terça-feira, janeiro 18, 2011

Aponte o dedo e escolha quem vai pra fora!




O Big Brother Brasil começou e eu ainda não parei para assistir um dia que fosse. Vendo flashes constatei que não teve nenhuma novidade de imediato. A casa está cheia de mulher gostosa, homem sarado e gente feliz da vida (preconceito?). Mas uma coisa me chamou atenção no primeiro dia do BBB.
Eu estava em um bar de Belém que disponibilizou duas televisões sem audio para o público assistir à estreia do programa. Da minha mesa gritaram "traveco!", insistentemente, assim que Ariadna entrou na casa. No Twitter, foram várias as piadas sobre a moça. Digo moça, porque, embora ela tenha aparelho reprodutor masculino, se sente mulher e tem feminilidade. Foi então que eu percebi que algumas pessoas próximas são mais preconceituosos do que eu imaginava. A discriminação é tão forte que acho que a gente nem se dá conta do problema que isso causa.
Confesso que eu não comprendia o drama dos transexuais até entrevistar um. Uma moça jovem, estudante de psicologia, que sofre diariamente ao olhar o pênis no corpo cuja essência é feminina. Ela se sente mulher desde criança, mas como nasceu com órgão sexual masculino, foi tratada como menino. Assumir a identidade feminina, assim como Ariadna, separou essa moça da família que não aceita "o homem ter virado mulher".
As piadas sobre a condição sexual da Ariadna não param (a intolerância é a mesma com a participante fora dos padrões de beleza da Playboy que, mesmo assim, se sente gostosíssima). Acredito que muitos falam estupidez a respeito sem nem mesmo perceber o grau de pateticidade. Não estou dizendo que a realidade dos transexuais deva nos parecer simples e aceitável e nem que devamos encarar com naturalidade. Seria hipocrisia porque é diferente. É difícil até compreender como um homem pode se sentir mulher e vice versa. Mas já imaginou o quanto devem sofrer essas pessoas? Não entendo o transexualismo como uma questão de opção. Você simplesmente nasce com o sexo diferente da sexualidade. Ariadna não é gay. É uma mulher que nasceu com aparência masculina.
O mais curioso de todo esse início do BBB11 é o primeiro paredão. Três negros. Um deles é gay e outro transexual. Pode até ser que os escolhidos não tenham nada a ver com o fato de serem negros ou minoria na casa. Mas chama atenção. Não tive como não assumir a possibilidade da discriminação e do preconceito terem sido cruciais na formação desse paredão. Principalmente porque pessoas próximas a mim têm gritado que não toleram Ariadna. É interessante conhecer para fazer um juízo a respeito das coisas. Assim a gente desconstrói preconceitos.
Não sou politicamente correta e nem desprovida de preconceitos. Sei que meu esforço é insuficiente para desconstruir conceitos pré-concebidos. Que os religiosos entendam que o transexualismo não é coisa de Deus, que os machistas digam que o transexualismo é coisa de gay, que todos tenham uma opinião a respeito. Mas a manifestação de pensamento não deve ser agressiva e nem ofender. Cada um tem o direito de ter opiniões, mas que tenha o dever de conhecer para depois se manifestar a respeito.
A verdade é que só quando a gente é discriminado é capaz de refletir melhor sobre atos preconceituosos. Sou nortista e senti isso ao me chamarem de "baiana", em São Paulo, e "paraíba", no Rio de Janeiro. Nada contra baianos e paraibanos, mas contra aqueles que fazem desses adjetivos ofensas. Todos apodreceremos e federemos da mesma maneira depois de mortos. Eu realmente não acredito que haja alguma diferença genética importante que qualifique esse ou aquele fenótipo como o melhor, ou mesmo a cidade de origem (babaquice!). Tudo é uma questão cultural, no meu entendimento. Não sei como o público usará o seu poder de escolha ao apontar o dedo na cara do primeiro rejeitado do BBB11, mas assumo a possibilidade da negra heterossexual ser colocada pra fora. Entre os três emparedados ela acaba sendo "A" diferente.