quinta-feira, agosto 23, 2012

No meio do caminho tinha um conceito

Sempre confiei na sabedoria da vida que nos leva a lugares onde vivenciamos coisas que nos ensinam e nos dão na cara com um tom de "aprende, desgraça!". A minha vida me mostrou que eu precisava de sossego, me arrancou de uma cidade que desgosto e me levou pra outra que se instalou no meu coração quando fui sua habitante ainda menina.

Há mais de uma ano cheguei em São Paulo, logo fui contratada e parei na área de comunicação institucional de uma empresa cujo lema é "bem-estar-bem". Uma filosofia que acredita que uma pessoa bem consigo mesma consegue estar bem com os outros e assim valoriza a qualidade das relações. Somando-se à filosofia do bem-estar-bem, qualidade das relações foi outra informação que muito me chamou atenção.

Já tinha refletido sobre a importância do respeito e cuidado recíprocos, mas nunca sobre a qualidade das relações. De fato, quando uma pessoa provoca na outra sentimentos e sensações desagradáveis, é dado o play no desgaste de uma relação.

Seu Luiz Seabra, fundador da Natura, foi sábio quando pensou em produzir cosméticos com o objetivo de aproximar as pessoas, intensificando trocas de cuidado, amor, carinho e respeito. Nunca tinha olhado um cosmético com esse ponto de vista. Esse conceito agregado aos produtos que uso desde que me entendo por gente de fato intensificam a experiência do cuidar-se, do cuidar do outro.

Enquanto aprendia e internalizava esses conceitos para produzir conteúdo institucional que transmitisse o valor e a cultura da marca, aprendia na prática o quanto é importante valorizar as relações que temos, um nicho de relações construído em muitos anos. Longe de minhas pessoas queridas, percebi o quanto elas são ainda mais importantes do que eu pensava e fiz questão de fazê-las perceber que moram no meu coração, como costumo dizer.

Seu Luiz sabe das coisas. O bem-estar-bem e a saudade acabaram despertanto em mim uma preocupação maior em tratar bem os amados. Com mimos, palavras carinhosas [sem palavras crueis], com conversa, abraço, beijo e demais demonstrações de afeto. Vez ou outra somos cruéis com pessoas queridas, um gesto muito imbecil que só desgasta as relações, acaba com respeito, confiança e causa dores. Desnecessário.

Aquele negócio de amar quem nos ama como as nós mesmos (Freud já explicou - vide "O mal-estar na civilização") é bem isso. Valorizar a qualidade das relações. Simples e genial, Seu Luiz.

sexta-feira, julho 20, 2012

Para as mitocôndrias que fazem antropofagia, um Viva!

Sou extremamente fascinada por pessoas cujas mitocôndrias fazem antropofagia [identifico assim pessoas criativas, singulares, com personalidade, divertidíssimas, engraçadas...]. Gente autêntica! A gente sente o cheiro delas de longe e (pode apostar!) a probabilidade de tu teres com elas uma conversa sensacional é de 90% [destaco aqui que considero a conversa o principal ingrediente do combustível que nos dá energia pra viver].

Assim são meus amigos.

São pessoas que qualifico como as mais sensacionais desse planeta. Nos últimos 27 anos andei colecionando figuras do tipo. Encontrei os achados nos colégios, nas brincadeiras de rua [e de prédio também], nas cidades por onde passei, nos vários endereços onde morei, em viagens, em hostels e até em fila de banheiro. A eles atribuí o selo de amigos.

Esses seres humanos sensacionais, estando distantes ou na tua ilharga, te estenderão uma mão ou o ouvido quando precisares e ficarão felizes quando denunciares alegria. Alguns amigos são mais próximos, com outros tu falas bem esporadicamente, o indício de que entre a gente existe uma amizade é o reencontro que denuncia o afeto recíproco, a alegria de se ver novamente e a sensação de que parece não ter passado tempo nenhum desde a última vez que nos vimos.

Todos essas pessoas somaram em mim algo de bom, sempre a partir de uma conversa, uma gargalhada dividia, um abraço honesto, um compartilhar de boas ideias.

Sou a favor de evidenciar afetos e sentimentos.
Eu me declaro mesmo.

E como a antropologia diz que somos o que lemos, as escolas que frequentamos, as informações que consumimos, a família e amigos que temos... Pessoas, também sou um pedaço de vocês.

Acho vocês o máximo! 


quarta-feira, julho 18, 2012

Aí é que dá vontade de fazer arte

Desconheço sobre as pessoas sérias e quadradas que se contentam com seus ternos engomados, mas aqueles cujo espírito tende nem que seja um pouquinho para o lado artístico, se entregam a qualquer forma de arte que os encante. É um lamber de beiços.

Dançar.

É aquele acorde inicial, a pegada do baixo e do bumbo, o entoar de uma melodia que acaricia... Eis que o coração explode e, como fazer sexo com quem se ama carnalmente, a gente dança. Não sei vocês, mas quando danço, me perco, a multidão some, assim como tudo quanto é ruído. O que se sente são apenas os passos e a música é tudo que se escuta.

Quando os movimentos são resultado de uma fusão da dança com teatro, o espetáculo fica ainda mais sedutor. Um balé de tecidos, texturas e cores. Um lugar onde se perde sem a angústia de quem quer ser encontrado. Dançar é tudo o que interessa.


quarta-feira, julho 04, 2012

A vida e seu preâmbulo


Todas as vezes que converso com um idoso, constato a mesma sentença. Sentença essa que deveria estar no preâmbulo da magna carta da vida, se ela existisse. Toda vez que converso com senhores e senhoras, constato: a vida é o que você faz dela. Logo que cheguei em SP, conheci três ateus que, sentados comigo em uma mesa de bar, tentaram de todos os jeitos me convencer que de que fazer merda com a própria vida é o melhor que algumas pessoas podem fazer. 

