sábado, setembro 28, 2013

Um dos melhores lugares do mundo é a plateia

Joana,

há algum tempo me prometi fazer um mural com os ingressos de shows e peças que andei colecionando. Não foi a primeira vez que guardei com carinho as entradas de espetáculos memoráveis. Por onde andam os tantos outros vestígios de plateias por onde estive? Não sei, se espalharam por lixeiras com o tempo, sem que eu soubesse. Mas não são menos importantes, de jeito nenhum. Guardo os espetáculos na memória e no coração, claro. Estar numa plateia é sempre memorável.

Esse mural é especial. Não apenas porque reúne passagens por plateias de espetáculos como "Tim Maia - Vale Tudo" - belo musical com Tiago Abravanel, antes dele ir pra Globo e ficar famosíssimo (canta muito! emocionante) -, "Hair" - a peça mais linda e emocionante que assisti nesses últimos 29 anos -, "A Casa Amarela" - solo belíssimo com o Gero Camilo - e "Viver Sem Tempos Mortos" - monólogo com a dona Fernanda Montenegro - não tenho nem palavras...

Ou porque denuncia o carinho com o qual lembro de ouvir, e cantar junto, Alanis Morissette, Lobão - gravação do dvd "50 anos a mil", imagine! -, o primeiro Lolla Palooza Brasil e Aerosmith - que tive o privilégio de ver tão de perto que enxerguei o olho roxo do Steven Tyler que tinha caído durante o show em Buenos Aires uma semana antes.

A importância desse mural está em lembrar o quão é importante ir.

Quando a gente vai, gera movimento. A gente vai, a gente vê, a gente ouve, a gente sente. E quando vamos indo com a arte do lado, a gente vai ainda melhor.

Fui indo, indo, indo tanto que cheguei.

:)

quarta-feira, setembro 25, 2013

O ingrediente Calundu

Tenho estudado bastante sobre tradições religiosas afro. Nas minhas pesquisas, descobri que no Brasil dos séculos 17 e 18, há registros de práticas de curandeirismo e uso de ervas combinadas com adivinhações e possessões chamada calundu, uma prática religiosa africana.

Quem nasceu na Amazônia, como eu, cresce acostumado com o hábito dos banhos de ervas, que são tomados principalmente em datas festivas, como na madrugada do dia de São João e na véspera do ano novo.

Quando estou em Belém (PA), minha passagem pelo mercado do Ver-o-Peso é cumprida com tradição. Me dirijo logo para o espaço das erveiras - um lugar onde circula muita energia (quem tem uma certa mediunidade sabe do que estou falando). Sempre sou profundamente seduzida pelo perfume das ervas, especialmente o patchouli. É delicioso!

Compro meu banho de ervas para renovar as energias - descarregar as energias negativas e atrair boas vibrações. Só não imaginava que esse gesto bebia nas tradições negras. Pensei que fossem apenas heranças indígenas. Mas a história da nossa colonização demonstra que os brasileiros, especialmente os amazônidas, somos uma linda mistura de povos tradicionais, além dos europeus.

Confesso que muito me agrada flagrar nos meus hábitos tradições indígenas e africanas com as quais me preocupo em preservar. Elas me fazem me sentir peculiar, me sentir mais eu. Nada contra as tradições europeias, povo cujo sangue também carrego nas veias e artérias, mas, desculpem-me os brancos, me sinto mais índia e negra embora carregue um fenótipo que faz os nativos amazônidas terem sempre me tratado como estrangeira. 

quinta-feira, setembro 12, 2013

Trambolho: quando desmontada sua estrutura, vira um monte de coisa facilmente descartável.

Houve um tempo em que dançar perto do fogo só me bronzeava. Aposto que, diante de uma fogueira, o bronze ainda hoje seria a realidade. Mas sabes que de uns dois anos pra cá tenho preferido estar branquela? 

Quantas vezes a gente não leva um tapão porque ofereceu a cara pra provar a nós mesmos que suportaríamos o tabefe? Eu ofereci um monte... Até cansar e constatar que tanta mágoa era desnecessária. 

Mas o marasmo e o tédio fazem a gente procurar arte. E quem procura, acha. 

