quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Lulus

A água quando se está com sede, o banho quando se tem calor, a manta quando se tem frio. Uns pés pra esfregar os nossos debaixo da coberta, o abraço horizontal da madrugada, o "oi" horizontal do "bom dia". O cheiro do brigadeiro na panela, o cheiro do leite que aquece, o cheiro da polpa hidratante pras mãos, o xampu, o sabonete. O ensaboar.

O pular do parapente, o gritar de excitação, o dançar daquela música. O abraço, o cheiro, o beijo.

O colo das irmãs.


O cafuné da Ísis, o miojo da Aida, a voz rouca da Bela, as viagens da Amanda. Lulus. Lulus com esmaltes espalhados na cama, com o quarto com cheiro de acetona, o banheiro bagunçado de cremes e maquiagens, as conversoterapias entrelaçadas com o melhor setlist do final de semana.

Lulus na Casa das Onze Janelas, Lulus na beira do rio, Lulus causando no trânsito no carro da Didi, Lulus causando nas festas "because we are your friend". Lulus emputecendo namorados porque são divas, Lulus fazendo do metrô o melhor lugar do mundo.

Choro de Lulus, risadas de Lulus, cumplicidade de Lulus.

Saudade de nossas bagunças. [Porque a energia do ar fica sensacional quando a gente tá together.]

Até breve, Lulus.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Filmes exibidos em 2012 para se dar o "play"

O ano virou e a programação dos cinemas paulistanos deu de presente para quem mora na capital um leque amplo de boas narrativas. Dramas, comédias, aventuras e documentários cujas histórias emocionam e cumprem o dever catártico de levar o telespectador para as realidades sobre as quais tratam os longas-metragens. Filmes com temáticas abrangentes que contam desde histórias reais à ficção que sugere o homossexualismo entre crianças. A seguir, a primeira leva das preciosidades que indico a vocês.

OS ANTROPOLOGICAMENTE INTERESSANTES



Para quem gosta de dança, especialmente balé, o "Último dançarino de Mao" é um prato cheio de coreografias belíssimas. O teatro invadiu as salas de cinema com espetáculos protagonizados pelo bailarino chinês que viaja para os Estados Unidos, descoberto por um coreógrafo norte-americano. Além da plástica dos espetáculos de balé que ganham gordos minutos do filme, destaque para o drama que o dançarino enfrenta para ficar na América e consolidar sua carreira. O diretor Bruce Beresford foi feliz em pontuar os contrastes de uma cultura ocidental (China militarista) e outra oriental (EUA, o país livre). Antropologicamente interessante.

Outro filme que trabalha conceitos antropológicos é "A fonte das mulheres". A comédia-drama belga/italiano/francês de Radu Mihaileanu retrata o cotidiano de uma comunidade mulçumana na qual o trabalho braçal culturalmente e historicamente foi atribuído às mulheres. Encarregadas de abastecer a comunidade de água, elas percorrem quilômetros carregando, nos ombros, baldes, desfilando sua feminilidade por morros de pedra no caminho aldeia-lago. Um cenário de exploração que elas tentam mudar fazendo "greve de amor".  Uma história contada com muitas cores, música, dança e hijab.

A narrativa é interessante por fazer analogia à história do filósofo Sócrates e ao Mito da Caverna de Platão. A líder do movimento é a única alfabetizada entre as mulheres. A partir de seu conhecimento adquirdo em livros, ela tenta provar ao líder religioso da comunidade que o Corão prevê a igualdade entre homens e mulheres. Um argumento para pôr fim à exploração.


OS QUE PROVOCAM REFLEXÃO

O cinema francês está arrebentando na qualidade de suas produções e, de cara, joga no peito do telespectador uma narrativa que sugere o na infância. "Tomboy" conta a história de Laura, uma menina interessada em futebol, shorts, cabelo curto, em não só estar entre meninos como se sentir um menino. Como os bons filmes franceses, deixa o público completar o final da narrativa (ou a continuidade sem fim, por que não?).