Seja por consequência da minha criação positivista que me fez acreditar na existência do mérito próprio - na crença de que tudo o que conseguimos é resultado principalmente de nosso próprio esforço -, acredito que sempre é possível melhorar. Na época, o assunto que levou à discussão foi a minha surpresa diante de tantos moradores de rua em São Paulo. Segundo entendidos, levados às ruas principalmente por causa do alcoolismo. Entregar-se à bebida como fuga do que quer que seja foi o melhor que eles puderam dar de si, segundo os ateus. 

Friso o aspecto religioso porque eles deixaram clara a crença de que tudo o que temos a viver e todas as possibilidades de vivências estão na vida material (para eles, apenas vida). Nesse sentido, pensei, a crença sobre a existência de uma única oportunidade de viver só reforça o meu entendimento de que sempre podemos ser um pouquinho melhores. O esforço é sempre uma possibilidade.

Cotidianamente presencio pessoas se queixando sobre a vida que levam (no meu entendimento, a vida que escolheram). Claro que uns têm mais possibilidades de escolhas do que outros, mas ainda assim acredito que sempre há a possibilidade de escolher. Hoje é muito conveniente atribuir o atestado de coitado àquele que não pôde ter um emprego melhor, chefe melhor, filhos melhores, salário melhor, àquele que virou meliante por ser vítima da exclusão social. 

Sábia é a sentença que diz sermos responsáveis por aquilo que cativamos. Responsabilidade implica escolher assumindo as consequências que uma escolha pode trazer. Quando não se assume possibilidades de consequências, maior é a probabilidade de frustração, maior é a probabilidade da conta da inconsequência ser alta. Muitas vezes impagável.

Mesmo que a escolha seja entre o ruim e o pior, as opções existem. Sempre lembro dos soldados americanos da Easy Company que enfrentaram frio e fome para sobreviver na Segunda Guerra Mundial. Eles caíram de paraquedas (literalmente) em um ambiente hostil e com muitas balas perdidas. Matar ou morrer eram as opções que tiveram. Muitas vezes é assim mesmo. Mas quem está na linha de frente, não pode desistir. 

Acredito na possibilidade de tentar e tentar e tentar. E isso não quer dizer que vamos conseguir. Se não der, não deu. E quem se render à passividade, à preguiça, à morosidade, à má vontade, que aprenda a conviver com suas insatisfações. Afinal, este tem todo o direito de escolher viver vendo a vida passar.

sexta-feira, junho 22, 2012

Em areias chilenas

Desaparecido. Todas as vezes que me deparo com o advérbio indicador de alguém que simplesmente sumiu por motivo desconhecido, penso: acho que não reconheceria a pessoa a partir dessa imagem. Tal pensamento objetivo diante de uma palavra que pressupõe sofrimento e angústia das pessoas que procuram alguém é meu nenhum contato com essa realidade.

Há alguns anos li o relato de um jornalista brasileiro sobre o dia que militares, durante a ditadura, entraram em sua casa e sequestraram seu pai. Depois disso, a presença do pai na vida dele, na época do fato ainda garoto, foi no seu desejo de ouvir o abrir da porta que traria a boa notícia do pai que estaria de volta. Isso nunca aconteceu e o corpo do militante continua desaparecido. 

No Chile, até hoje familiares de militantes contrários ao governo de Pinochet procuram no deserto chileno os corpos de seus entes que desapareceram, com a esperança de sepultarem de vez os cadáveres e porem um ponto final em uma angústia sentida há décadas. Há quem tenha aberto mão da própria vida para se dedicar a escavações diárias no meio de um monte de terra que constituem um cenário melancólico de silêncio e pesar. Há quem tenha encontrado os ossos de seus pares, alguns ainda cobertos com restos de carne conservada pelo sal daquelas areias.

Há alguns anos, conversando com um amigo sobre a ditadura militar, ele dividiu comigo algumas más lembranças do período, dias sofridos de idas e idas de sua mãe a presídios a procura do pai dele. Ele ficou desaparecido por dois anos. Ainda hoje manifesta comportamentos que denunciam a experiência violenta, consequência de horas somadas de tortura.

O único relato familiar mais próximo sobre o regime militar, é a experiência dos meus pais na universidade. Ambos eram ainda muito jovens na época do auge da ditadura e também não se somaram aos militantes. Eles me contam sobre o esforço que fizeram para concluir a graduação. Com o propósito de não agregar pessoas na universidade, evitando uma possível articulação política, o governo federal institui na academia o modelo fragmentado de curso. As disciplinas foram oferecidas separadamente a cada semestre. Concluiria o curso quem somasse o total de cadeiras cursadas exigido. 

O resultado disso foi uma experiência de anos dividindo a sala de aula com pessoas de cursos e idades diferentes, já que, na época, as graduações tinham uma grade inicial em comum, o chamado "básico". Em seguida, o bloco "profissional" oferecia matérias específicas. As aulas de cada bloco eram ministradas em campi diferentes. Até hoje esses campi são assim chamados. O batismo militar virou referencial geográfico.

Enquanto isso, no Chile, a herança deixada para vários parentes de vítimas de Pinochet foi o silêncio. Um não saber sobre o que decerto houve com seus familiares e amigos.  

quinta-feira, junho 21, 2012

O peso do casaco

Tanto pano que é difícil até abraçar. Depois de vinte anos morando em um lugar com clima de assar pão, esqueci os pormenores do inverno que conheci pequerruxa quando morei em SP. Tudo fica mais difícil. Lavar a louça, passar cremes (que ficam geladíssimos!), tirar a roupa para o banho e sentar no vaso sanitário sempre absurdamente gelado para bundas quentinhas, agasalhadas. Protelar o xixi vira a regra.

É curioso como o inverno é propício à introspecção. Ele chegou em SP com dias cinzas e chuvosos, recolhendo os moradores da cidade na individualidade de seus guarda-chuvas. Um isolar-se em casacos e panos grossos em busca do calor, um isolar-se que deixa o coração mais frio.