Mas sabes, Joana? Eu descobri a minha paz. Tava soterrada debaixo de um monte de entulho. Joguei tudo fora, fiz um faxinão. Um santo remédio pra energia circular bem é a arrumação, a higienização da alma. Fiquei nos trinques.

Mas deu um trabalho...

Mas tá sossegado.

domingo, junho 23, 2013

Está quase todo mundo nas ruas, Joana.

Desde que uma fatia gorda da população brasileira, principalmente jovens, foi à rua pedir redução da tarifa das passagens no transporte público, principalmente, além de decência na saúde, educação, segurança e o fim da corrupção - entre outros vários motivos que deixam o brasileiro de saco cheio há alguns anos - fiquei impressionada. Acompanhei os protestos com maior intensidade desde quinta, 13, o dia do #vemprarua, quando milhares de brasileiros participaram de inúmeras passeatas em todas as regiões do país. 

Antes disso não dei muita atenção, confesso. Como várias outras passeatas que acontecem em SP, principalmente, enxerguei essa como mais uma insatisfação de um povo que tá cansado de várias decisões obtusas que vem sido tomadas no Brasil. Só que de uns dias pra cá, as manifestações adquiriram um tom de micareta por causa de muitos manifestantes narcísicos que estão no meio da multidão para brilhar e outros tantos que reproduzem frases de efeito do tipo "o gigante acordou", utilizadas recentemente como marcas ao invés de realmente expressarem um consciente desejo de muitos manifestantes. E digo isso porque basta atentar um tico pra perceber que os discursos são reproduzidos e não opiniões próprias. Muitos desses não têm maturidade política porque a educação brasileira, pública e privada, via de regra não forma alunos que desenvolvem criticidade e a capacidade de desenvolver opinião própria. Mesmo porque para isso acontecer é necessário maturidade, consciência de si mesmo e muita terapia e todos estamos carecas de saber que a saúde emocional é exaustivamente negligenciada em nosso país que ainda associa terapia a "coisa de doido". Muita ignorância, nota-se. 


Acho válido os olhos do país estarem mais ligados na coisa pública, na cidade, no executivo e no legislativo do que na Copa das Confederações. Um feito colocar a pauta futebolística em segundo plano, especialmente no Brasil. O povo ter estado nas ruas torna evidente que estamos insatisfeitos, cansados de tantas violações, restrições de liberdades individuais e direitos fundamentais. Mas pra arrumar anos de bagunça é necessário uma estratégia. Gritar "sem partido", "sem violência" e pautar na grande mídia os "atos isolados de vandalismo" não vai concretizar mudança. Ainda é necessário um olhar maduro e crítico sobre tudo o que está acontecendo, pois a história do Brasil mostra que o oportunismo de dissimulados passou por cima da maioria e instalou ditaduras, inclusive de forma velada, imperceptível a um povo que confunde liberdade com poder de consumir.


Aliás, muitos cobram liberdade sem mesmo compreender o que é ser livre, ainda com uma visão romântica e idealizada de que uma vida livre é só alegria. 


Aqueles que entendem por liberdade fazer o que a vontade diz, com todos os prós e nenhum contra, estão confundindo-a com a inconsequência e a irresponsabilidade. Exercer a liberdade consome muita energia, paciência e exige um monte de tolerância, às vezes, até sangue frio.


Hoje vivemos no Brasil um momento importante para repensar tomadas de decisão obtusas e avaliar porque gente tão equivocada ocupa cargos estratégicos com poder de tomada de decisão. Um momento oportuno e necessário para muitas reflexões e amadurecimento. A maioria dos que protestam hoje, nas ruas e nas redes sociais, enxerga com foco nas frases de efeito. Uma oportunidade para propor debates, incentivar reflexões para a construção de uma sociedade de fato democrática e abrir os olhos para os oportunistas que se aproveitarão como puder desse contexto para trabalhar em causa própria e, claro, prejudicando a população.

domingo, maio 05, 2013

sobre dançar

A gente dança. Enquanto não sabemos para onde queremos ir, em específico, a gente dança. A vida tem uma regra. Não se pode curvar diante do tempo e ficar a vê-lo passar. Isso espreme a mente, esmaga o coração. A dor do ficar de fora.

