo Chegadas e Partidas.

terça-feira, maio 17, 2011

as borboletas são bem vindas

Surpresa. Toda mulher adora ser surpreendida. Com coisas boas, óbvio. Um belo dia estava na casa da vóvis quando ela leu uma declaração de amor escrita no asfalto da rua dela. Uns dizeres sobre um aniversário de namoro. Era pra mim. Ri muito. Gargalhei. Não acreditei que ele tinha estado ali de madrugada pintando o asfalto na surdina. Outra vez a vóvis fez de tudo pra eu dormir naquele mesmo apartamento. Na manhã seguinte, uma cesta de café da manhã deliciosa me esperava. Outro aniversário de namoro. Mas uma vez ele me deixou boquiaberta.

Flores são boas surpresas. Assim como o são bilhetinhos carinhosos e declarações inesperadas. Não digo que romantismo seja necessário porque cada um tem a sua forma de dizer que ama. Mas romantismo me encanta, encanta as mulheres que conheço. Não precisa de jóias, presentes caros. O importante é um gesto, uma atitude alheia que leva ao nosso estômago as borboletas. Ah, o frio na barriga. Um sorriso, um olhar, uma piscadela. Ouvi dizer que as mães adoram receber essas coisas dos filhos, diz que é uma sensação maravilhosa. Não sei.

Dar música de presente. Carta, beijo surpresa, cafuné, carinho durante a aula, bilhete no trabalho, fotografia, declarações pelo gtalk, DM - tempos modernos! Uma vez ganhei um conjunto de lapiseira, borrachas e grafites, tudo colorido, sim, na quarta série. Um japonês da quinta se apaixonou por mim. Foi lindo, claro que foi lindo. Surpresa.

domingo, maio 01, 2011

e se foi

O quarto estava cheio de pisca-pisca. Luzes coloridas de natal que depois vieram parar na minha sala de estar. O meu telefone tocou: "Passa aqui em casa depois do trabalho. Quero conversar contigo". A contra gosto me dirigi aquele endereço que me lembra tanta coisa. Finais de semana felizes, sempre regado a músicas, comidinhas, filmes, seriados e muito amor, claro.

Cheguei na casa e ele me mostrou o quarto vazio, com pouca mobília e ainda assim muito bagunçado. "Meu coração está desse jeito", ele disse. E comparou o pequeno cômodo ao peito que batia angustiado e com um espaço livre depois de perder um amor. "Minha vida está desse jeito desde que foste", se dirigiu ao quarto do meio daquele segundo andar da casa enorme, "mas quero que minha vida seja assim...Fecha os olhos".

O quarto estava todo decorado com luzes natalinas. Pisca - piscas que vinham do teto, passavam por todas as paredes, pela cama de casal, chão. Um colorido que me travou a fala. Tão lindo...Quantas luzes! Sobre a cama, muitos chocolates - todos os meus favoritos -, chumaços de algodões coloridos, fraldas de bebê, brinquedos, fotografias, nossos bichos de pelúcia (presentes recíprocos para os quais dedicamos preciosos minutos para escolher os nomes).

Enfim ele gritou pra mim da forma mais poética o que eu sempre quis escutar. Construiríamos nossa vida juntos. Estávamos na ante-sala do pedido de casamento. Mas a aliança que não mais estava no meu dedo direito continuava sem fazer sentido. E eu me odiei por não querer mais aquilo. Ao som das músicas que marcaram a nossa história eu disse "não". Deixei pra trás o quarto lindamente enfeitado, pensado com todo amor pra mim. Só me restou o aperto no peito e o rosto vermelho por causa do choro.

Desencontros desconcertantes, desencadeadores de discórdias e desídias. Definitivamente dilaceradores.

sábado, abril 09, 2011

Para aliviar a dor, o pulo

Morfina não faz parar a dor do sofrimento. A premissa é uma constatação da noiva que se matou por causa do noivo. Viciado em cocaína, o noivo lutava contra a dependência, até que não suportou as dores da alma que lhe levaram ao vício e à dor física que as drogas provocam. Se jogou da janela do apartamento da noiva em janeiro desse ano.

A noiva o viu no chão do terraço do prédio. Desesperada, correu para o elevador. Chegou ao térreo, ajoelhou-se em desespero e implorou para ele não ir. Ele ainda respirava. estava com o rosto deformado. A emergência chegou, fez os procedimentos de primeiros socorros, mas não adiantou.