Diante do desagrado de estar isolada da sociedade, separada dela por inúmeras camadas de pano, a pessoa olha mais para si mesma. Olha para dentro e encarar-se não é um exercício lá muito agradável e prático. Aí ficam mais evidentes as insatisfações profissionais, cotidianas (os problemas da cidade parecem incomodar mais), afetivas (faz falta não ter a metade por perto), um estresse que faz do banho quente a coisa mais desejada depois de um dia inteiro de trabalho. Um banho quente, seguido de uma cama quentinha para poder encontrar no sono e nas cobertas um lugar mais confortável de se estar. O tempo na metrópole é corrido, mas prefere-se dormir a viver.  

Os casais que têm em seus pares um meio de se esquentar nas noites frias, recolhem-se em seus ninhos. Quem não tem um par, tenta se esquentar sozinho. Uma sensação desagradável quando os panos não são quentes o suficiente e não há outro meio de esquentar-se que não seja um lugar não-frio.

Conheço paulistanos que não gostam do inverno. Embora tenham crescido em dias gelados de junho e julho, quando a temperatura baixa, recolhem-se em suas tocas como se fossem ursos que hibernam e esquecem da vida por várias semanas. Saem de casa para trabalhar porque não tem outro jeito. Contratam serviço de TV a cabo, alugam filmes, compram gostosuras para comer no quentinho de suas cobertas e esquecem da sociedade.

Hoje compreendo a euforia da chegada do verão e do quentinho do sol. Acostumada a usar pouco pano, nunca tinha percebido que tecidos leves e coloridos nos dão uma sensação de liberdade, de libertação porque, enfim, podemos nos movimentar melhor. Podemos abraçar melhor. Soma-se a isso a possibilidade de sentir a areia com os pés, de tomar banho de mar e rio, de usufruir da cidade sem precisar carregar casacos pesados.

 

quarta-feira, junho 20, 2012

Marx, Freud, Darwin e as etiquetas


"Você vai emagrecer sem sair do sofá." O aparente bom presságio recheia a matéria publicada na Revista Galileu no mês de Abril. A notícia é sobre uma pesquisa realizada por cientistas da Harvard que estudam a técnica que converterá gordura branca - aquela que só aumenta os pneuzinhos e não tem utilidade -, em gordura marrom - aquela que o organismo utiliza para, entre outras funções, aquecer o corpo humano no frio e queimar calorias durante o procedimento. Uma vez domado o mecanismo da natureza, a biomimética tornará possível a existência da pílula que permite emagrecer sem esforço, pondo no chão a premissa dos nutrólogos e professores de educação física de que não há outra receita para emagrecer senão
adotar uma dieta saudável e fazer exercícios físicos. A felicidade de emagrecer a um gole d´água.

Há quem justifique o empenho científico como altruísmo dos pesquisadores, um dar a
mãozinha àqueles que precisam perder peso por motivos de saúde, no caso dos obesos, por exemplo. Considerando os traços culturais de países ocidentais capitalistas, cujas revistas estampam em suas capas corpos esbeltos, abaixo do peso ou decorados com músculos, especula-se que o investimento em tal pesquisa é motivado pela fortuna que toparão pagar pelo medicamento aqueles que desejam vestir manequim 36 sem gastar uma só gota de suor.

Na ditadura da barriga tanquinho e da bunda sem celulite, boa parte dos seres humanos que habitam o lado ocidental do planeta no século XXI reproduz comportamentos e adota conceitos aparentemente sem questioná-los. Karl Marx observando uma sociedade de dois séculos antes, constatou que o ser humano é resultado de um processo histórico e do meio em que vive, ou seja, resultado de sua cultura.

Considerando que não é a consciência que determina o ser e sim o ser social que determina a consciência, Marx entendeu que as ações definem quem determinado ser humano é. Entre essas ações, o que ele consome. Prevendo a invenção da pílula do emagrecimento sem esforço, é claro perceber que seu consumidor não desejará as drágeas pela composição química que transforma gordura branca em gordura marrom. O fetiche está na magreza, no poder de compra de um corpo que pode desfilar com pouquíssimo pano sem o risco de ser censurado, ao contrário, será desejado.

Atrás do prazer narcísico de se sentir atraente e da aparente sensação de bem estar, muitos homens do século XXI topam pagar qualquer coisa para conseguir em tempo real a satisfação do anseio. Embora as sentenças de Marx tenham sido cantadas para a era Moderna, caem como uma luva para explicar muitos traços culturais da hipermodernidade, como qualificam a atualidade alguns teóricos da comunicação.

O cenário pinta um Homem que brinca de Deus - ou seria um homem que finalmente assume suas próprias funções anteriormente atribuídas a um ser divino que ele mesmo inventou? Marx explicaria. Como escancarou Darwin, a natureza é comandada pela lei dos mais aptos a sobreviver em determinado ambiente. A seleção natural que perpetua a espécie daqueles que conseguem sobreviver. Na hipermodernidade, sobrevive melhor quem se adequa aos padrões, ou quem no fundo não supervaloriza normas e padrões, respeita algumas regras, viola outras, mas no fundo, não dá a mínima para o entendimento da maioria, tem seus próprios conceitos e elaborações. Freud explica.

Seja brincando de Deus ou de top model, o homem procura satisfação, o prazer, ou a tal felicidade. A era hipermoderna, das hiperpossibilidades e hiperescolhas proporciona inúmeras opções para alcançar o sorriso em tempo real. Para ontem. Como a satisfação imediata de ficar linda em um biquíni, sem ter que sair do sofá para ficar esbelta. Mas como sentenciou Freud no livro “O mal-estar da civilização”, "aquilo que chamamos ´felicidade´ no sentido mais estrito, vem da satisfação repentina de necessidades altamente represadas, e por sua natureza é possível apenas como fenômeno episódico".

Comparando o entendimento de Freud e os produtos que vendem a felicidade imediata, identificamos o seguinte: Freud sentencia que a felicidade é pontual. Os produtos vendem a felicidade em tempo real. Considerando que a cultura hipermoderna obriga o ser humano a excluir a tristeza de seu cotidiano, é condenável quem pensa que a tristeza deve ser sentida ao invés de reprimida. Considerando os padrões estéticos do corpo humano na atualidade, é condenável assumir celulites e barrigas de chope, mesmo que se conviva bem com ambas.