Foi a única coisa que pensei enquanto via O lado bom da vida. A história de um homem traído, obcecado pela ex-mulher, obcecado em voltar no tempo e trazer a mulher de volta, mesmo tendo sido ela que botou um ponto final nisso fazendo sexo com o amante no banheiro da casa deles, ao som da música do casamento deles.

E ele ficou na tenção de viver entre a loucura e a sanidade, negar os remédios na tentativa de afastar de si a realidade de um coração e uma mente perturbados. Foi condenado a ficar oito meses em uma clínica de habilitação porque socou o amante da mulher até ele ficar inconsciente.

Há pessoas e coisas que bagunçam a mente, destroem a paz de espírito, nos deixam em estado de loucura de tanto que nos torturam psicologicamente. Os remédios nos dão uma força quando não sobrou mais nem o amor próprio. Aquela sensação de nadar em um mar fundo, cujas margens estão longe, ir se afogando e encontrar no meio de tanta água um balão de oxigênio que dá um gászinho pra nadar um pouco mais.

Com o mar vencido, uma faixa de areia pela frente. Mesmo sem saber pra onde se vai, o bom senso diz pra caminhar. Vai que encontro uma barraca com comida quentinha. Tenho fome. Caminhando, se vai. Pra onde, dificilmente se sabe.

O homem traído que negava o fim do casamento precisou pegar as rédeas da vida de volta. Domá-la ao invés de ser empurrado por ela sei lá para onde. Acabou que ele encontrou um objetivo de curto prazo: dançar e treinar passos com a nova amiga viúva e perturbada, inscrita em um concurso de dança. Sem saber como retomar a vida e trazer o sossego para os dias, ou pelo menos para a maior parte deles, eles decidiram dançar. Suar, se esgotar, insistir até alcançar o movimento coordenado e equilibrado. Tinham um concurso em breve. O passar do tempo ia trazendo mais dança. A dança virou um foco, um compromisso, ganhou uma razão de ser até pra ele que nunca se interessou em dançar.

No meio da dança, a paixão entre eles aconteceu e a obsessão pelo casamento e a ex-mulher perdeu seu sentido. Talvez fosse o único motivo que fazia ele seguir em frente depois do choque da traição. A pancada forte joga no chão e algo é necessário para levantar quem caiu. E não necessariamente algo bom.

As pancadas tiram as coisas e pessoas do caminho. É preciso de algo para voltar ao trajeto. Mesmo não sabendo qual o destino do percurso, é necessário ir. É preciso dançar. Dançando, a vida volta a fazer sentido.

quinta-feira, abril 25, 2013

Sobre a sorte do amanhã

Nessa vida só duas coisas me causam extremo medo: do que não conheço e de uma má consequência. Na vida a gente aposta. Todo tempo. Planejar é apostar que no futuro estaremos vivos.

Já conheci gente que se escora nessa aposta de estar vivo amanhã para passar pelo hoje bem distraído. A ideia é não dar muito papo pro presente e assim evitar exitosamente dores e incômodos. Elas se ocupam em imaginar momentos felizes que virão. Mentira! Não virão porque basta se tornarem presentes para não soarem tão empolgantes assim.

No futuro esses momentos soam alegres e convidativos por fazerem parte de um contexto ideal. E o ideal só existe na esfera das ideias. Por isso tudo funciona. Por isso tudo é tão belo e atraente.

Acho arriscado depositar o prazer, a alegria, o bem estar no futuro. Mas muita gente se acostumou a postergar o sossego, a paz de espírito, a felicidade. Especulo que o fazem porque realmente não têm ideia de como lidar com a própria vida pra sentirem-se bem. Por isso procrastinam a felicidade (que não se trata de euforia e paixão, veja bem. É algo que tende à serenidade). Precisam de uma perspectiva de prazer. Como não são capazes de proverem os próprios prazeres de suas vidas porque não sabem resolver e lidar com os desprazeres, colocam a felicidade na mão do destino, do futuro. Vivem com o olhar pro amanhã. Depositam a esperança em um futuro que não se tornará presente.

