domingo, maio 05, 2013

sobre dançar

A gente dança. Enquanto não sabemos para onde queremos ir, em específico, a gente dança. A vida tem uma regra. Não se pode curvar diante do tempo e ficar a vê-lo passar. Isso espreme a mente, esmaga o coração. A dor do ficar de fora.

Foi a única coisa que pensei enquanto via O lado bom da vida. A história de um homem traído, obcecado pela ex-mulher, obcecado em voltar no tempo e trazer a mulher de volta, mesmo tendo sido ela que botou um ponto final nisso fazendo sexo com o amante no banheiro da casa deles, ao som da música do casamento deles.

E ele ficou na tenção de viver entre a loucura e a sanidade, negar os remédios na tentativa de afastar de si a realidade de um coração e uma mente perturbados. Foi condenado a ficar oito meses em uma clínica de habilitação porque socou o amante da mulher até ele ficar inconsciente.

Há pessoas e coisas que bagunçam a mente, destroem a paz de espírito, nos deixam em estado de loucura de tanto que nos torturam psicologicamente. Os remédios nos dão uma força quando não sobrou mais nem o amor próprio. Aquela sensação de nadar em um mar fundo, cujas margens estão longe, ir se afogando e encontrar no meio de tanta água um balão de oxigênio que dá um gászinho pra nadar um pouco mais.

Com o mar vencido, uma faixa de areia pela frente. Mesmo sem saber pra onde se vai, o bom senso diz pra caminhar. Vai que encontro uma barraca com comida quentinha. Tenho fome. Caminhando, se vai. Pra onde, dificilmente se sabe.

O homem traído que negava o fim do casamento precisou pegar as rédeas da vida de volta. Domá-la ao invés de ser empurrado por ela sei lá para onde. Acabou que ele encontrou um objetivo de curto prazo: dançar e treinar passos com a nova amiga viúva e perturbada, inscrita em um concurso de dança. Sem saber como retomar a vida e trazer o sossego para os dias, ou pelo menos para a maior parte deles, eles decidiram dançar. Suar, se esgotar, insistir até alcançar o movimento coordenado e equilibrado. Tinham um concurso em breve. O passar do tempo ia trazendo mais dança. A dança virou um foco, um compromisso, ganhou uma razão de ser até pra ele que nunca se interessou em dançar.

No meio da dança, a paixão entre eles aconteceu e a obsessão pelo casamento e a ex-mulher perdeu seu sentido. Talvez fosse o único motivo que fazia ele seguir em frente depois do choque da traição. A pancada forte joga no chão e algo é necessário para levantar quem caiu. E não necessariamente algo bom.

As pancadas tiram as coisas e pessoas do caminho. É preciso de algo para voltar ao trajeto. Mesmo não sabendo qual o destino do percurso, é necessário ir. É preciso dançar. Dançando, a vida volta a fazer sentido.