quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O ponto final.

Janeiro chegou com os cacetes. Foi um mês de perdas. Na primeira semana, enterrei a tia madrinha querida que me batizou e me deu o nome que eu carrego. Um alívio ao me livrar do prenome "Caulim", uma viagem da minha mãe que vivia uma wibe flower power e quis homenagear a natureza. Duas semanas depois, enterro a minha editora querida que me recebeu gentilmente no meu primeiro emprego de jornalista. Escrota, exigente, brincalhona e tão amável. Eu parava tudo quando ela tava no telefone com os filhos. Não conseguia não prestar atenção nas esculhambações e palavras carinhosas e preocupadas que ela trocava com os pequerruxos. Me ensinou boa parte do que eu sei sobre o texto jornalístico e acreditava no meu sucesso profissional. Foi uma das maiores incentivadoras da minha partida de Belém (que ocorrerá em breve, se Deus assim permitir).

O curioso é que o velório das duas foi no mesmo lugar. Na capela da Igreja dos Capuchinhos. Mesmo lugar que velou o corpo da senhora morta no desabamento do prédio, ocorrido no último sábado. Nessa mesma capela estive duas vezes em menos de um mês. Nas duas situações testemunhei a tristeza de filhos apegados que se despediram de sua mãe (como caminhar daqui pra frente, meu Deus?). Os filhos da Karime ficaram o tempo inteiro próximos ao caixão. Postura que denuncia um inconformismo com a morte que levou a mãezinha deles tão depressa. Meu primo-irmão também sofreu demais quando constatou que a mãe dava, literalmente, os últimos suspiros, perdendo a briga contra o câncer, na cama de um hospital daqui.

Por que a gente perde? Acho que o sentido da morte é dar um tapa na cara dos que estão vivos. Um jeito da vida dizer "acordem, seus desgraçados. Sejam melhor com os outros e com vocês mesmos. Não se rendam ao medo e à preguiça. Sejam mais gentis com seus irmãos". Quando tem um corpo no caixão rodeado por quatro velas, as coroas de flores e rosas chegam. Parentes e amigos choram. Um ritual comum à nossa cultura. Tudo bem. Mas o melhor mesmo é dar atenção e flores àquele corpo quando ainda em vida. Melhor viver, rir, chorar e fazer bundinha (no caso dos casais) quando ainda estamos juntos. Tudo passa e tudo sempre passará, né Lulu?

A vóvis sempre cantou no meu ouvido um ditado: é preciso perder para dar valor. Naturalmente eu não entendi nada até sentir isso e desde então minha ansiedade e o medo de perder me fazem viver intensamento tudo o que me acontece. As sensações são tudo o que me interessa. Sensação do beijo, do abraço, do desejo - de saciar o desejo -, da saudade matada, do frio na barriga, do cheiro no pescoço, do carinho, de tudo o que envolve não estar sozinho. Depois que morre, já era, né? Depois que acaba, também. O fim às vezes chega a ser tão duro quanto à morte. Especialmente para os que provocaram isso e para aqueles que não aproveitaram a eternidade enquanto durou. A gente perde pedaços e depois remenda o coração. Aqueles cujos pais se separam enquanto somos criança, sabem o que eu quero dizer. Uma dor inexplicável e tão pesada para corações pequenos. Mesmo sentindo pancadas ao longo do tempo, a porrada não diminui de intensidade. A gente é que suporta .