Educando a buscar o prazer onde só se encontrará satisfações imediatas e aceitações, determinadas normas culturais hipermodernas multiplicam o público consumidor da felicidade instantânea. Ressalta-se que a crítica ao referido padrão de consumo não tem relação com a preferência por determinado prazer, mas ao impulso que motiva o consumo inconsciente porque não é um consumo em conformidade com o saber do ser humano sobre si mesmo, no sentido de que as pessoas têm consumido coisas que não sabem certamente se realmente gostam de consumí-las, pois muitas vezes esse consumo é influenciado.

A pesquisa de Harvard escancara que na hipermodernidade, onde quase tudo pode ser adquirido a partir do dinheiro, o ser humano é o que pode consumir. Como ditou Marx ainda no século XIX, cada pessoa é o próprio produto que consome, cada pessoa é as etiquetas que carrega.

quarta-feira, junho 13, 2012

Prece pro santinho

Santo Antônio, faça as moças felizes, arranje para elas bons rapazes porque é muito bode, muito xororô de quem não sabe se divertir sozinho. E quando perdem o amor, o sentido da vida se esvai. Então, Santo Antônio, alegre esses coraçõezinhos.

segunda-feira, junho 11, 2012

noves fora

Passando a língua nos beiços, recolhendo o resto de conhaque, ela sentia o prazer do vento frio. Escolheu sair de casa com os pés desnudos para apreciar o gelado já que o quente ela conhece muito bem. Noite de domingo, ela atravessa a avenida atraída por uma movimentação que ocorria do lado oposto da rua. Dois rapazes magros, de longos cabelos ondulados, lembravam os sucessos de Michael Jackson reproduzindo fielmente suas coreografias. Como toda noite de domingo em frente àquele shopping, a plateia apreciava atenciosa.

Recolhida próximo a um dos cinzeiros semelhantes a pequenos postes, ela desfrutou de um cigarro. Soprando sensualmente cada baforada de fumaça, como se tocasse com os lábios algo mais atraente do que aquela pequena dose de poluição. Sentiu um "barato". "Que drink de chocolate mais foda." Pensou sentindo o doce do conhaque na língua, delicioso rastro com vestígio de canela. "Acertei, acertei de novo." Confirmava satisfeita a opção certa de ter escolhido diferente, embora muitos tivessem previsto doses cavalares de sofrimento naquela nova estrada.

"'Cause this is thriller...Thriller night..." Batendo as cinzas do cigarro, sentiu um fiapo. "Merda." Lembrou que não fez as unhas. "Toda mulher independente faz as unhas sozinhas, em casa. De quebra, economiza mais de mil reais por ano. Uma troca honesta de esmaltes por passagens aéreas."

Nomadismo. Decidiu não criar raízes, acumular milhas e conhecer pessoas. As conheceu. Encontrou uns achados e anda colecionando histórias cujos detalhes são atenciosamente compartilhados com quem interessa. Passou a ser mais criteriosa na escolha daqueles que compõem sua teia de relações. Todos os babacas foram banidos, claro. Em substituição a eles, uma preferência por mentes pensantes e sofisticação. Pessoas mais velhas e amadurecidas.Também descobriu o charme do batom rosa cor de boca.


segunda-feira, junho 04, 2012

Futebol, frangos e farofas.

Uma pilha de louças para lavar. Enfrentando mais um dia rotineiro do trabalho remunerado por alguns trocados de bolivianos, aproximados R$ 200, a senhora boliviana mãe de cinco filhos ouviu de uma moça a tentadora proposta de trabalho: migrar ilegalmente para o Brasil, trabalhar como empregada doméstica e receber o triplo do salário.

Pronunciou um "sim", arrumou mala e cuia e deixou pra trás um país pobre, com baixos salários e altíssimo índice de pobreza. Foi chegar no seu novo logradouro brasileiro, olhar pra trás e ver a nova patroa trancar sem dó a porta com cadeado. Ficaria encarcerada nos próximos dois meses, trabalhando mais de noventa horas por semana com o própósito de quitar a divída das passagens aéreas e despesas provenientes da imigração. Uma espécie de sistema de aviamento do século XXI. Virou escrava como inúmeros bolivianos que migram para o Brasil com o propósito de tornar concretos seus sonhos.

Logo que cheguei em São Paulo, conversando com a mãe de amigos, escutei dela palavras de repúdio a bolivianos que emporcalham parques com suas farofas e frangos. Muitos deles contribuem inclusive para a alta do índice de criminalidade de São Paulo. "Bolivianos?", pensei. "Nunca reparei que em São Paulo tem bolivianos."

De fato é uma população invisível que vive enclausurada durante a semana e tem o domingo como único dia de libertação. Aquelas algumas horas nas quais podem se desconectar da realidade social dura que enfrentam e sentir o prazer do futebol, frangos e farofas.

Especulo sobre o "emporcalhar" de parques como uma consequência da falta de educação. Cidadania e bons modos são constituídos com muitas doses de parágrafos e conversas, não necessariamente na sala de aula. Carentes de informação de qualidade, eles se tornam seres humanos de qualquer jeito. Com formação desqualificada, acabam terminando no subemprego. Isso para aqueles que conseguem recuperar o direito de ir e vir.

Muitos bolivianos têm suas liberdades violadas. São enclausurados e escravizados, obrigados a trabalhar durante mais de 70% do dia, mão de obra principalmente dedicada a costurar e tecer. Uma população invisível aos olhos de quem mora em São Paulo.

Sobrevivem em situações adversas como a senhora imigrante que teve que morar com os cinco filhos em uma casa de dois quartos e um banheiro, apertadamente divididos entre vinte pessoas. "Quando um ficava doente, todos adoecíamos", lembra ela. "Eu tinha que fazer almoço para vinte pessoas. Muito arroz e um pequeno pedaço de carne que tinha que ser repartido entre todos. A comida era muito ruim."