Ela morreu junto com ele. Disse que o corpo continuava vivo, mas o espírito tinha ido em bora com o noivo. Tentou voltar à rotina dos palcos paulistanos onde participava de uma peça infantil. Tentou se acostumar com o vazio do apartamento. Mas doeu demais. Três meses depois se jogou pela mesma janela.

"Deus perdoa quem morre por amor", ela disse na carta suicida que escreveu aos amigos, aos dois filhos, ao tio, à irmã. Mandou e-mail para um dos diretores da revista Caras, um de seus melhores amigos. Se desculpou, mas disse que não dava mais. "Ela me enganou direitinho. Parecia bem", disse ele em entrevista à revista.

A atriz pediu para ser enterrada junto ao noivo, mas não foi. O pai dela ficou sem jeito de pedir para dividir o túmulo porque os dois não eram casados. A atriz acreditou que morta, iria se encontrar com o noivo no plano espiritual onde daria aula de teatro às crianças. Pediu perdão a todos, mas a dor insustentável não cessaria nem com morfina. Ela se viciou na droga quando sofreu um acidente de carro e não morreu por pouco. A dor física dos ferimentos era forte demais.

No dia da morte, escreveu a carta, mandou e-mail ao editor da revista Caras e tuitou que a dor era insuportável. Horas depois andou em direção à janela e pulou. Morreu mês passado.


segunda-feira, abril 04, 2011

Maiden in Belém. A passagem avassaladora da Donzela de Ferro



Iron Maiden deixou Belém para trás. Para milhares de pessoas, um momento único, histórico, inacreditável e todos os adjetivos hiperbólicos que por mais exagerados que sejam não conseguem descrever fielmente o que foi assistir aos britânicos na capital paraense. Eu estive lá entre esses milhares, como um dos jornalistas que registrou o maior show que a cidade já recebeu. Uma experiência antropologicamente interessante, como sempre digo. Um pedaço dela eu divido com vocês. Confira a matéria publica no Jornal Amazônia e O LIBERAL.

O metal da Donzela de Ferro. Show do Iron Maiden deixa apopléticos os fãs em Belém
Surreal foi o adjetivo mais utilizado pelos fãs para definir o show do Iron Maiden. A passagem de “The Final Frontier World Tour 2011” por Belém é um marco na história do heavy metal paraense. Os head bangers amazônidas não são os mesmos, fato comprovado às 23h10 de sexta-feira quando o comandante Bruce Dickson e sua trupe deixaram o palco. O público ficou atônito. Um espetáculo a parte de olhares incrédulos diante do que viram e ouviram por duas horas. Um faltar de palavras que dificultou até dar entrevista. Por uma noite, Belém foi capital do metal, como definiu Rosevelt Bala, vocalista do Stress, banda que abriu o show.

Com uma "pontualidade" quase britânica, o Maiden entrou na surdina no palco quase escuro, às 21h10. Bruce Dickinson assumiu o front stage e levou 11 mil pessoas à loucura. A primeira vez de milhares de fãs frente a frente com Iron Maiden. Steve Harris, Dave Murray, AdrianSmith, Janick Gers e Nicko McBrian assumiram seus postos e a músicaque batiza a turnê, “Satelite 15...The Final Frontier”, abriu oespetáculo. O palco de mais de 360 metros quadrados e 12 metros de pé direitolivre pareceu ser o playground dos senhores da Donzela de Ferro que serevelaram garotos. Jovens na alma e na forma física.

Janick Gers não economizou nos malabarismos com a guitarra e demonstrou sua intimidade com o instrumento. Jogou-a para o alto, passou por entre as pernas, girou a guitarra no corpo como se fosse um pingente e a correia, o cordão. Correndo de uma ponta a outra do palco, o vocalista Bruce Dickinson suou. O gorro encharcado que só tirou no final do show, deu de brinde para a plateia. O público lucrou levando para casa baquetas, munhequeiras e peças da bateria de Nicko McBraian. O baterista simpático foi o último a deixar o palco. Pareceu querer aproveitar o contato com os fãs tão distantes a maior parte do show, especialmente por causa do cenário que “escondeu” o Maiden mais bem humorado.

