quarta-feira, dezembro 28, 2011

A Índia e suas mulheres

Grávida, a mãe indiana procura uma clínica clandestina para fazer o ultrassom. O exame proibido na Índia é para as mulheres, literalmente, um caso de vida ou morte. No país, parir uma filha é tragédia. Mães que não parem homens são socialmente marginalizadas, a mais sutil das punições que englobam ainda agressões físicas (muitas são queimadas) ou assassinatos.

Ser do sexo feminino é carregar um fardo. É a família da noiva que paga o dote quando a filha se casa. Um valor alto que, para um pai de três ou quatro mulheres, implica investir uma fortuna economizada em uma vida inteira. Dar a luz à uma menina é uma grande tristeza para a maioria dos indianos, um fato que justifica o crescimento do feticídio das nenéns. Um fato que justifica a população predominantemente masculina.

As meninas não têm direito ao estudo. Se tiverem um irmão, devem conviver com a desigualdade de tratamento. Se os irmãos são filhos de família pobre, a menina passa fome para que seu irmão se alimente. Mesmo que case, tenha filhos homens, se ficar viúva, terá que conviver com o abandono até a morte. É proibida de casar novamente. Traços de uma cultura registrados pelo jornalista fotográfico Walter Astrada nesse documentário.

Pensar a respeito da posição que apresenta a mulher na sociedade indiana nos leva a identificar imediatamente violação de direitos do homem. Do ponto de vista jurídico, tempos que considerar que tais normas são baseadas nos valores de sociedades ocidentais capitalistas, embora o direito à vida e à integridade física nos soem como algo inerente ao homem. Mas na cultura indiana não é, pelo menos para as mulheres.

É nesse momento que me dá um nó na cabeça. Tentemos nos desprender do que entendemos por certo e errado, conceitos que dependem totalmente da nossa cultura. A desvalorização da mulher indiana é um traço cultural deles. Teriam, os países ocidentais, o direito de intervir punindo aqueles que violam os direitos dessas mulheres e assim violar os costumes e normas daquela cultura? Entendo que não. Isso seria exercer uma espécie de imperialismo, a partir de atitudes etnocêntricas.

Por outro lado, acredito no direito que temos de interceder por essas mulheres dando-lhes a chance de poder construir uma vida. Uma chance que lhes é tirada pelo fato de serem geneticamente XX e não XY, como são os homens. Essa chance já é dada a essas mulheres a partir de trabalhos assistencialistas desenvolvidos por entidades não governamentais, por exemplo.

A grande ironia dessa sociedade cujos homens repudiam mlheres é que elas são essenciais pra perpetuação da espécie. Outra ironia tremenda é os homens serem os responsáveis pelo nascimento dessas mulheres.

No processo da reprodução, a mulher sempre fornecerá o cromossomo X. Já o homem é quem determinará o sexo do feto. Fornecendo o cromossomo Y, nascem meninos, e se o X, meninas. Será que eles sabem disso? Será que aceitariam essa informação?

O documentário me causou estranhamento e perplexidade, tendo em vista que se trata de uma cultura com valores totalmente diferentes da qual me educou. Enquanto observadora do modo de funcionar da sociedade indiana, só me restou um questionamento: o que pensa a maioria das indianas a esse respeito.

Nos condenamos esse costume. Elas condenam também?

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Pra ti, minha mensagem de Jingle Bell

Coroa de flores. Não existe símbolo que me cause maior calafrio e a coroa de flores me provoca esse frio na espinha porque sei que alguém perdeu pra sempre um pedaço.

Odeio filmes com cachorros.

Entretanto, diante de pessoas cujas opiniões considero muito, que relataram se emocionar com "Marley e Eu", me permiti a experiência.