Entre paulistanos e bolivianos, a relação é de uma intolerância recíproca. Os brasileiros se desagradam com a presença estrangeira que leva lixo aos parques e violência às ruas. Os estrangeiros se magoam com brasileiros que causam a eles sofrimento e destruição de sonhos. Compreensível o repúdio.

A mão de obra ilegal sustenta a indústria de indumentárias. Roupas comercializadas principalmente no Brás - centro de lojas populares em São Paulo - a preços baixíssimos. Por enquanto, quem socorre os bolivianos vítimas da escravidão e maus tratos são organizações não-governamentais. Uma mobilização da sociedade civil que estende as mãos para pessoas que não têm onde se segurar.

O curioso é essa realidade estar nas ruas que frequentamos e a ignorarmos completamente. Gente que sobrevive com o subemprego, gente que sobrevive lavando banheiros, carregando móveis em troca de salários que mal pagam a condução. Gente que ignoramos cotidianamente enquanto nos preocupamos em comprar nossos iPhones, passagens aéreas e peças dos looks do inverno.



 

 

quinta-feira, abril 26, 2012

domingo, abril 22, 2012

Fazendo o "Perfeitinho"

Joana, tenho a te dizer que nessa vida me interessam as pessoas que são elas mesmas e estão pouco preocupadas em seguir um padrão. Elas têm uma identidade própria, sabe? São peculiares, têm suas minúcias que as qualificam. Acho isso tudo tão apaixonante... Esse jeito de ser ainda tem um aspecto que muito me interessa e me chama atenção: essas pessoas não são previsíveis! Acho tão fantástico ser surpreendida, Joana!

Um dia, há nem tanto tempo assim, andava com uns amigos em direção ao metrô, aqui em São Paulo. Começou a chover e nos abrigamos em uma área coberta no Parque Água Branca. Um parque legal, perto de casa, que parece ter sido uma fazenda [acredito que da família Matarazzo, tendo em vista que a rua em frente ao parque leva o sobrenome de berço esplêndido].

Inquieta como sou, peguei logo minha "Super 8" e registrei uma fatia de um feriado tão delicioso. Conversávamos sobre fazer o "Perfeitinho". Saca só:




sábado, abril 21, 2012

Lulyes

A vida faz uma parceria interessante com o tempo. Um não existiria sem o outro. A vida faz o tempo existir e ele faz existir a vida. Porque sem passado também não existe o presente, e por conseguinte, nem futuro.

O tempo e a vida nos dão coisas interessantes. Saram ferida, estampam sorrisos. Boas novas que tranquilizam o coração de qualquer um.

Vida e tempo nos surpreendem. Sou a filha mais velha de um trio de irmãos. Única mulher. Sempre pedi aos meus pais um quarto filho na esperança de nascer menina. Não deu.

Mas tempo e vida me deram de presente quatro irmãs. Primeiro a Ísis, que dividiu comigo a irmã Aída e as duas dividiram comigo as gêmeas, Bela e Amanda, suas amigas de infância. Formamos um quinteto que eu batizei "Lulus". Hoje, carinhosamente, Lulyes.

Somos cinco irmãs, boas irmãs. Daquelas que riem junto e choram também. Dividem cremes, roupas, esmaltes e maquiagem. Dividem angústias, tristezas e pesares, além de sobrinhos lindos, o Uly e o Heitor, nossos nenéns, prole da Ísis.

Há mais ou menos um ano, diante da árdua tarefa de escrever um tcc convivendo com dificuldades em nossas vidas pessoais, Ísis tocou uma música pra acalmar meu coração.

Carregando também no peito o peso das próprias tristezas, ela sentou ao piano. Como que chorando pelos dedos, tocou "Romeu e Julieta". Um momento que fotografei com os ouvidos, olhos e alma. Um momento que ainda hoje me emociona como se aquela cena tivesse se passado há alguns minutos.

Tocando pra mim aquela música, Ísis me colocou no colo e soprou nos meus ouvidos que aquela situação difícil também iria passar... Assim são as Lulyes. Nos damos colos do nosso jeito. De um um jeito que só a gente entende.

Carregamos juntas uma energia que tempera a atmosfera dos lugares por onde passamos. E quando estamos juntas, é só a gente que nos interessa. "Party of five", como diz o meu irmão caçula.

Lulyes,
lembrei de 2008. Muito. Aquele ano foi tão delicioso porque estivemos presentes uma na vida da outra a maior parte do tempo. A vida adulta reduziu esses encontros, mas não a intensidade deles. E vocês bem sabem que é só a gente se ver pra ter a sensação de que não passou foi tempo nenhum.

Amo vocês.  

quarta-feira, abril 04, 2012

desejo de explodir

Afastar-se do chão. Sentir a pressão do vento e, logo em seguida, a ação da força peso. Dias em que o único desejo é voar, mesmo que seja em direção ao chão.

Todo mês é assim. Influências da futura queda de progesterona por causa da não-gravidez. Tensão pré-menstrual. Existe.

É um momento mensal que hormônios femininos se sentem à vontade pra fazer do nosso corpo um playground. Brincam com a gente. Uma instabilidade que não há local ou posição onde encontremos tranquilidade. Um estado no qual estar em qualquer lugar não basta porque o impulso leva ao não-parar.

O impulso leva ao não-falar, ao não-tolerar, ao comer, ao inquietar.

Um incômodo permanente, um não-sossego e dor física. Instabilidade que precede uma explosão. Bomba relógio cai como uma luva.

Desejo de explodir.




segunda-feira, abril 02, 2012

Quando a algema é transformada em chip

Crianças monitoradas por chip. Foi essa a alternativa que encontrou a prefeitura de Vitória da Conquista (BA) para reduzir o índice de cabulação de aulas. A ideia é implantar o mecanismo "inovador" em todas as escolas municipais. O mimo custará alguns milhões aos cofres públicos. Uma conta paga pela população, claro.

A notícia veiculada há uma semana no Jornal Nacional veio com tom de boa nova. Me chamou atenção a expressão serena do âncora ao ler a cabeça da matéria. Mais impressionante ainda foi a voz amigável do off da reportagem que, combinada com as sonoras dos entrevistados, veiculou a notícia como um bom presságio.

