sexta-feira, dezembro 23, 2011

Pra ti, minha mensagem de Jingle Bell

Coroa de flores. Não existe símbolo que me cause maior calafrio e a coroa de flores me provoca esse frio na espinha porque sei que alguém perdeu pra sempre um pedaço.

Odeio filmes com cachorros.

Entretanto, diante de pessoas cujas opiniões considero muito, que relataram se emocionar com "Marley e Eu", me permiti a experiência.

"Marley e Eu" não é um filme sobre cachorro. Dei o play e procurei me livrar de todo meu preconceito pra absorver a mensagem da história. Não chorei hectalitros no final, mas lágrimas escorreram e não por causa da morte do cachorro no final (ah, por favor! Qualquer um que se propõe assistir um filme com cachorro assume a possiblidade dele morrer no final! Eu assumi.). Esquece a morte, o filme emociona porque fala sobre viver.

Construir uma família, arrumar um bom emprego... Clichês que fazem parte de estar vivo. Segundo minhas observsações e vivências, boa parte das pessoas tem filhos e investe na carreira porque "é assim que deve ser". Aí depois de casar e arrumar um emprego, reclama no Twitter do excesso de trabalho, das pautas, de ir pra audiência e saber que ela não acontecerá, do trabalho que dão os alunos em sala de aula. Ou se queixa na mesa do bar sobre a mulher que envelheceu e as balizas que tem que fazer pra usufruir de carne fresca.

Gente que faz tudo errado.

Uma música me chamou atenção na trilha sonora do filme. O Verve cantando "Lucky Man" enquanto o Owen Wilson solta a coleira do Marley e o deixa correr com sede e se jogar na água do mar naquele dia ensolarado na praia. O prazer do cachorro e o olhar do seu dono denunciam o quanto a vida que têm lhes é demasiadamente agradável.

Liberdade.

"Marley e Eu" fala sobre a construção de uma vida "feliz", como dizem. "A vida é onde estamos", diz Jennifer Aniston em resposta à decisão do marido em recusar a entrevista de um emprego melhor, que os faria mudar da cidade onde tiveram os três filhos, onde compraram a casa com piscina e foram felizes nas manhãs de sol. Medo de arriscar e perder a felicidade.

Mudaram e continuaram felizes. Quantas pessoas o fazem sentir especial e raro? Quantas pessoas o fazem sentir extraordinário? Sempre contadas nos dedos, mas o que importou pra família do Marley foi que todas essas pessoas moravam sob o mesmo teto e sabiam que eram reciprocamente extraordinárias. Inclusive o chachorro.

Morrer também faz parte de estar vivo. Ninguém está preparado pra ser pai, ninguém tá preparado pra ser mãe, nem pra ser esposa, nem pra ser marido, muito menos está preparado pra perder um pedaço e seguir em frente.

Por esse motivo me arrepio toda vez que me deparo com uma coroa de flores. Toda poesia da flor sucumbe quando a finalidade dela é te dizer que um pedaço teu foi embora pra sempre.

"Marley e Eu" não é um filme sobre Natal, mas muito propício pra essa época. Época na qual os filhos voltam pra casa em busca de braços que sentem por eles um amor incondicional. Em busca de abraços que dizem quanto eles são extraordinários e raros.

Não entremos no mérito de discutir o que é felicidade. Mas quando um olhar e o sorriso de alguém transmite serenidade e paz, ali tem felicidade.

O Natal tem felicidade porque reúne pessoas extraordinárias, embora algumas delas nem se apercebam do significado de estar vivo e poder confraternizar. Muitas reconhecem o valor desses momentos depois do ponto final que é a coroa de flores.

Não desejarei que vocês tenham um Feliz Natal, mas que possam fazer desse um momento muito feliz.