segunda-feira, dezembro 19, 2011

Os bolhas

O capitalismo educou muito bem seus filhos a saciar desejos usando como instrumento de troca um papel com valor financeiro. Ter dinheiro é necessário, especialmente quando o anseio vale boas cifras. Facilitam o gozo um cheque pré-datado, o crediário e o arriscado cartão de crédico. Como uma droga, o poder de compra (ou a falsa sensação desse poder) traz o prazer quase imediato de percorrer mais rápido o caminho que existe entre homens e seus objetos de desejo.

Mas e quando esse desejo diz respeito a algo substancial?

Paz de espírito, sossego. O respeito dos filhos, o respeito dos colegas de trabalho, o respeito dos seus pais e irmãos. O respeito de seu marido. O respeito de sua esposa. Idoneidade. Uma mente psicologicamente saudável. Amigos de verdade.

Engordando o débito do final de cada mês, pessoas tentam aliviar os pesares dessas ausências já que não podem quitá-las com os algarismos de sua conta corrente. Para quem tem pouco ou quase nenhum dinheiro, ameniza o pesar a página do Facebook ou o prefil do Twitter que simula a vida que se gostaria de ter.

O que não compreendo é porque alguns insistem em apostar nessa roleta russa.

Há quem use a comida e o sexo pra simular a sensação de bem estar também. Há quem também desconte nos cosméticos, tratamentos estéticos e salões de beleza. Mas se tirarmos de nós os quitutes, a grana, a água e a luz, nos resta o equilíbrio psicológico e os aprendizados impressos no repertório cultural. Como um recém-nascido, somos quase nada sem essa bolha chamada realidade que construimos com tanto esmero.

Uma bolha com valores agregados a sobrenomes, a áreas vips, a locais de trabalho, a condomínios residenciais, a bairros. Patético, não? 

José Saramago foi feliz quando mostrou em "Ensaio sobre a cegueira" o quanto dissimulamos nosso mau cheiro, nossas mediocridades, nossa impotência. Feliz também foi Freud ao nos mostrar que recalcamos informações com as quais não sabemos lidar. Na prática, fazemos ambos nos concentrando nos bons carros, nas boas roupas, nas boas comidas, nos lugares bem frequentados, nas fotografias photoshopadas.

Do ponto de vista platônico, somos nosso mundo de ideias. Do ponto de vista machadiano, somos pura hipocria. Do ponto de vista nietzschiano somos nossas próprias ilusões.

E ainda tem gente que se considera um suprassumo por causa do nome que carrega, por causa do poder político que possui. Pura mediocridade.

Como ouvi um dia desses, você ser babaca no século XIX e ser babaca no século XXI não faz a menor diferença.