"Achei muito bom (a implantação do chip no uniforme). Agora não tem jeito, vou ter que meter a cara nos livros", disse um aluno. A mãe de um estudante aprovou o monitoramento que lhe informa por SMS o instante que o filho entra e sai da escola. "Ele leva 20 minutos pra chegar em casa. Quando sei que ele sai da escola, deu 20 minutos e ele não chegou, já fico atenta."

A meu ver, a diferença entre as algemas eletrônicas usadas por presidiários e o chip nos uniformes é nenhuma. Curioso é ver que alunos, pais e a imprensa vejam a novidade como algo positivo, já que reforça a assiduidade no colégio.

Na minha infância, a educação que recebi dos meus pais foi suficiente pra estabelecer em mim e nos meus irmãos senso de responsabilidade. Frequentávamos a escola porque sabíamos que a educação seria fundamental para uma vida adulta com qualidade, na minha visão de mulher adulta (e não moleca), em suma, a educação contribui para um melhor convívio em sociedade e para nosso crescimento enquanto ser humano (ensina muito a respeitar também, aliás, respeito está em falta no nosso cotidiano). Crescer em aspectos subjetivos, além de materiais. Hoje, constato o quanto foi importante aprender (e continuar aprendendo, claro).

Pensando a longo prazo, o que podemos esperar de adultos que foram crianças monitoradas, cuja frequência na escola resultou de uma coação por vigilância? Será que os pais dessas crianças conversam com seus filhos sobre a importância de ir à escola? Acompanham seus deveres de casa? Continuam, em casa, o processo de educação que não se restringe à escola? Ou têm a falsa sensação de que os filhos estão sendo educados só porque o chip os informa que eles estiveram no colégio?

É fato que a comunicação por meios digitais tem substituído o contato tête-à-tête. Agora quais serão suas inúmeras consequências? Por mais imediata que seja a comunicação digital, ainda confio no efeito positivo de uma boa conversa olho no olho, com toque, com afeto, intersubjetiva. Me preocupa a naturalidade e o entusiasmo com o qual setores da sociedade veem a implantação do chip nos uniformes como algo inovador e positivo. A meu ver é retrocesso. É desumanizador.

quinta-feira, março 01, 2012

Gostoso como apreciar o gosto de um brigadeiro

Quando estudamos culturas de sociedades capitalistas, identificamos como um de seus traços o imediatismo, um dos principais frutos da modernidade. Uma característica que explica a junkie food, congelados, esteiras rolantes, metrô... E a impaciência. Aliás, coloco como sub-ítem da impaciência a intolerância. Elas andam grudadinhas, asim, de mãos dadas e quando deitam, ficam de conchinha.

Esse casadinho me fez constatar algo: a opção pelo comodismo, que faz casalzinho com a preguiça. É uma inércia do não se mover. A preguiça existe não só pelo conforto que representa não se mover, como pelo desagrado que representa fazer um movimento, seja ele uma ação ou uma atitude, como por exemplo, decidir.

Despreocupado com a saúde mental, o homem moderno dificilmente reconhece a importância do auto-conhecimento. Muitas vezes o encara como frescura, supérfluo, mas quando descobre que o auto-conhecimento o pouparia de tantos desgastes, tenta correr atrás de si mesmo. Mas quem entra nessa empreitada, sabe que encarar a si mesmo implica muita coragem porque dói.

É exatamente a dor e a impaciência de esperar o passar da tormenta que faz algumas pessoas ficarem inertes na velocidade zero. Romper é desconfortável e incômodo. Por esse motivo, fugimos do resolver dos problemas porque conviver com eles é algo menos desagradável em comparação a vivenciar a dor desse parto, suar e encontrar a serenidade.

Serenidade, aliás, não é uma palavra que eu colocaria no glossário da sociedade capitalista moderna. Serenidade depende de paciência, tolerância. É alcançada a partir de um procedimento homeopático, irritante e indigesto. Estamos acostumados com o "pra ontem". Mais do que isso, fomos educados a não sentir tristeza e obrigados a manifestar uma euforia quase carnavalesca na maior parte do tempo. "Não chora!" "Fica bem!" É o que dizem.

A novidade é que tristeza também faz bem. Faz bem sentir raiva, angústia, ciúme, solidão. São sentimentos que ensinam. Parte integrante da vida, fazem todo o sentido em existir, considerando que a natureza é muito sábia em suas colocações. Como noite e dia, frio e calor, sentimentos antagônicos são necessários uns aos outros. Besta de quem tenta fugir deles.

De acordo com minhas observações, é feliz quem sabe estar triste. E felicidade não tem nada a ver com euforia e excitação. Apenas alguns sentem o seu gosto. Os bravos, diria eu.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Lulus

A água quando se está com sede, o banho quando se tem calor, a manta quando se tem frio. Uns pés pra esfregar os nossos debaixo da coberta, o abraço horizontal da madrugada, o "oi" horizontal do "bom dia". O cheiro do brigadeiro na panela, o cheiro do leite que aquece, o cheiro da polpa hidratante pras mãos, o xampu, o sabonete. O ensaboar.

O pular do parapente, o gritar de excitação, o dançar daquela música. O abraço, o cheiro, o beijo.

O colo das irmãs.


O cafuné da Ísis, o miojo da Aida, a voz rouca da Bela, as viagens da Amanda. Lulus. Lulus com esmaltes espalhados na cama, com o quarto com cheiro de acetona, o banheiro bagunçado de cremes e maquiagens, as conversoterapias entrelaçadas com o melhor setlist do final de semana.

Lulus na Casa das Onze Janelas, Lulus na beira do rio, Lulus causando no trânsito no carro da Didi, Lulus causando nas festas "because we are your friend". Lulus emputecendo namorados porque são divas, Lulus fazendo do metrô o melhor lugar do mundo.

Choro de Lulus, risadas de Lulus, cumplicidade de Lulus.

