segunda-feira, junho 04, 2012

Futebol, frangos e farofas.

Uma pilha de louças para lavar. Enfrentando mais um dia rotineiro do trabalho remunerado por alguns trocados de bolivianos, aproximados R$ 200, a senhora boliviana mãe de cinco filhos ouviu de uma moça a tentadora proposta de trabalho: migrar ilegalmente para o Brasil, trabalhar como empregada doméstica e receber o triplo do salário.

Pronunciou um "sim", arrumou mala e cuia e deixou pra trás um país pobre, com baixos salários e altíssimo índice de pobreza. Foi chegar no seu novo logradouro brasileiro, olhar pra trás e ver a nova patroa trancar sem dó a porta com cadeado. Ficaria encarcerada nos próximos dois meses, trabalhando mais de noventa horas por semana com o própósito de quitar a divída das passagens aéreas e despesas provenientes da imigração. Uma espécie de sistema de aviamento do século XXI. Virou escrava como inúmeros bolivianos que migram para o Brasil com o propósito de tornar concretos seus sonhos.

Logo que cheguei em São Paulo, conversando com a mãe de amigos, escutei dela palavras de repúdio a bolivianos que emporcalham parques com suas farofas e frangos. Muitos deles contribuem inclusive para a alta do índice de criminalidade de São Paulo. "Bolivianos?", pensei. "Nunca reparei que em São Paulo tem bolivianos."

De fato é uma população invisível que vive enclausurada durante a semana e tem o domingo como único dia de libertação. Aquelas algumas horas nas quais podem se desconectar da realidade social dura que enfrentam e sentir o prazer do futebol, frangos e farofas.

Especulo sobre o "emporcalhar" de parques como uma consequência da falta de educação. Cidadania e bons modos são constituídos com muitas doses de parágrafos e conversas, não necessariamente na sala de aula. Carentes de informação de qualidade, eles se tornam seres humanos de qualquer jeito. Com formação desqualificada, acabam terminando no subemprego. Isso para aqueles que conseguem recuperar o direito de ir e vir.

Muitos bolivianos têm suas liberdades violadas. São enclausurados e escravizados, obrigados a trabalhar durante mais de 70% do dia, mão de obra principalmente dedicada a costurar e tecer. Uma população invisível aos olhos de quem mora em São Paulo.

Sobrevivem em situações adversas como a senhora imigrante que teve que morar com os cinco filhos em uma casa de dois quartos e um banheiro, apertadamente divididos entre vinte pessoas. "Quando um ficava doente, todos adoecíamos", lembra ela. "Eu tinha que fazer almoço para vinte pessoas. Muito arroz e um pequeno pedaço de carne que tinha que ser repartido entre todos. A comida era muito ruim."

Entre paulistanos e bolivianos, a relação é de uma intolerância recíproca. Os brasileiros se desagradam com a presença estrangeira que leva lixo aos parques e violência às ruas. Os estrangeiros se magoam com brasileiros que causam a eles sofrimento e destruição de sonhos. Compreensível o repúdio.

A mão de obra ilegal sustenta a indústria de indumentárias. Roupas comercializadas principalmente no Brás - centro de lojas populares em São Paulo - a preços baixíssimos. Por enquanto, quem socorre os bolivianos vítimas da escravidão e maus tratos são organizações não-governamentais. Uma mobilização da sociedade civil que estende as mãos para pessoas que não têm onde se segurar.

O curioso é essa realidade estar nas ruas que frequentamos e a ignorarmos completamente. Gente que sobrevive com o subemprego, gente que sobrevive lavando banheiros, carregando móveis em troca de salários que mal pagam a condução. Gente que ignoramos cotidianamente enquanto nos preocupamos em comprar nossos iPhones, passagens aéreas e peças dos looks do inverno.