segunda-feira, abril 02, 2012

Quando a algema é transformada em chip

Crianças monitoradas por chip. Foi essa a alternativa que encontrou a prefeitura de Vitória da Conquista (BA) para reduzir o índice de cabulação de aulas. A ideia é implantar o mecanismo "inovador" em todas as escolas municipais. O mimo custará alguns milhões aos cofres públicos. Uma conta paga pela população, claro.

A notícia veiculada há uma semana no Jornal Nacional veio com tom de boa nova. Me chamou atenção a expressão serena do âncora ao ler a cabeça da matéria. Mais impressionante ainda foi a voz amigável do off da reportagem que, combinada com as sonoras dos entrevistados, veiculou a notícia como um bom presságio.

"Achei muito bom (a implantação do chip no uniforme). Agora não tem jeito, vou ter que meter a cara nos livros", disse um aluno. A mãe de um estudante aprovou o monitoramento que lhe informa por SMS o instante que o filho entra e sai da escola. "Ele leva 20 minutos pra chegar em casa. Quando sei que ele sai da escola, deu 20 minutos e ele não chegou, já fico atenta."

A meu ver, a diferença entre as algemas eletrônicas usadas por presidiários e o chip nos uniformes é nenhuma. Curioso é ver que alunos, pais e a imprensa vejam a novidade como algo positivo, já que reforça a assiduidade no colégio.

Na minha infância, a educação que recebi dos meus pais foi suficiente pra estabelecer em mim e nos meus irmãos senso de responsabilidade. Frequentávamos a escola porque sabíamos que a educação seria fundamental para uma vida adulta com qualidade, na minha visão de mulher adulta (e não moleca), em suma, a educação contribui para um melhor convívio em sociedade e para nosso crescimento enquanto ser humano (ensina muito a respeitar também, aliás, respeito está em falta no nosso cotidiano). Crescer em aspectos subjetivos, além de materiais. Hoje, constato o quanto foi importante aprender (e continuar aprendendo, claro).

Pensando a longo prazo, o que podemos esperar de adultos que foram crianças monitoradas, cuja frequência na escola resultou de uma coação por vigilância? Será que os pais dessas crianças conversam com seus filhos sobre a importância de ir à escola? Acompanham seus deveres de casa? Continuam, em casa, o processo de educação que não se restringe à escola? Ou têm a falsa sensação de que os filhos estão sendo educados só porque o chip os informa que eles estiveram no colégio?

É fato que a comunicação por meios digitais tem substituído o contato tête-à-tête. Agora quais serão suas inúmeras consequências? Por mais imediata que seja a comunicação digital, ainda confio no efeito positivo de uma boa conversa olho no olho, com toque, com afeto, intersubjetiva. Me preocupa a naturalidade e o entusiasmo com o qual setores da sociedade veem a implantação do chip nos uniformes como algo inovador e positivo. A meu ver é retrocesso. É desumanizador.