quarta-feira, junho 20, 2012

Marx, Freud, Darwin e as etiquetas


"Você vai emagrecer sem sair do sofá." O aparente bom presságio recheia a matéria publicada na Revista Galileu no mês de Abril. A notícia é sobre uma pesquisa realizada por cientistas da Harvard que estudam a técnica que converterá gordura branca - aquela que só aumenta os pneuzinhos e não tem utilidade -, em gordura marrom - aquela que o organismo utiliza para, entre outras funções, aquecer o corpo humano no frio e queimar calorias durante o procedimento. Uma vez domado o mecanismo da natureza, a biomimética tornará possível a existência da pílula que permite emagrecer sem esforço, pondo no chão a premissa dos nutrólogos e professores de educação física de que não há outra receita para emagrecer senão
adotar uma dieta saudável e fazer exercícios físicos. A felicidade de emagrecer a um gole d´água.

Há quem justifique o empenho científico como altruísmo dos pesquisadores, um dar a
mãozinha àqueles que precisam perder peso por motivos de saúde, no caso dos obesos, por exemplo. Considerando os traços culturais de países ocidentais capitalistas, cujas revistas estampam em suas capas corpos esbeltos, abaixo do peso ou decorados com músculos, especula-se que o investimento em tal pesquisa é motivado pela fortuna que toparão pagar pelo medicamento aqueles que desejam vestir manequim 36 sem gastar uma só gota de suor.

Na ditadura da barriga tanquinho e da bunda sem celulite, boa parte dos seres humanos que habitam o lado ocidental do planeta no século XXI reproduz comportamentos e adota conceitos aparentemente sem questioná-los. Karl Marx observando uma sociedade de dois séculos antes, constatou que o ser humano é resultado de um processo histórico e do meio em que vive, ou seja, resultado de sua cultura.

Considerando que não é a consciência que determina o ser e sim o ser social que determina a consciência, Marx entendeu que as ações definem quem determinado ser humano é. Entre essas ações, o que ele consome. Prevendo a invenção da pílula do emagrecimento sem esforço, é claro perceber que seu consumidor não desejará as drágeas pela composição química que transforma gordura branca em gordura marrom. O fetiche está na magreza, no poder de compra de um corpo que pode desfilar com pouquíssimo pano sem o risco de ser censurado, ao contrário, será desejado.

Atrás do prazer narcísico de se sentir atraente e da aparente sensação de bem estar, muitos homens do século XXI topam pagar qualquer coisa para conseguir em tempo real a satisfação do anseio. Embora as sentenças de Marx tenham sido cantadas para a era Moderna, caem como uma luva para explicar muitos traços culturais da hipermodernidade, como qualificam a atualidade alguns teóricos da comunicação.

O cenário pinta um Homem que brinca de Deus - ou seria um homem que finalmente assume suas próprias funções anteriormente atribuídas a um ser divino que ele mesmo inventou? Marx explicaria. Como escancarou Darwin, a natureza é comandada pela lei dos mais aptos a sobreviver em determinado ambiente. A seleção natural que perpetua a espécie daqueles que conseguem sobreviver. Na hipermodernidade, sobrevive melhor quem se adequa aos padrões, ou quem no fundo não supervaloriza normas e padrões, respeita algumas regras, viola outras, mas no fundo, não dá a mínima para o entendimento da maioria, tem seus próprios conceitos e elaborações. Freud explica.

Seja brincando de Deus ou de top model, o homem procura satisfação, o prazer, ou a tal felicidade. A era hipermoderna, das hiperpossibilidades e hiperescolhas proporciona inúmeras opções para alcançar o sorriso em tempo real. Para ontem. Como a satisfação imediata de ficar linda em um biquíni, sem ter que sair do sofá para ficar esbelta. Mas como sentenciou Freud no livro “O mal-estar da civilização”, "aquilo que chamamos ´felicidade´ no sentido mais estrito, vem da satisfação repentina de necessidades altamente represadas, e por sua natureza é possível apenas como fenômeno episódico".

Comparando o entendimento de Freud e os produtos que vendem a felicidade imediata, identificamos o seguinte: Freud sentencia que a felicidade é pontual. Os produtos vendem a felicidade em tempo real. Considerando que a cultura hipermoderna obriga o ser humano a excluir a tristeza de seu cotidiano, é condenável quem pensa que a tristeza deve ser sentida ao invés de reprimida. Considerando os padrões estéticos do corpo humano na atualidade, é condenável assumir celulites e barrigas de chope, mesmo que se conviva bem com ambas.

Educando a buscar o prazer onde só se encontrará satisfações imediatas e aceitações, determinadas normas culturais hipermodernas multiplicam o público consumidor da felicidade instantânea. Ressalta-se que a crítica ao referido padrão de consumo não tem relação com a preferência por determinado prazer, mas ao impulso que motiva o consumo inconsciente porque não é um consumo em conformidade com o saber do ser humano sobre si mesmo, no sentido de que as pessoas têm consumido coisas que não sabem certamente se realmente gostam de consumí-las, pois muitas vezes esse consumo é influenciado.

A pesquisa de Harvard escancara que na hipermodernidade, onde quase tudo pode ser adquirido a partir do dinheiro, o ser humano é o que pode consumir. Como ditou Marx ainda no século XIX, cada pessoa é o próprio produto que consome, cada pessoa é as etiquetas que carrega.