quinta-feira, junho 21, 2012

O peso do casaco

Tanto pano que é difícil até abraçar. Depois de vinte anos morando em um lugar com clima de assar pão, esqueci os pormenores do inverno que conheci pequerruxa quando morei em SP. Tudo fica mais difícil. Lavar a louça, passar cremes (que ficam geladíssimos!), tirar a roupa para o banho e sentar no vaso sanitário sempre absurdamente gelado para bundas quentinhas, agasalhadas. Protelar o xixi vira a regra.

É curioso como o inverno é propício à introspecção. Ele chegou em SP com dias cinzas e chuvosos, recolhendo os moradores da cidade na individualidade de seus guarda-chuvas. Um isolar-se em casacos e panos grossos em busca do calor, um isolar-se que deixa o coração mais frio.

Diante do desagrado de estar isolada da sociedade, separada dela por inúmeras camadas de pano, a pessoa olha mais para si mesma. Olha para dentro e encarar-se não é um exercício lá muito agradável e prático. Aí ficam mais evidentes as insatisfações profissionais, cotidianas (os problemas da cidade parecem incomodar mais), afetivas (faz falta não ter a metade por perto), um estresse que faz do banho quente a coisa mais desejada depois de um dia inteiro de trabalho. Um banho quente, seguido de uma cama quentinha para poder encontrar no sono e nas cobertas um lugar mais confortável de se estar. O tempo na metrópole é corrido, mas prefere-se dormir a viver.  

Os casais que têm em seus pares um meio de se esquentar nas noites frias, recolhem-se em seus ninhos. Quem não tem um par, tenta se esquentar sozinho. Uma sensação desagradável quando os panos não são quentes o suficiente e não há outro meio de esquentar-se que não seja um lugar não-frio.

Conheço paulistanos que não gostam do inverno. Embora tenham crescido em dias gelados de junho e julho, quando a temperatura baixa, recolhem-se em suas tocas como se fossem ursos que hibernam e esquecem da vida por várias semanas. Saem de casa para trabalhar porque não tem outro jeito. Contratam serviço de TV a cabo, alugam filmes, compram gostosuras para comer no quentinho de suas cobertas e esquecem da sociedade.

Hoje compreendo a euforia da chegada do verão e do quentinho do sol. Acostumada a usar pouco pano, nunca tinha percebido que tecidos leves e coloridos nos dão uma sensação de liberdade, de libertação porque, enfim, podemos nos movimentar melhor. Podemos abraçar melhor. Soma-se a isso a possibilidade de sentir a areia com os pés, de tomar banho de mar e rio, de usufruir da cidade sem precisar carregar casacos pesados.