Dickson suou a camisa e a calça com estampa militar. Transpiração resultante de subidas e descidas sucessivas no cenário que simula uma estação espacial. No auge do show, “The Trooper” ergueu o coro de 11 mil vozes. Sobre o cenário, Dickinson apareceu vestido de vermelho, balançando a bandeira da Inglaterra. O ritmo eletrizante acompanhou amaior parte do repertório que envolveu o público. Especialmente em“Number of The Beast” e “Fear of The Darck” que emociounou a plateia. Sucessos da história do Maiden que boa parte dos fãs cantou ao vivocom os ídolos pela primeira vez.

O mascote Eddie subiu ao palco quaseno final do show. Um boneco mecânico de cerca de três metros de alturaque brincou com os músicos e tocou guitarra. Bruce Dickinson interagiu com o público o tempo todo. “Ainda estouvivo”, brincou depois de uma sequência de músicas pulsantes. Contou aos fãs que chegou em Tokyo dez minutos antes do terremoto que abalou o Japão no início de março, por isso cancelaram os dois shows no país. O vocalista estimulou a plateia pedindo gritos e demonstrou o quanto ficou emocionado de dividir o show com “11 mil amigos” – como disse - e de tocar em Belém pela primeira vez. “Nós temos ‘Belém’ (escrito) nalateral da aeronave”, disse ao público lembrando a lista das cidadesda turnê impressas na parte externa do Boeing Ed Force One.

“Tem fãs do Maiden em qualquer lugar do mundo, de qualquer tipo, qualquer religião. Não importa de onde seja, se você é fã do Iron Maiden, é parte da nossa família”, Dickinson falou aos fãs. Uma noite marcantepara a história do heavy metal no Pará.


Eddie - Robô do mascote provocou gritos eufóricos (por Filipe Faraon)

Um elemento do palco chamou atenção e levou o público à loucura: o surgimento do mascote da banda, o Eddie The Head. Ele é um robô demais ou menos três metros de altura e apareceu durante a música IronMaiden, uma das últimas do show de ontem. Eddie é um personagem morto-vivo que estampa quase todas as famosas blusas e capas de álbum da banda. A versão do robô nesta turnê é bem mais avançada do que a da última, pois ele tem um vasto repertório de movimentos. Tanto que, no final, chega a empunhar uma guitarra e“tocá-la” sozinho.

Outro aspecto do palco montado do Cidade Folia chega a ser uma raridade nos show do Iron Maiden. Foi a presença de um telão, à esquerda (sob o ponto de vista do público), que permitiu os fãs masdistantes se sentirem mais próximo do espetáculo. A banda é uma daspoucas que dificilmente usa o recurso; prefere explorar um cenáriocomplexo, com mudanças no pano de fundo e até a presença excêntrica dorobô gigante.

*Set List:
1- Satellite 15… The Final Frontier
2- El Dorado
3- 2 Minutes to Midnight
4- The Talisman5- Coming Home
6- Dance of Death
7- The Trooper
8- The Wicker Man
9- Blood Brothers
10- When the Wild Wind Blows
11-The Evil That Men Do
12- Fear of the Dark
13- Iron MaidenIntervalo
14- The Number of the Beast
15- Hallowed Be Thy Name
16- Running Free

Aguardem o próximo post sobre os "íntimos" do Maiden em Belém ;)

quarta-feira, março 23, 2011

Meu disk MTV

Conversando com o namorado, ele me falou sobre sua curiosidade acerca de dez músicas que marcaram a vida das pessoas. Assim como ele, concordo que a música faz parte da identidade e da história de cada um. O difícil é fazer esse top 10. epecialmente se você nem é tão novinho assim. No post sobre as dez músicas que construíram o caráter dele, beibe conta essa história. Atendendo ao pedido dele, bati cabeça, revirei o baú e lá vai.

Quando eu era bebê, meu pai conta que um indicativo de que eu tinha acordado era o meu piu piu entoar a melodia de Raindrops Keep Falling On My Head. A combinação meiga de letra + arranjo + melodia me encantou quando escutei a versão original, ainda criança. A música faz parte da minha história e eu me emociono toda vez que a escuto porque é a cara do papai. Respeitando a ordem cronológica, esta ocupa o primeiro lugar.

Já na época em que era crescidinha, mas ainda podia andar na João Balbi só de calcinha sem fazer alarde, o Tears For Fears entra pra carimbar com Everybody Wants To Rule The World os quase quatro anos que morei em São Paulo no início da década de 1990. Uma época feliz que passei alguns sábados no play center, fiz piquenique no ibirapuera e no horto municipal e andei de bicicleta com meus amigos aos domingos.

