quinta-feira, janeiro 17, 2013

Homens em paz não fazem guerra (Parte I)


Nunca havia compreendido a dedicação de uma puta em se perfumar e se pentear para um homem. Nunca compreendera o esmero e empenho depositados em algumas horas na penteadeira. Hoje entendo e ele é a razão de tudo isso.

Quando digo tudo isso, me refiro tanto a esse livro, quanto ao fato de hoje eu compreender o porquê é tão gostoso me cuidar para ele. Mais outra forma de dizer "eu te amo" que descobri há pouquíssimo tempo. Há várias. Incontáveis, até.

Lembrando dos meus 16 anos, usando bermudões de skatista e longos cabelos vermelhos, somado ao look piercings e uma bela dose de rebeldia, não podia imaginar que dez anos depois preferiria a delicadeza e uma noite de amor e vinho. A gente muda porque o tempo passa. Outra lição que aprendi na vida.
Nesse livro falarei sobre várias lições. Coisas que aprendi na porrada, principalmente. Uma pedagogia muito adequada à minha personalidade forte e às minhas opiniões irredutíveis. Quando me considerava certos e justos meus pontos de vista, não havia quem me fizesse pensar o contrário. O resultado desse posicionamento inflexível não podia ser outro: muito tapa na cara da vida, dos mais sábios, dos mais velhos. 

Aprendi, mas nunca hesitei em dar minha cara à tapa. Quando acredito em minhas convicções, as defendo até que me mostrem que estou errada. Brigo por minhas ideias, brigo pelo que acredito porque conviver com hipocrisia e mentiras nunca foi minha opção de vida. Aliás, banir do meu nicho de relações as pessoas patifas foi o melhor filtro que pude trazer para as trocas interpessoais do dia-a-dia. Poupa nossa energia, evita estresse e deixa a pele que é uma belezura!

Desenhando o presente é que se vai rabiscando o futuro. Não adianta viver de planos e de lembranças boas. Ambos são úteis para nos segurar quando enfrentamos momentos difíceis, ambos são úteis para persistirmos, para não desistirmos de brigar. Mas só servem para isso.

Quem está na linha de frente não pode baixar a guarda. Meu pai me ensinou. "Não desiste!", disse ele sempre quando me via sucumbindo em um buraco qualquer, daqueles nos quais ele não podia entrar comigo e me rebocar para fora. Gritar para me dar força foi tudo o que ele conseguiu fazer nos momentos de desespero. Funcionou.

Sou a única mulher de um trio de irmãos. A mais velha. Nasci para dar um stop na melancolia que pairou na casa da família do meu pai que enterrou meu avô Dal no 3 de setembro de 1983, por volta de onze horas da manhã. Um ano depois, no mesmo 3 do 9, às onze da manhã, abri o berreiro. "Olá, felicidade."

O bebê gordinho, primeira neta da família, levou movimentação para aquela casa e muitas fraldas de pano para o varal. Sim, sou do tempo em que as mães malhavam os braços tirando cocô de tecidos macios que embrulhavam a bunda de seus bebês.

Meus pais casaram novos, principalmente motivados pela gravidez da minha mãe, cujo feto foi produzido nos aconchegos do quintal da casa da minha avó materna, a Dona Maria. Aos 20 anos minha mãe me pariu e aos 25 - meu pai acostumado com mulheres, bebida e vida fácil - teve que se entregar à monogamia, mamadeira e emprego fixo. Ambos terminaram a faculdade entre livros e fraldas. Somam-se fraldas de mais dois pequenos. Meus lindos “nenéns”, formando uma escadinha de pequerruxos com diferença de dois anos.

Uma dor tão forte que somem paredes e chão, não sabemos para onde ir, nem onde buscar conforto porque ele simplesmente não existe.

Movida pelo desejo por liberdade e experiências que todo ser humano precisa viver antes de se aquietar em um ninho, minha mãe saiu de casa. Eu tinha só nove anos. A sensação de ver o ninho destruído me colocou imediatamente em um lugar onde tudo o que se enxerga é o breu de uma escuridão que apavora por não poder se ver um palmo diante dos olhos. Ninguém para pedir ajuda. E de fato não tinha ninguém que pudesse ajudar.

Eram dois jovens que se separavam depois de quase duas décadas juntos e tinham que administrar a criação de três filhos pequenos. Mas eles mal davam conta de carregar no peito a própria dor. O resultado foi deixar os filhos por uma temporada de cuidados com a avó, minha Vóvis querida que trago hoje tatuada no meu braço - uma linda tatuagem realista feita com esmero por André Rodrigues, em São Paulo, durante três horas e meia. E destaco o autor da obra-prima pelo sucesso que faz. É só estar com os braços desnudos para ser abordada por alguém impressionado com a fotografia da década de 1930 - da querida Antonieta Almerinda Campos da Silva, tirada na Praça da República, na Belenzita, ou Belém do Pará - que imprimi na pele.

Diante dessa experiência dolorida, fui obrigada a amadurecer. Diante de uma porrada estúpida como essa, não tem nem como não sofrer qualquer transformação. A porrada me jogou no chão e me deixou doída. Machucados que só hoje, quase 20 anos depois, estão sarando em paz. Consegui deixar ir.

Quem não aprende com as lições da vida e as usa como instrumento para fazer crescer, perde a grande oportunidade de aprender e se tornar uma pessoa melhor. A separação criou em mim uma casca me tornando agressiva e intolerante. Até entender que esse não era o caminho, magoei pessoas e passei por cima de seus sentimentos com todo egoísmo, despreocupação e inconsequência. Por ter sofrido demais e tão cedo, me achei no direito de tocar pra foder e assim fiz. Não me arrependo.

Dependi da agressividade para aprender as coisas que sei hoje. É preciso respeitar e amar as pessoas, mas aprendi que não preciso amar meus inimigos. A eles, mando-nos para puta que pariu, mas desejo a eles muito amor. Porque quem ama, vive em paz e um homem em paz não quer guerra com ninguém. Chorão bem sabe.