"Marley e Eu" não é um filme sobre cachorro. Dei o play e procurei me livrar de todo meu preconceito pra absorver a mensagem da história. Não chorei hectalitros no final, mas lágrimas escorreram e não por causa da morte do cachorro no final (ah, por favor! Qualquer um que se propõe assistir um filme com cachorro assume a possiblidade dele morrer no final! Eu assumi.). Esquece a morte, o filme emociona porque fala sobre viver.

Construir uma família, arrumar um bom emprego... Clichês que fazem parte de estar vivo. Segundo minhas observsações e vivências, boa parte das pessoas tem filhos e investe na carreira porque "é assim que deve ser". Aí depois de casar e arrumar um emprego, reclama no Twitter do excesso de trabalho, das pautas, de ir pra audiência e saber que ela não acontecerá, do trabalho que dão os alunos em sala de aula. Ou se queixa na mesa do bar sobre a mulher que envelheceu e as balizas que tem que fazer pra usufruir de carne fresca.

Gente que faz tudo errado.

Uma música me chamou atenção na trilha sonora do filme. O Verve cantando "Lucky Man" enquanto o Owen Wilson solta a coleira do Marley e o deixa correr com sede e se jogar na água do mar naquele dia ensolarado na praia. O prazer do cachorro e o olhar do seu dono denunciam o quanto a vida que têm lhes é demasiadamente agradável.

Liberdade.

"Marley e Eu" fala sobre a construção de uma vida "feliz", como dizem. "A vida é onde estamos", diz Jennifer Aniston em resposta à decisão do marido em recusar a entrevista de um emprego melhor, que os faria mudar da cidade onde tiveram os três filhos, onde compraram a casa com piscina e foram felizes nas manhãs de sol. Medo de arriscar e perder a felicidade.

Mudaram e continuaram felizes. Quantas pessoas o fazem sentir especial e raro? Quantas pessoas o fazem sentir extraordinário? Sempre contadas nos dedos, mas o que importou pra família do Marley foi que todas essas pessoas moravam sob o mesmo teto e sabiam que eram reciprocamente extraordinárias. Inclusive o chachorro.

Morrer também faz parte de estar vivo. Ninguém está preparado pra ser pai, ninguém tá preparado pra ser mãe, nem pra ser esposa, nem pra ser marido, muito menos está preparado pra perder um pedaço e seguir em frente.

Por esse motivo me arrepio toda vez que me deparo com uma coroa de flores. Toda poesia da flor sucumbe quando a finalidade dela é te dizer que um pedaço teu foi embora pra sempre.

"Marley e Eu" não é um filme sobre Natal, mas muito propício pra essa época. Época na qual os filhos voltam pra casa em busca de braços que sentem por eles um amor incondicional. Em busca de abraços que dizem quanto eles são extraordinários e raros.

Não entremos no mérito de discutir o que é felicidade. Mas quando um olhar e o sorriso de alguém transmite serenidade e paz, ali tem felicidade.

O Natal tem felicidade porque reúne pessoas extraordinárias, embora algumas delas nem se apercebam do significado de estar vivo e poder confraternizar. Muitas reconhecem o valor desses momentos depois do ponto final que é a coroa de flores.

Não desejarei que vocês tenham um Feliz Natal, mas que possam fazer desse um momento muito feliz.



 

 





segunda-feira, dezembro 19, 2011

Os bolhas

O capitalismo educou muito bem seus filhos a saciar desejos usando como instrumento de troca um papel com valor financeiro. Ter dinheiro é necessário, especialmente quando o anseio vale boas cifras. Facilitam o gozo um cheque pré-datado, o crediário e o arriscado cartão de crédico. Como uma droga, o poder de compra (ou a falsa sensação desse poder) traz o prazer quase imediato de percorrer mais rápido o caminho que existe entre homens e seus objetos de desejo.

Mas e quando esse desejo diz respeito a algo substancial?

Paz de espírito, sossego. O respeito dos filhos, o respeito dos colegas de trabalho, o respeito dos seus pais e irmãos. O respeito de seu marido. O respeito de sua esposa. Idoneidade. Uma mente psicologicamente saudável. Amigos de verdade.