Early 90's, já de volta a Belém, o jeito descontraído e nada convencional do 4 Non Blondes chamou minha atenção e do tio Marquinho, meu eterno bateristas favorito. Ele lembrava o Slash, do Guns. O que eu achava o máximo porque Guns in Roses é uma das minhas bandas favoritas. Eram só aqueles acordes iniciais de What's up tocarem que eu me sentia em êxtase. Uma delícia. Aliás, o tio Marquinho curtiu muito rock. Tinha uma banda e me apresentou o Scorpions, Iron Maiden e tantos outros.

A eletrola dele estava quase sempre ocupada lendo guitarras, baixo e bateria de algum vinil. Todos os dias ele me acordava da sesta com a música que difratava da sala de ensaio dele até o meu quarto. Rock tocando era sinal de levantar e fazer o dever de casa. O curioso é que as crianças da minha escola também adoravam essa música. Quando tocava na Jovem Pan - rádio preferida do ônibus 3 da Ibifam - era mais quem pedia pro tio Espedito aumentar o volume pra cantar em uníssono. Lindo!

O tio Marquinho morreu em 1994, mas o irmão dele - o meu pai - continuou me influenciando com o melhor da combinação guitarra, baixo, bateria. Ele acordou várias vezes a mim e aos meus irmãos para ir pra escola ao som de Led Zeppelin, vez ou outra rolava um clássico erudito. Mas do Zeppelin, fica a lembrança de Tangerine que marcou principalmente a minha adolescência. Um desejo que eu tinha de viver no meio de gente que curtisse o mesmo estilo. No meu colégio da época só tinha micareteiro e pagodeiro. uó!

Uma pausa no estrangeirismo. Apresentemos um combo! A música brasileira também faz parte da minha história. Menos do que eu gostaria, mas faz. Mas as que me marcaram estão longe do que eu gosto de ouvir. São hits de verão/carnaval/férias que não têm como não escutar porque são tocados insistentemente. Sabe como é no Pará. E toda vez que essas músicas tocam, todo contexto daqueles anos volta. Cheiro, pessoas, situações, sentimentos. São três: um axé (férias em Soure de noventa e pouco), um brega (julho em salinas de noventa e muitos. Essa tem até clipe HAHAHAHAHAHA) e um forró (minha festa de formatura, em 2009. Essa eu me RASGO!).

Voltando às origens, Bidê ou Balde parece contar uma história minha. Boy Jorge marcou minha infância e eu EN-LOU-QUE-ÇO quando toca essa música. Bem que os DJs cults poderiam incorporá-la no set list. O Cake marcou a adolescência e um pedaço da atualidade. Uma das melhores músicas contemporâneas, na minha opinião. Não foram dez músicas, mas foram "cerca de". A lista é grande. Tem MUITA coisa que marcou. Mas aí eu deixo prum outro post.


domingo, março 20, 2011

Pode fazer xixi na calça?

Há um mês de bico calado por aqui por causa da vida offline esporadicamente casca grossa, volto para abir o meu bocão. Hipocrisia, conhece?

Xixi. O que me levou a escrever esse poste foi uma terrível vontade de dar uma mijada (no duplo sentido, até). Estava eu num bar point da cidade (Belém-PA) aproveitando a promoção do chope em dobro quando a bexiga apertou. A inibição do ADH me fez mover minhas lindas perninhas rumo ao banheiro do recinto. O estabelecimento que apresenta apenas um único mijatório feminino e outro masculino faz crescer a fila que fica quase do tamanho da fila de espera do SUS.

As mulheres - maiores recordistas no tempo de demora na visita escretórica - são sempre maioria nesta única fila que leva os seres humanos às duas únicas portas da felicidade que anunciam que o fim da pressão do xixi está próximo. O dito bar - mal projetado, diga-se de passagem - tem o banheiro próximo à saída da cozinha e do balcão de atendimento. Não bastasse esse encontro de ida e vinda de pessoas, no meio do trânsito ainda existe uma mesa - o pior lugar do bar, diga-se de passagem.