Lamento.

Mesmo diante do medo do desconhecido ou de má consequência, aprendi que importante é tirar do presente tudo o que ele pode te dar de bom. E mesmo que dê coisas ruins, encontrar nessas situações oportunidade de melhoria, como a chance de se tornar alguém um tico melhor.

Mesmo com medo de más consequências, o importante é decidir consciente, acreditando que toma a decisão correta. Se ao longo do passar do tempo você perceber que se ferrou, paciência. Na época não foi possível prever esse risco, embora se tenha assumido a sua possibilidade dele ocorrer (tudo é possível, afinal).

Viver o presente tem suas vantagens, por exemplo, viver a vida.

domingo, abril 14, 2013

sobre respostas imediatas

Nesses tempos de clima propício para interações com as cobertas (leia-se friozinho), tenho tido mais tempo para pensar sobre as atitudes das pessoas, Joana, do que assisti-las de camarote, como costumo fazer quando estou por aí. A impressão que tenho é que pessoas socialmente poderosas sentenciaram pensamentos e comportamentos (obtusos) e influenciaram (negativamente) aquelas que se encontram debaixo do seu guarda-chuva de influências.

Aí o que eu vejo rotineiramente são pessoas reproduzindo atitudes egoístas, impacientes, batendo o pézinho porque o outro não correspondeu às suas expectativas. Isso tem sido reforçado com essa história de que todo mundo quer ser VIP e igualdade é tratar todo mundo como Very Important People, ao invés de baixar a bola dos VIPs pra um nível de igualdade no qual todos são iguais porque tratados igualmente com respeito e educação.

Essa história das pessoas estarem o tempo todo cobrando das outras o seu grau de importância tem me deixado muito triste, Joana. Essa gente que só olha pros perímetros da própria bolha me entristece. É um se achar melhor do que os outros, a bala que matou Kenedy, uma necessidade de dizer a última palavra, de querer falar e não querer ouvir, de não se importar com o outro (se tem tempo, se está bem, se está sendo azucrinado, desvalorizado...). Quem se importa, Joana?

As pessoas só estão preocupadas em ser escutadas e atendidas e isso tem que acontecer no menor período de tempo possível. As pessoas estão exigindo das outras respostas na velocidade da máquina. Elas têm se relacionado tanto com computadores e sistemas operacionais que esquecem que as relações compreendem interações com pessoas que, diferente da máquina, têm velocidade menor de resposta.

Eu sinceramente não sei como lidar com essas pessoas, Joana. Porque eu vejo que elas só enxergam a sombra projetada dentro da caverna e, pra elas, isso é tudo o que existe. Eu tenho relevado essa insensibilidade. Eles não têm ferramentas pra agir que não desse jeito. É de entristecer.

sábado, abril 13, 2013

Da reprodução

A história da humanidade sempre
revelou presente o hábito de se falar coisas obtusas que se tornaram verdades. São premissas e sentenças reproduzidas por várias bocas que muitas vezes nem pensaram no que diziam. É preciso tomar cuidado com as "verdades". Quando avaliadas de um ponto de vista objetivo e racional, muitas delas são, na verdade, um monte de imbecilidade. Presta atenção! É necessário.

terça-feira, abril 02, 2013

Toda manhã

É um levantar da cama, de sofás, de redes. Um caminhar para o vaso sanitário. Um tirar de remelas. Um cortar de pães. Um passar de manteigas. Um esquentar de leite. Um beber de café. Um pegar de ônibus, de metrô, de trem, de van. Toda manhã.

Um bocejar, um espreguiçar, um dar de "bom dia". Um quê de "existirmos a que será que se destina".

domingo, fevereiro 24, 2013

Sobre um pouco de preguiça


Há alguns anos tenho notado crescer em mim uma preguiça. Uma preguiça das pessoas, das rotinas, das mentalidades de maiorias, de comportamentos padrões, de reproduções de opiniões, de reprodução de comportamentos, de reprodução de "estilos de vida".