Saudade de nossas bagunças. [Porque a energia do ar fica sensacional quando a gente tá together.]

Até breve, Lulus.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Filmes exibidos em 2012 para se dar o "play"

O ano virou e a programação dos cinemas paulistanos deu de presente para quem mora na capital um leque amplo de boas narrativas. Dramas, comédias, aventuras e documentários cujas histórias emocionam e cumprem o dever catártico de levar o telespectador para as realidades sobre as quais tratam os longas-metragens. Filmes com temáticas abrangentes que contam desde histórias reais à ficção que sugere o homossexualismo entre crianças. A seguir, a primeira leva das preciosidades que indico a vocês.

OS ANTROPOLOGICAMENTE INTERESSANTES



Para quem gosta de dança, especialmente balé, o "Último dançarino de Mao" é um prato cheio de coreografias belíssimas. O teatro invadiu as salas de cinema com espetáculos protagonizados pelo bailarino chinês que viaja para os Estados Unidos, descoberto por um coreógrafo norte-americano. Além da plástica dos espetáculos de balé que ganham gordos minutos do filme, destaque para o drama que o dançarino enfrenta para ficar na América e consolidar sua carreira. O diretor Bruce Beresford foi feliz em pontuar os contrastes de uma cultura ocidental (China militarista) e outra oriental (EUA, o país livre). Antropologicamente interessante.

Outro filme que trabalha conceitos antropológicos é "A fonte das mulheres". A comédia-drama belga/italiano/francês de Radu Mihaileanu retrata o cotidiano de uma comunidade mulçumana na qual o trabalho braçal culturalmente e historicamente foi atribuído às mulheres. Encarregadas de abastecer a comunidade de água, elas percorrem quilômetros carregando, nos ombros, baldes, desfilando sua feminilidade por morros de pedra no caminho aldeia-lago. Um cenário de exploração que elas tentam mudar fazendo "greve de amor".  Uma história contada com muitas cores, música, dança e hijab.

A narrativa é interessante por fazer analogia à história do filósofo Sócrates e ao Mito da Caverna de Platão. A líder do movimento é a única alfabetizada entre as mulheres. A partir de seu conhecimento adquirdo em livros, ela tenta provar ao líder religioso da comunidade que o Corão prevê a igualdade entre homens e mulheres. Um argumento para pôr fim à exploração.


OS QUE PROVOCAM REFLEXÃO

O cinema francês está arrebentando na qualidade de suas produções e, de cara, joga no peito do telespectador uma narrativa que sugere o na infância. "Tomboy" conta a história de Laura, uma menina interessada em futebol, shorts, cabelo curto, em não só estar entre meninos como se sentir um menino. Como os bons filmes franceses, deixa o público completar o final da narrativa (ou a continuidade sem fim, por que não?).

Muito feliz na forma de contar essa história, a diretora Céline Sciamma construiu a narrativa a partir de brincadeiras infantis, do cotidiano da criança. Cenas concentradas no lúdico que funcionam como uma viagem ao nosso próprio passado (pelo menos eu me senti um pouco dos garotos brincando de guerras de balão de água e tomando banho de rio, como fiz na minha infância). Um filme delicioso com uma trilha sonora de uma música só sensacional.


Baseado em fatos reais, "Compramos um zoológico", de Cameron Crowe fala sobre o recomeço. Enfrentar desafios, dar a volta por cima e construir algo que ficará para um futuro que não viveremos. Um assunto talvez batido em filmes e livros, mas contado a partir de lindas imagens e situações reais com as quais muitos espectadores se identificarão. Uma injeção de energia para quem precisa de um exemplo para seguir em frente.

Outro que incorre na mesma fórmula, "Os descendentes", de Alexander Payne foca mais no momento da chegada da conta da inconsequência para ser paga, qual seja a hora de assumir responsabilidades. Um drama detestado por muitos espectadores, mas que apreciei muito. A história faz todo o sentido para quem já viveu a experiência de sentir a casa cair e ter que reerguê-la. Pontua situações bem reais referentes ao que se vive em um divórcio , ou quando a morte nos leva um ente querido e nos tira um pedaço.


Filmes que precisam ser vistos por serem obras-primas. Narrativas que valem cada segundo.

Nos momentos de silêncio é quando a gente mais se completa

"É nos momentos de silêncio que a gente mais se completa", disse a namorada se referindo ao futuro marido. A certeza da união iminente se justifica pela sintonia recíproca. Tão grande que às vezes o olhar é o bastante pros dois comunicarem "eu te amo".

Amanhã é dia dos namorados em muitos países. Data na qual os casais obrigatoriamente são fofos e românticos embora boa parte deles viva em pé de guerra a maior parte do tempo. Falta respeito, falta comunicação, falta gentileza, falta muita coisa. Mas o presente, não faltará, com certeza.

Com uma frequência superior a tolerável, encontro casais discutindo nas ruas. Presencio trocas agressivas de palavras, quando não, gestos. Algo que me causa constrangimento e lamento por dois seres humanos envolvidos em uma relação que deveria ser mais deliciosa do que outra coisa. Encontrar mulheres chorando penosamente também é algo comum. É claro que quando as vejo com os olhos vermelhos, considero como primeira causa da dor, um homem (ou outra mulher, claro).

Segundo minhas observações, os membros de sociedades capitalistas estão cada vez mais intolerantes ao individualismo e isso não quer dizer que eles estejam mais altruístas e solidários. Muitos ligam o fato de estar só à solidão e se obrigam a estar boa parte do tempo envolvidos em alguma relação à dois que não seja apenas fraternal. Não toleram ir ao cinema sozinhos, jantar sozinhos, passear no parque sozinhos.

Alguns inclusive se sentem envergonhados de se divertir sozinho em público. No meu entendimento, isso só revela uma grande intolerância para consigo mesmo. Dependendo de quem se tem ao lado, estar sozinho é muito mais gostoso. Mas até se descobrir essa possibilidade, nos envolvemos em vários relacionamentos sem sentido e desgastantes. Parte da vida.