Já esperando alguns eternos minutos na fila do xixi, observo que uma dupla de mulheres e outra de homens que estava na minha frente entra junto no banheiro. Namorado comenta comigo a ótima maneira de otimizar o tempo e quebrar um galho pra quem tá quase pra mijar na calça, como eu estava. Pensei, se o banheiro masculino desocupar primeiro, você entra e eu entro junto, disse pro namorado. Dito e feito. Abriu a porta, entramos. Dois homens com mais de trinta anos nos olharam feio.

Aliviada, já na mesa, o casal que nos acompanhava na noite etílica comenta o auê que os dois marmanjos fizeram porque um casal entrou no banheiro. "Gente, hoje em dia pessoas do mesmo sexo também formam casal!", pensei. Eles achavam que a gente ia transar no banheiro? Pra mim é o único motivo plausível de indignação. Afinal, ocuparíamos o banheiro por mais tempo. Fora isso...

Noto que as pessoas às vezes não param pra pensar. Arrotam sentenças e censuras sem se questionar a respeito delas. As duas mulheres e os dois homens poderiam ter provocado reclamações. Mas porque justo um casal hétero? É esse tipo de coisa que eu não entendo. Mas mijar na calça pode.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O ponto final.

Janeiro chegou com os cacetes. Foi um mês de perdas. Na primeira semana, enterrei a tia madrinha querida que me batizou e me deu o nome que eu carrego. Um alívio ao me livrar do prenome "Caulim", uma viagem da minha mãe que vivia uma wibe flower power e quis homenagear a natureza. Duas semanas depois, enterro a minha editora querida que me recebeu gentilmente no meu primeiro emprego de jornalista. Escrota, exigente, brincalhona e tão amável. Eu parava tudo quando ela tava no telefone com os filhos. Não conseguia não prestar atenção nas esculhambações e palavras carinhosas e preocupadas que ela trocava com os pequerruxos. Me ensinou boa parte do que eu sei sobre o texto jornalístico e acreditava no meu sucesso profissional. Foi uma das maiores incentivadoras da minha partida de Belém (que ocorrerá em breve, se Deus assim permitir).

O curioso é que o velório das duas foi no mesmo lugar. Na capela da Igreja dos Capuchinhos. Mesmo lugar que velou o corpo da senhora morta no desabamento do prédio, ocorrido no último sábado. Nessa mesma capela estive duas vezes em menos de um mês. Nas duas situações testemunhei a tristeza de filhos apegados que se despediram de sua mãe (como caminhar daqui pra frente, meu Deus?). Os filhos da Karime ficaram o tempo inteiro próximos ao caixão. Postura que denuncia um inconformismo com a morte que levou a mãezinha deles tão depressa. Meu primo-irmão também sofreu demais quando constatou que a mãe dava, literalmente, os últimos suspiros, perdendo a briga contra o câncer, na cama de um hospital daqui.

Por que a gente perde? Acho que o sentido da morte é dar um tapa na cara dos que estão vivos. Um jeito da vida dizer "acordem, seus desgraçados. Sejam melhor com os outros e com vocês mesmos. Não se rendam ao medo e à preguiça. Sejam mais gentis com seus irmãos". Quando tem um corpo no caixão rodeado por quatro velas, as coroas de flores e rosas chegam. Parentes e amigos choram. Um ritual comum à nossa cultura. Tudo bem. Mas o melhor mesmo é dar atenção e flores àquele corpo quando ainda em vida. Melhor viver, rir, chorar e fazer bundinha (no caso dos casais) quando ainda estamos juntos. Tudo passa e tudo sempre passará, né Lulu?

A vóvis sempre cantou no meu ouvido um ditado: é preciso perder para dar valor. Naturalmente eu não entendi nada até sentir isso e desde então minha ansiedade e o medo de perder me fazem viver intensamento tudo o que me acontece. As sensações são tudo o que me interessa. Sensação do beijo, do abraço, do desejo - de saciar o desejo -, da saudade matada, do frio na barriga, do cheiro no pescoço, do carinho, de tudo o que envolve não estar sozinho. Depois que morre, já era, né? Depois que acaba, também. O fim às vezes chega a ser tão duro quanto à morte. Especialmente para os que provocaram isso e para aqueles que não aproveitaram a eternidade enquanto durou. A gente perde pedaços e depois remenda o coração. Aqueles cujos pais se separam enquanto somos criança, sabem o que eu quero dizer. Uma dor inexplicável e tão pesada para corações pequenos. Mesmo sentindo pancadas ao longo do tempo, a porrada não diminui de intensidade. A gente é que suporta .

quarta-feira, janeiro 19, 2011

O idiota

O estômago arde, ronca e dói. Outra crise de gastrite nervosa provocada por problemas que ele poderia ter evitado. Problemas daqueles que vem de graça, como um bônus ingrato. Pra ele ,ela é linda. O diverte, o distrai, lhe faz bem e muito mal. Isso explica o desconforto que lhe ocupa o estômago a maior parte do dia. Mas a dor ele procura ignorar.