Uma preguiça que chega a me causar bocejo diante de frases padrões, conversas padrões, pensamentos padrões que criam em mim a enorme desconfiança de que muitos desses reprodutores e repetidores de atitudes não têm nem consciência do que estão fazendo, porque não agem em conformidade com o saber.

Padrões, comportamentos genéricos me dão preguiça. As pessoas não têm nem mesmo consciência de quem são, do que gostam, são inseguras. Vestem uma etiqueta, um rótulo que lhes agradam para se sentirem parte de uma comunidade e, portanto, aceitas, e viram mais um indivíduo expert em ser um PORRE. Ainda somos obrigados a conviver com isso cotidianamente.

São pessoas sem graça, preconceituosas (não restrinjo a um preconceito com gays e negros, vai muito além), apegadas a comportamentos e mentalidades. Pessoas que não se permitem ao NOVO porque têm MEDO. Isso me dá SONO.

As séries, os filmes, os livros e um punhado de seres humanos que escolhi a dedo para interagir ainda me abastecem com novidades e me surpreendem, me divertem. Uma energia que dá um gás, mas nem chega a compensar o tanto de energia que consumimos com pessoas que são um porre, chatas, PREVISÍVEIS. Porque esses seres humanos com identidade própria são únicos e tão raros e o exército dos chatos é muito maior.

Não é ser preconceituosa, mas como boa observadora que sou, te digo: basta prestar um pouco de atenção no cotidiano que dá para saber quais reações e comportamentos esperar de pessoas que andam para lá e para cá nas ruas de nossas cidades pelo simples fato delas REPETIREM comportamentos sem nem perceber.

Por isso gosto tanto de arte de rua, arte urbana. Elas tiram nossa mente desse tédio diário nos permitindo ter novas sensações, dirigindo nosso olhar e pensamento para outros pontos de vista, para novidades que aliviam o SONO que o dia-a-dia me traz. Ainda procuro um meio de não ser tão sugada e enfraquecida pelo sono que a maioria das pessoas me passa. É desanimador. Ainda tem aqueles invejosos, amargurados cujo prazer a aporrinhar a vida alheia, mas isso dá outro post.

domingo, janeiro 20, 2013

E eu sempre me encantei pelas ruas de pedra

Estava eu lavando louça, curtindo minha solitude com esponja e sabão na mão, animadíssima com a experiência de me sentir tão dona de casa. Mas uma "voz" me surpreendeu e avisou: aproveita que isso vai acabar! Mas eu senti que acabaria porque iria chegar uma nova fase da vida e tudo ficaria diferente mais outra vez. Mas seria um diferente bom. 

Nessa mesma época, meu carnaval agendado para desbravar São Paulo com mais duas amigas paraenses melou. Elas foram pra terrinha e eu pensei que seriam muitos dias a se gastar em Belém. "Não, nem pensar. Vou viajar, mesmo que viaje sozinha", pensei. Uma tomada de decisão um mês antes do carnaval, mas, confesso, nem temi diante da possibilidade de preços exorbitantes. De alguma forma eu sabia que viajar tava praticamente selado. 

Ouro Preto! A bela cidade veio como um estalo na minha cabeça. Sempre quis ver e sentir toda aquela belezura sobre ruas de pedra e um monte de igrejas. "Igrejas! Museus! Minas! Perfeito pros meus dias de sossego", pensei. Até então desconhecia o carnaval seladíssimo que a cidade acolhia. É sen-sa-cio-nal mesmo para aqueles que não são muito chegados, tipo eu. 

Em busca de informações pra bater o martelo e organizar passagem e hospedagem pro feriado, pesquisei na internet, nos sites das companhias aéreas - as passagens de ônibus ficam caríssimas nessa época, não valia a pena -, conversei com amigos que já tinham viajado pra lá aí lembrei: "o Marcinho mora em BH, vai me dar todos os detalhes" e deu. Inclusive me indicou o Sorriso do Lagarto. Inclusive peguei o último dia de promoção do Hostel, assim como garanti passagens camaradas às vésperas do feriado. Deu tudo certo e a viagem se resolveu em dois dias.

Lembro da minha euforia de quando tudo deu certo. Nesse dia, tomei banho como quem tá na multidão que acompanha o trio elétrico. Entre coreografias, levantando os bracinhos, estranhei: "É muita felicidade só pra quem vai passar o carnaval em Ouro Preto". 

