quinta-feira, novembro 10, 2011

O imperativo categórico padilhiano

Dias morosos como o de hoje nos quais eu me sinto demasiadamente cansada. A vida é doce, já disseram. Com o percentual cada vez maior de horas ocupadas em um dia, passa o tempo e eu tenho mais certeza que só dá pra trabalhar ou estudar aquilo pelo qual você daria a sua vida. De fato damos nossa vida a cada uma das 24 horas consumidas em uma quinta, quarta, terça-feira. Por isso me recuso a estar atrás de uma mesa despachando papéis e nada mais.

"Eu quero agora te vender uma ideia", me disse Dona Padilha de uma forma nem tão sutil e direta, mas, em suma, foi isso o que ela quis dizer. Entendi seu recado numa manhã de sábado há mais ou menos cinco semanas. Cansada depois das tradicionais 40 horas de trabalho, acordo cedo num sábado ensolarado decidida a comprar minha árvore de natal a ser decorada com adornos roxos e dourados (acabou ganhando tons de lilás, mas não violei a ideia original).

Sacudindo a saia com um andar ansioso a curtos passos que percorreram os econômicos metros quadrados do meu quarto, me olhando com aquele olhar atiçador ela ordenou "vá pra rua!". O dia estava mesmo com uma energia especial e uma paisagem convidativa. O problema, ou não, de sair em companhia de Dona Padilha é que os dias tendem a ser agitados e assim foi.

Dona Padilha é uma pombagira que conheci no Rio de Janeiro há três anos. Hoje, especulo que ela sempre andou na minha ilharga, mas só nos apresentamos naquele ano. De formação católica com primeira comunhão e crisma no meu lattes, não compreendo a organização social da umbanda. Aliás nunca acreditei em incorporações de espíritos que curtem uma cachaça, um fumo e um tambor até eles atropelarem meios de caminhos meus para uma boa ou má conversa. Nem sei ao certo se Dona Padilha concorda com as classificações que lhe foram atribuídas.

Conheço algumas de suas representações, mas nunca a vi pessoalmente. Do jeito que ela é, imagino que seja uma mulher muito sensual. É sagaz e tem um cinismo impressionante. Dona Padilha tem palavra e quando ela diz, está dito. O mais admirável, entretanto, é a sua impressionante capacidade de passar batom! Já presenciei a destreza de colorir com batom vermelho lábios não seus de forma cirúrgica, sem deixar nenhum borradinho.

Por causa do nosso relacionamento de três anos, já sei quando ela está por perto. O resultado da presença dela é uma energia impressionante. Chegando com tudo, naquele sábado ela me disse "sai!". Assim eu fiz depois de um dia de pernadas atrás do que viria a ser a árvore mais fashion do bairro, desobedecendo todo o meu plano anteriormente arquitetado de montar a árvore, deitar e ler até o sono chegar. A árvore ficou linda, li deitada por horas, mas o chegar da noite trouxe junto uma enorme disposição.

O que Dona Padilha diz, se escreve. Assim prometi uma noite agradável às minhas companhias. Assim tivemos uma noite agradável. Assim encontrei um sorriso, até então eleito por mim o sorriso mais lindo da cidade.