A situação não é estranha. Ele já viveu isso antes. Enquanto a maioria das pessoas se esforça pra ter melhor qualidade de vida, ele pega a arma, puxa o gatilho, mira no pé e atira. Se ainda tivesse alguém pra ajudar a fazer o curativo... Tão bobo e sem amor próprio. Incoerências que nem ele compreende. Estar com ela parece ser compensatório. No mais, ele não tem coragem de deixar pra trás. Babaca.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Aponte o dedo e escolha quem vai pra fora!




O Big Brother Brasil começou e eu ainda não parei para assistir um dia que fosse. Vendo flashes constatei que não teve nenhuma novidade de imediato. A casa está cheia de mulher gostosa, homem sarado e gente feliz da vida (preconceito?). Mas uma coisa me chamou atenção no primeiro dia do BBB.
Eu estava em um bar de Belém que disponibilizou duas televisões sem audio para o público assistir à estreia do programa. Da minha mesa gritaram "traveco!", insistentemente, assim que Ariadna entrou na casa. No Twitter, foram várias as piadas sobre a moça. Digo moça, porque, embora ela tenha aparelho reprodutor masculino, se sente mulher e tem feminilidade. Foi então que eu percebi que algumas pessoas próximas são mais preconceituosos do que eu imaginava. A discriminação é tão forte que acho que a gente nem se dá conta do problema que isso causa.
Confesso que eu não comprendia o drama dos transexuais até entrevistar um. Uma moça jovem, estudante de psicologia, que sofre diariamente ao olhar o pênis no corpo cuja essência é feminina. Ela se sente mulher desde criança, mas como nasceu com órgão sexual masculino, foi tratada como menino. Assumir a identidade feminina, assim como Ariadna, separou essa moça da família que não aceita "o homem ter virado mulher".
As piadas sobre a condição sexual da Ariadna não param (a intolerância é a mesma com a participante fora dos padrões de beleza da Playboy que, mesmo assim, se sente gostosíssima). Acredito que muitos falam estupidez a respeito sem nem mesmo perceber o grau de pateticidade. Não estou dizendo que a realidade dos transexuais deva nos parecer simples e aceitável e nem que devamos encarar com naturalidade. Seria hipocrisia porque é diferente. É difícil até compreender como um homem pode se sentir mulher e vice versa. Mas já imaginou o quanto devem sofrer essas pessoas? Não entendo o transexualismo como uma questão de opção. Você simplesmente nasce com o sexo diferente da sexualidade. Ariadna não é gay. É uma mulher que nasceu com aparência masculina.
O mais curioso de todo esse início do BBB11 é o primeiro paredão. Três negros. Um deles é gay e outro transexual. Pode até ser que os escolhidos não tenham nada a ver com o fato de serem negros ou minoria na casa. Mas chama atenção. Não tive como não assumir a possibilidade da discriminação e do preconceito terem sido cruciais na formação desse paredão. Principalmente porque pessoas próximas a mim têm gritado que não toleram Ariadna. É interessante conhecer para fazer um juízo a respeito das coisas. Assim a gente desconstrói preconceitos.
Não sou politicamente correta e nem desprovida de preconceitos. Sei que meu esforço é insuficiente para desconstruir conceitos pré-concebidos. Que os religiosos entendam que o transexualismo não é coisa de Deus, que os machistas digam que o transexualismo é coisa de gay, que todos tenham uma opinião a respeito. Mas a manifestação de pensamento não deve ser agressiva e nem ofender. Cada um tem o direito de ter opiniões, mas que tenha o dever de conhecer para depois se manifestar a respeito.
A verdade é que só quando a gente é discriminado é capaz de refletir melhor sobre atos preconceituosos. Sou nortista e senti isso ao me chamarem de "baiana", em São Paulo, e "paraíba", no Rio de Janeiro. Nada contra baianos e paraibanos, mas contra aqueles que fazem desses adjetivos ofensas. Todos apodreceremos e federemos da mesma maneira depois de mortos. Eu realmente não acredito que haja alguma diferença genética importante que qualifique esse ou aquele fenótipo como o melhor, ou mesmo a cidade de origem (babaquice!). Tudo é uma questão cultural, no meu entendimento. Não sei como o público usará o seu poder de escolha ao apontar o dedo na cara do primeiro rejeitado do BBB11, mas assumo a possibilidade da negra heterossexual ser colocada pra fora. Entre os três emparedados ela acaba sendo "A" diferente.




