sexta-feira, junho 22, 2012

Em areias chilenas

Desaparecido. Todas as vezes que me deparo com o advérbio indicador de alguém que simplesmente sumiu por motivo desconhecido, penso: acho que não reconheceria a pessoa a partir dessa imagem. Tal pensamento objetivo diante de uma palavra que pressupõe sofrimento e angústia das pessoas que procuram alguém é meu nenhum contato com essa realidade.

Há alguns anos li o relato de um jornalista brasileiro sobre o dia que militares, durante a ditadura, entraram em sua casa e sequestraram seu pai. Depois disso, a presença do pai na vida dele, na época do fato ainda garoto, foi no seu desejo de ouvir o abrir da porta que traria a boa notícia do pai que estaria de volta. Isso nunca aconteceu e o corpo do militante continua desaparecido. 

No Chile, até hoje familiares de militantes contrários ao governo de Pinochet procuram no deserto chileno os corpos de seus entes que desapareceram, com a esperança de sepultarem de vez os cadáveres e porem um ponto final em uma angústia sentida há décadas. Há quem tenha aberto mão da própria vida para se dedicar a escavações diárias no meio de um monte de terra que constituem um cenário melancólico de silêncio e pesar. Há quem tenha encontrado os ossos de seus pares, alguns ainda cobertos com restos de carne conservada pelo sal daquelas areias.

Há alguns anos, conversando com um amigo sobre a ditadura militar, ele dividiu comigo algumas más lembranças do período, dias sofridos de idas e idas de sua mãe a presídios a procura do pai dele. Ele ficou desaparecido por dois anos. Ainda hoje manifesta comportamentos que denunciam a experiência violenta, consequência de horas somadas de tortura.

O único relato familiar mais próximo sobre o regime militar, é a experiência dos meus pais na universidade. Ambos eram ainda muito jovens na época do auge da ditadura e também não se somaram aos militantes. Eles me contam sobre o esforço que fizeram para concluir a graduação. Com o propósito de não agregar pessoas na universidade, evitando uma possível articulação política, o governo federal institui na academia o modelo fragmentado de curso. As disciplinas foram oferecidas separadamente a cada semestre. Concluiria o curso quem somasse o total de cadeiras cursadas exigido. 

O resultado disso foi uma experiência de anos dividindo a sala de aula com pessoas de cursos e idades diferentes, já que, na época, as graduações tinham uma grade inicial em comum, o chamado "básico". Em seguida, o bloco "profissional" oferecia matérias específicas. As aulas de cada bloco eram ministradas em campi diferentes. Até hoje esses campi são assim chamados. O batismo militar virou referencial geográfico.

Enquanto isso, no Chile, a herança deixada para vários parentes de vítimas de Pinochet foi o silêncio. Um não saber sobre o que decerto houve com seus familiares e amigos.