Engordando o débito do final de cada mês, pessoas tentam aliviar os pesares dessas ausências já que não podem quitá-las com os algarismos de sua conta corrente. Para quem tem pouco ou quase nenhum dinheiro, ameniza o pesar a página do Facebook ou o prefil do Twitter que simula a vida que se gostaria de ter.

O que não compreendo é porque alguns insistem em apostar nessa roleta russa.

Há quem use a comida e o sexo pra simular a sensação de bem estar também. Há quem também desconte nos cosméticos, tratamentos estéticos e salões de beleza. Mas se tirarmos de nós os quitutes, a grana, a água e a luz, nos resta o equilíbrio psicológico e os aprendizados impressos no repertório cultural. Como um recém-nascido, somos quase nada sem essa bolha chamada realidade que construimos com tanto esmero.

Uma bolha com valores agregados a sobrenomes, a áreas vips, a locais de trabalho, a condomínios residenciais, a bairros. Patético, não? 

José Saramago foi feliz quando mostrou em "Ensaio sobre a cegueira" o quanto dissimulamos nosso mau cheiro, nossas mediocridades, nossa impotência. Feliz também foi Freud ao nos mostrar que recalcamos informações com as quais não sabemos lidar. Na prática, fazemos ambos nos concentrando nos bons carros, nas boas roupas, nas boas comidas, nos lugares bem frequentados, nas fotografias photoshopadas.

Do ponto de vista platônico, somos nosso mundo de ideias. Do ponto de vista machadiano, somos pura hipocria. Do ponto de vista nietzschiano somos nossas próprias ilusões.

E ainda tem gente que se considera um suprassumo por causa do nome que carrega, por causa do poder político que possui. Pura mediocridade.

Como ouvi um dia desses, você ser babaca no século XIX e ser babaca no século XXI não faz a menor diferença.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Quem sou eu e porque escolhi jornalismo como profissão



Cobrindo o show do Iron Maiden, fui rock star. Entrevistando Sérgio Dias, me
senti um Mutante. Batendo papo com o Fundo de Quintal, vivenciei os
primórdios do Cacique de Ramos, no Rio de Janeiro. Acompanhando enchentes,
senti a dor de um desabrigado.

Acordar e não ter a mínima ideia do que nos espera em um dia de trabalho.
Sempre foi meu emprego dos sonhos. Encontrei esse ofício trabalhando como
repórter e descobri que o jornalismo reúne dois motivos que mantém em mim a
vontade de viver cada dia: conhecer pessoas e contar histórias. Ambos fazem
valer a pena cada respiração, cada batimento cardíaco.

Preocupada com o "futuro", me ocupo com a escolha profissional desde os onze
anos. Planejei o curso de inglês, os inúmeros testes vocacionais e a
faculdade. Depois de cursar Design, Letras e Direito - o único curso até
então concluído - me flagrei apaixonada por jornalismo e cultura. Aos 23
anos comecei do zero, fiz vestibular, arrumei dois estágios e fui feliz
durante os quatro anos da graduação.

Antes disso me ocupei com minha banda autoral e com meu grupo de teatro
independente. Tentando fazer da vida algo mais atraente e aliviando a dura
rotina do contato com as leis. Estudei alemão e desisti de aprender a
língua. Me apaixonei por francês e me alfabetizei na língua. Eu e a minha
necessidade de comunicar. Ainda me lembro dos meus seis anos quando
entrevistava a família com o microfone da Xuxa. Ou gravava offs e sonoras no
Meu Primeiro Gradiente quando brincava de radialista.

O micofone me fascinou. Lembro de ficar hipinotizada a cada encontro visual
com aquele objeto cilíndrico cujo pom-pom mudava de cor frequentemente nos
programas de auditório da década de 1980. Com mais idade, descobri que, mais
do que um objeto visualmente atraente, o microfone era uma ferramenta de
projeção.  Curiosamente descobri esse potencial com as várias entrevistas
que dei na infância e adolescência. Minha habilidade em me expressar chamou
atenção dos repórteres, hoje meus colegas de profissão.