Muito feliz na forma de contar essa história, a diretora Céline Sciamma construiu a narrativa a partir de brincadeiras infantis, do cotidiano da criança. Cenas concentradas no lúdico que funcionam como uma viagem ao nosso próprio passado (pelo menos eu me senti um pouco dos garotos brincando de guerras de balão de água e tomando banho de rio, como fiz na minha infância). Um filme delicioso com uma trilha sonora de uma música só sensacional.


Baseado em fatos reais, "Compramos um zoológico", de Cameron Crowe fala sobre o recomeço. Enfrentar desafios, dar a volta por cima e construir algo que ficará para um futuro que não viveremos. Um assunto talvez batido em filmes e livros, mas contado a partir de lindas imagens e situações reais com as quais muitos espectadores se identificarão. Uma injeção de energia para quem precisa de um exemplo para seguir em frente.

Outro que incorre na mesma fórmula, "Os descendentes", de Alexander Payne foca mais no momento da chegada da conta da inconsequência para ser paga, qual seja a hora de assumir responsabilidades. Um drama detestado por muitos espectadores, mas que apreciei muito. A história faz todo o sentido para quem já viveu a experiência de sentir a casa cair e ter que reerguê-la. Pontua situações bem reais referentes ao que se vive em um divórcio , ou quando a morte nos leva um ente querido e nos tira um pedaço.


Filmes que precisam ser vistos por serem obras-primas. Narrativas que valem cada segundo.

Nos momentos de silêncio é quando a gente mais se completa

"É nos momentos de silêncio que a gente mais se completa", disse a namorada se referindo ao futuro marido. A certeza da união iminente se justifica pela sintonia recíproca. Tão grande que às vezes o olhar é o bastante pros dois comunicarem "eu te amo".

Amanhã é dia dos namorados em muitos países. Data na qual os casais obrigatoriamente são fofos e românticos embora boa parte deles viva em pé de guerra a maior parte do tempo. Falta respeito, falta comunicação, falta gentileza, falta muita coisa. Mas o presente, não faltará, com certeza.

Com uma frequência superior a tolerável, encontro casais discutindo nas ruas. Presencio trocas agressivas de palavras, quando não, gestos. Algo que me causa constrangimento e lamento por dois seres humanos envolvidos em uma relação que deveria ser mais deliciosa do que outra coisa. Encontrar mulheres chorando penosamente também é algo comum. É claro que quando as vejo com os olhos vermelhos, considero como primeira causa da dor, um homem (ou outra mulher, claro).

Segundo minhas observações, os membros de sociedades capitalistas estão cada vez mais intolerantes ao individualismo e isso não quer dizer que eles estejam mais altruístas e solidários. Muitos ligam o fato de estar só à solidão e se obrigam a estar boa parte do tempo envolvidos em alguma relação à dois que não seja apenas fraternal. Não toleram ir ao cinema sozinhos, jantar sozinhos, passear no parque sozinhos.

Alguns inclusive se sentem envergonhados de se divertir sozinho em público. No meu entendimento, isso só revela uma grande intolerância para consigo mesmo. Dependendo de quem se tem ao lado, estar sozinho é muito mais gostoso. Mas até se descobrir essa possibilidade, nos envolvemos em vários relacionamentos sem sentido e desgastantes. Parte da vida.

Conversando com um amigo sobre casamentos, disparei: "o único motivo que justifica uma união que objetiva o ´pra sempre´ é uma sintonia imensurável. Algo que a gente sabe que é particular da relação entre nós e O outro". Por isso sei que ele casará com a namorada. A gente sente quando um casal se encaixa. É o caso deles.

Quem já viveu algo do tipo, sabe como é. Quando o silêncio é suficiente para nos completarmos é Bingo!

"Mágico" resume bem. Alguns são presenteados com esse tipo de relacionamento, o único que considero válido. Outros se envolvem em relações cuja demonstração de "bem querer" se resume muitas vezes em enfrentar filas no shopping pra garantir mais uma bermuda. Mais uma camiseta.