segunda-feira, janeiro 17, 2011

Belenzita, me perdoa, mas o que eu sinto é uma tremenda vontade de partir. Tuas ruas arborizadas, tuas ruas de água, teus gostos e cheiros eu amo demais, mas tenho uma sensação de não pertencer a ti.

Hoje à noite, caminhando pelas ruas onde andei só de calcinha, numa infância na qual era possível andar de bicicleta na João Balbi, lamentei. Não faz mais sentido. A alegria que eu tinha quando voltava pra cá, pequena, depois de passar o ano todo em outra cidade, sumiu. Infelizmente valorizo a ignorância e má educação das pessoas. O clima quente e úmido que me deixa com cara de pão doce e me deixa esgotada. A pouca afinidade que eu tenho com a maioria das pessoas.

Eu nasci numa terra com a qual não constituí identificação. Uma pena. Admiro a cultura, mas não me identifico. Belenzita, me perdoa.

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Ansiosa? Eu não espero.

Mulheres com atitude e feminilidade sempre me chamam atenção. Essa moça estava na plateia de um show no Hangar. Amei a camiseta. Diferente como ela. Imprimiu no look um pouco da personalidade. Nem a conheço, mas especulo que seja uma personalidade forte.

Quando mulher está na adolescência, ficar com um rapaz é algo complicadíssimo. A insegurança natural a essa fase da vida faz o sexo feminino enxergar em si um monte de defeitos. Só depois que a gente cresce que vê o quanto éramos lindas e nossos peitos mais em pezinhos. A gente espera o menino olhar, o menino chegar, o menino abraçar, o menino beijar e o menino pedir pra namorar. A inércia de esperar por tudo isso pode ser justificada pela cultura machista da sociedade brasileira e ter outras explicações.

Não tenho irmã. Uma pena. Se eu tivesse uma irmã mais nova, ensinaria mais rápido algumas coisas que aprendi sozinha, vivendo, e graças a um bando de homem otário com os quais vivi também coisas delicinhas. Mostraria que mulher deve escolher e não esperar pra ser escolhida. “Maninha linda do meu coração, chegou na festinha e quer um colinho? Avalia todo o conteúdo da festa, escolha um descompromissado, chegue, converse, dance, beije, mas só troque telefone e o MSN se você estiver realmente interessada.”

Curiosamente, dou minhas dicas pro meu irmão caçula e primos mais novos. Eles ainda têm aquele insegurança natural da inexperiência. No pacote vão as dicas sobre como tratar bem uma mulher e não desrespeitá-la como filhos da puta já fizeram comigo e todas as amigas (sempre tem um filho da puta). Sem feminismo, nem radicalismo. Se eu soubesse que homem cede tão fácil, teria experimentado outras delicinhas quando tive vontade, mas me faltou coragem.

Conversando com uma amiga-irmã que já conhece um bocado do mundo e de homens estrangeiros, ela me solta: “Não precisa ser bonita, não”. Basta se amar e se achar a mulher mais gostosa, escolher e ficar com ele. Foi assim que ela escolheu o futuro marido. A maluzinha, minha filhota que ainda não foi concebida, vai aprender que mulher pode. Que mulher escolhe, que mulher rejeita e que mulher não aceita.

O curioso é que eu ainda vejo um monte de mulher cheia de frescura e sem atitude. Prefere dormir babando de vontade do que ir atrás do que quer. Homem com frescura, com medo de se envolver, também tem aos montes. Mas a gente só entrega o coração uma vez. Quando toma de volta, já era. É bom prestar atenção pra não deixar passar e perder, porque quando vai embora, já era, já era, já era e isso é válido pra tudo nessa vida.