Viciada em manifestar minha opinião, sempre fiz questão de mostrar o que
penso. Também sempre fiz questão de saber o que pensam os demais.
Encontrando nas manifestações artísticas uma forma de comunicar, me
apaixonei por escrever sobre cultura e comportamento. O que me levou a fazer
atualmente a especialização em jornalismo cultural e multimídia em São
Paulo, onde moro há dois meses.

O ser humano me fascina. Descobrir um pouco desse ser racional e criativo a
partir de cada entrevistado virou um elixir. A cada resposta ao
questionamento do repórter, eles revelam um código linguístico que vai além
do que a pauta quer saber. São aspas e sonoras que revelam quem é aquele ser
humano, o que viveu e aprendeu e as boas histórias que tem para contar.

Falar sobre ele e suas vivências em textos jornalísticos virou uma razão
para estar vivo. É escrever o lide, é apertar o rec e as letras constituem
um conteúdo que proporciona vivências e sensações. A possibilidade de se
sentir um pouco aquele personagem, de se sentir parte daquela vida que não
nos pertence.
Depois de passar por quatro graduações, continuo não sabendo "o que quero da
vida" porque minha gula por novas experiências persiste. Por isso busco
sempre mais. Aliás, descobri um dia desses que isso é que é viver. Aos meus
27 anos recém completados descubro que viver é vivenciar cada dia.

O jornalismo me proporcionou acompanhar vivências de várias pessoas. Pedaços
de realidades que existem nesse mundo. Pedaços de realidades que chamamos
notícias. São histórias boas para serem contadas por serem interessantes,
atraentes, socialmente relevantes, peculiares. Histórias que muita gente
gosta de ouvir porque satisfazem a curiosidade, a necessidade por
informação.

Curiosa, quero descobrir essas histórias. Faladeira, quero contá-las também.
Sendo um ser humano interessado por boas narrativas e apreciador da espécie
humana, não poderia me atrair por outra profissão. Me cansando fisicamente e
intelectualmente trabalhando como jornalista, descobri que minhas energias
consumidas na redação fazem de mim uma pessoa muito feliz e insaciável.

quinta-feira, dezembro 08, 2011

exclusivo. não necessariamente sensacional.

Inofensivo seria se não tivesse efeito prejudicial. Indícios que comunicam a falsa impressão da ausência de periculosidade porque é fofinho demais.

Óculos de grau e vestido florido - estampa Liberty -, especificamente, jamais poderiam anunciar maus presságios. Por outro lado, a aparência desleixada, o uniforme de presidiária e a lista de crimes na sentença só poderiam evidenciar que aquelas jamais seriam boas mães.

Errado.



Ler alguém a partir de sua aparência se torna cada vez mais difícil. Que o digam os psicopatas. Diante da possibilidade do imprevisível, paranoicos somos quando assumimos a possibilidade do risco do dano em qualquer um. Despreocupados somos quando entendemos que pode ser dono de um bom coração mesmo o ser humano com a aparência mais desagradável.

Quasímodo.


Conhecer ainda nos é permitido? 

Tenho minhas dúvidas. Com tantos conceitos pré-concebidos, imersos em tantos receios, tenho minhas dúvidas. Já não nos bastavam nossas projeções e platonismos.

Andando por ruas de cidades ditas “grandes”, o que se percebe é a conversão do individualismo em uma roupa por demais confortável. Vão as possibilidades de experiências interpessoais. Fica a segurança do peito que baterá sozinho, mas sem nenhum risco de outra dor que não seja a de ficar só.

Prazer narcísico de conviver consigo mesmo.

Nem tão prazeroso assim. Há aqueles muitos que não toleram se olhar no espelho. 

Que jeito a não ser carregar o próprio corpo?

Imagem: Banksy