Desconfiada dessa inquietação, comentei sobre a viagem com a Chris, minha querida amiga com quem converso muito sobre energias e lado de lá. "Chris, tô sentindo que essa viagem vai mudar minha vida e tô te falando isso pra gente ver na volta do carnaval se eu tava certa." Ela se arrepia até hoje quando lembramos da história. Também liguei pra minha amiga irmã do coração, Ísis, e disse que tava indo pra Ouro Preto. 

Igualmente muito bem conectada com essas energias, três anos antes eu estava com Ísis quando ela me disse que eu encontraria meu amor numas ruas de pedra. Falando com ela antes de viajar, Ísis enfatizou com um tom risonho de alerta: "Lá tem um monte de ruas de pedra..."

Eu senti que Ouro Preto seria fantástico. Essa cidade acolhe tão bem as pessoas. Tu te sentes em casa, pelo menos eu me senti. São paisagens impressionantes e uns temperos que perfumam a cidade de um jeito peculiar. Eu fiquei besta com tanta coisa linda, preços baixos, gente do bem, samba-canção, Cartola, sambão, axé (inclusive sucessos de noventa e pouco! tipo ilha ilha do amor!), ai se eu te pego, ME DA UM TCHU, ME DA UM TCHA (a música nasceu assim e virou EU QUERO. Muita gente cantava isso nas ruas e não existia a música ainda. Mas a melodia sugeria um funk).

Com dois dias de Ouro Preto, de bobeira no hall do Sorriso do Lagarto, encontrei Davi, mas a gente acabou indo cada um prum lado. Mas no meio da rasgaciones, breada de samba, aquela mesma voz da cozinha interrompeu minhas reboladas: "É hoje! Não sei quem tu és, nem como a gente vai se encontrar, mas é hoje!", pensei. Davi apareceu, a gente se grudou e eu me senti na pele das mocinhas de séculos passados quando apresentadas a seu futuro marido, um homem completamente estranho. Porque eu sabia que ia casar com ele. Só tinha que deixar o tempo passar e ele descobrir isso. 

Ele já descobriu.  




quinta-feira, janeiro 17, 2013

Homens em paz não fazem guerra (Parte I)


Nunca havia compreendido a dedicação de uma puta em se perfumar e se pentear para um homem. Nunca compreendera o esmero e empenho depositados em algumas horas na penteadeira. Hoje entendo e ele é a razão de tudo isso.

Quando digo tudo isso, me refiro tanto a esse livro, quanto ao fato de hoje eu compreender o porquê é tão gostoso me cuidar para ele. Mais outra forma de dizer "eu te amo" que descobri há pouquíssimo tempo. Há várias. Incontáveis, até.

Lembrando dos meus 16 anos, usando bermudões de skatista e longos cabelos vermelhos, somado ao look piercings e uma bela dose de rebeldia, não podia imaginar que dez anos depois preferiria a delicadeza e uma noite de amor e vinho. A gente muda porque o tempo passa. Outra lição que aprendi na vida.
Nesse livro falarei sobre várias lições. Coisas que aprendi na porrada, principalmente. Uma pedagogia muito adequada à minha personalidade forte e às minhas opiniões irredutíveis. Quando me considerava certos e justos meus pontos de vista, não havia quem me fizesse pensar o contrário. O resultado desse posicionamento inflexível não podia ser outro: muito tapa na cara da vida, dos mais sábios, dos mais velhos. 

Aprendi, mas nunca hesitei em dar minha cara à tapa. Quando acredito em minhas convicções, as defendo até que me mostrem que estou errada. Brigo por minhas ideias, brigo pelo que acredito porque conviver com hipocrisia e mentiras nunca foi minha opção de vida. Aliás, banir do meu nicho de relações as pessoas patifas foi o melhor filtro que pude trazer para as trocas interpessoais do dia-a-dia. Poupa nossa energia, evita estresse e deixa a pele que é uma belezura!