Conversando com um amigo sobre casamentos, disparei: "o único motivo que justifica uma união que objetiva o ´pra sempre´ é uma sintonia imensurável. Algo que a gente sabe que é particular da relação entre nós e O outro". Por isso sei que ele casará com a namorada. A gente sente quando um casal se encaixa. É o caso deles.

Quem já viveu algo do tipo, sabe como é. Quando o silêncio é suficiente para nos completarmos é Bingo!

"Mágico" resume bem. Alguns são presenteados com esse tipo de relacionamento, o único que considero válido. Outros se envolvem em relações cuja demonstração de "bem querer" se resume muitas vezes em enfrentar filas no shopping pra garantir mais uma bermuda. Mais uma camiseta.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Uma paixão azulina (um comentário que deixaram por aqui. encontrei e quis compartilhar)

por Henrique


''Nossos corações batem mais forte, gargantas ardem, movimentos fluem em uma dança inexplicável. Somos centenas, milhares,Milhões de pessoas unidas com um só objetivo, torcer. Em cada lançe, uma nova vibração, um novo sentimento. Fazemos as insólitas arquibancadas tremerem, deixamos gotas de suor deslizarem por nossos rostos, e achamos isso prazeroso, tudo por paixão, por amor. Derramamos lágrimas por ti leão, por toda sua grandeza, por toda sua história. A cidade se pinta de azul marinho toda vez que você joga, os gritos saem por impulso de algo maior, algo que nosso corpo não consegue explicar, que a mente não pode compreender. 


As ruas se fecham, param para nos ver passar, admiram a beleza que criamos. Remo, és nossa vida, fazemos o que for possível para ajudá-lo, você nos tem. Somos os mais fánaticos, os melhores do mundo. Perto de nós, todos os outros se omitem, se sentem fracos, ficam oprimidos. És mais que um clube, és nossa Religião. Seguimos seus mandamentos de pés juntos e cumprimos cada uma das regras. Vivemos por ti, vivemos pra ti, tentamos retribuir toda a felicidade que nos traz, apesar disso ser quase impossível, não desistimos. Tivemos momentos de desespero, tudo parecia se perder facilmente, estava se destruindo na nossa frente, todas as tentativas davam errado. Nosso prantoso choro deixa manchas em sua história, nossa tristeza o entristece, só uma coisa poderíamos fazer para conseguir a recuperação desta doença, deste mal. Apoiar. As esperanças que temos nunca acaba. Temos que dar a volta por cima, e daremos! Estamos Participando de um trabalho árduo, que nos levará a emoção de conquistas, históricas conquistas. 


O Edgar Proença e o Evandro almeida explodirão em pura emoção. Gritaremos: "Remo, tu és a minha vida, tu és a minha história, tu és o meu amor". Gritos incessantes, inacabáveis. É lindo nos observar frenéticos saltando, berrando desesperadamente o nome de nosso clube, nosso Deus. É inexplicável. Para muitos somos loucos, somos viúvos de grandes craques. Estes estão errados. O certo é dizer que somos torcedores, verdadeiros torcedores, que não abandonam seu clube. Fazemos a maior festa de nossa região. 


Os locais paralizam, a região inteira nos admira, nos olham pasmos, não creêm no tamanho do nosso amor. Em qualquer que seja a situação, nunca deixamos voçê na mão. Nunca. Vivemos na rua, tornamos qualquer dia em carnaval, um carnaval de cores, de sentimentos, de desejos, de orações, de Amor. Amor incondicional. Hasteamos bandeiras, enfeitamos os carros, seguimos nosso ideal, afinal, somos atletas azulinos que devemos cumprir nosso dever, se um dia formos unidos para a luta, o pavilhão teremos que saber defender. Nós comemoramos, subimos no alambrado, enlouquecemos, piramos. 


Exaltamos nossa felicidade da maneira que achamos melhor. Mostramos o que sentimos pelo Clube do Remo, escrevemos, falamos, amamos. Sei que és e serás eternamente grato ao nosso amor, por isos nos faz comemorar vitórias, por isso brincas com seus adversários. Nós não respondemos aos estímulos de nosso corpo, tal é a intensidade. Afinal em cada um de nós mora a esperança, e como somos Clube do Remo, o nosso amor diremos que não tem igual. Ia me esquecendo. Me chamo Fenômeno Azul. Prazer''

O filtro

Essa experiência semiótica de construir um texto tentador, provocador, intimidador e sedutor. Esses mecanismos de manipulação que adoro tanto (aliás, um bom filtro que identifica mentes pensantes). Participar de um processo dialético não é pra qualquer um. Pra isso, é necessário saber ouvir as teses para contra-argumentar com as anti-teses. A partir de um diálogo bem fundamentado, se chega ao consenso, à síntese, o que caracteriza a esfera pública. Aliás, é a ausência dela no convívio social que propicia à cultura de intolerâncias, grosserias e falta de educação. Ninguém é obrigado a pensar igual à maioria, mas poucos entendem e respeitam isso. A chamada ignorância. 
 

quarta-feira, janeiro 04, 2012

O agnóstico

"O inferno e só uma ameaça. Quem comprova que existe um lugar onde somos assados igual cordeiro pelo simples motivo de querermos unicamente o nosso próprio bem? A bíblia? Acho engraçado aqueles que assumem como única verdade um livro que julgam ser sagrado só porque foram educados a chamá-lo assim. E comungam, se confessam, vão ao culto, falam textos decorados sem pensar no que eles realmente querem dizer.

Acredito que os ignorantes sofrem menos. Ponham tudo na mão de deus e esperem o milagre cair do céu sem mover uma cutícula. Ele tem coisas mais urgentes do que resolver teus problemas pessoais. Ah, a confortável inércia de apenas torcer pelos acontecimentos sem fazer por onde.

Deita no colo de deus e vai... Vê o tempo passar e posteriormente lamente com o peito cheio de insatisfações. Ou assassine teu próximo porque ele discorda de tuas ideias, porque ele discorda das tuas crenças. Eu encontrei minha fé e ela estava muito distante dessas tuas páginas."