Desenhando o presente é que se vai rabiscando o futuro. Não adianta viver de planos e de lembranças boas. Ambos são úteis para nos segurar quando enfrentamos momentos difíceis, ambos são úteis para persistirmos, para não desistirmos de brigar. Mas só servem para isso.

Quem está na linha de frente não pode baixar a guarda. Meu pai me ensinou. "Não desiste!", disse ele sempre quando me via sucumbindo em um buraco qualquer, daqueles nos quais ele não podia entrar comigo e me rebocar para fora. Gritar para me dar força foi tudo o que ele conseguiu fazer nos momentos de desespero. Funcionou.

Sou a única mulher de um trio de irmãos. A mais velha. Nasci para dar um stop na melancolia que pairou na casa da família do meu pai que enterrou meu avô Dal no 3 de setembro de 1983, por volta de onze horas da manhã. Um ano depois, no mesmo 3 do 9, às onze da manhã, abri o berreiro. "Olá, felicidade."

O bebê gordinho, primeira neta da família, levou movimentação para aquela casa e muitas fraldas de pano para o varal. Sim, sou do tempo em que as mães malhavam os braços tirando cocô de tecidos macios que embrulhavam a bunda de seus bebês.

Meus pais casaram novos, principalmente motivados pela gravidez da minha mãe, cujo feto foi produzido nos aconchegos do quintal da casa da minha avó materna, a Dona Maria. Aos 20 anos minha mãe me pariu e aos 25 - meu pai acostumado com mulheres, bebida e vida fácil - teve que se entregar à monogamia, mamadeira e emprego fixo. Ambos terminaram a faculdade entre livros e fraldas. Somam-se fraldas de mais dois pequenos. Meus lindos “nenéns”, formando uma escadinha de pequerruxos com diferença de dois anos.

Uma dor tão forte que somem paredes e chão, não sabemos para onde ir, nem onde buscar conforto porque ele simplesmente não existe.

Movida pelo desejo por liberdade e experiências que todo ser humano precisa viver antes de se aquietar em um ninho, minha mãe saiu de casa. Eu tinha só nove anos. A sensação de ver o ninho destruído me colocou imediatamente em um lugar onde tudo o que se enxerga é o breu de uma escuridão que apavora por não poder se ver um palmo diante dos olhos. Ninguém para pedir ajuda. E de fato não tinha ninguém que pudesse ajudar.

Eram dois jovens que se separavam depois de quase duas décadas juntos e tinham que administrar a criação de três filhos pequenos. Mas eles mal davam conta de carregar no peito a própria dor. O resultado foi deixar os filhos por uma temporada de cuidados com a avó, minha Vóvis querida que trago hoje tatuada no meu braço - uma linda tatuagem realista feita com esmero por André Rodrigues, em São Paulo, durante três horas e meia. E destaco o autor da obra-prima pelo sucesso que faz. É só estar com os braços desnudos para ser abordada por alguém impressionado com a fotografia da década de 1930 - da querida Antonieta Almerinda Campos da Silva, tirada na Praça da República, na Belenzita, ou Belém do Pará - que imprimi na pele.

Diante dessa experiência dolorida, fui obrigada a amadurecer. Diante de uma porrada estúpida como essa, não tem nem como não sofrer qualquer transformação. A porrada me jogou no chão e me deixou doída. Machucados que só hoje, quase 20 anos depois, estão sarando em paz. Consegui deixar ir.

Quem não aprende com as lições da vida e as usa como instrumento para fazer crescer, perde a grande oportunidade de aprender e se tornar uma pessoa melhor. A separação criou em mim uma casca me tornando agressiva e intolerante. Até entender que esse não era o caminho, magoei pessoas e passei por cima de seus sentimentos com todo egoísmo, despreocupação e inconsequência. Por ter sofrido demais e tão cedo, me achei no direito de tocar pra foder e assim fiz. Não me arrependo.

Dependi da agressividade para aprender as coisas que sei hoje. É preciso respeitar e amar as pessoas, mas aprendi que não preciso amar meus inimigos. A eles, mando-nos para puta que pariu, mas desejo a eles muito amor. Porque quem ama, vive em paz e um homem em paz não quer guerra com ninguém. Chorão bem sabe.