quarta-feira, setembro 25, 2013

O ingrediente Calundu

Tenho estudado bastante sobre tradições religiosas afro. Nas minhas pesquisas, descobri que no Brasil dos séculos 17 e 18, há registros de práticas de curandeirismo e uso de ervas combinadas com adivinhações e possessões chamada calundu, uma prática religiosa africana.

Quem nasceu na Amazônia, como eu, cresce acostumado com o hábito dos banhos de ervas, que são tomados principalmente em datas festivas, como na madrugada do dia de São João e na véspera do ano novo.

Quando estou em Belém (PA), minha passagem pelo mercado do Ver-o-Peso é cumprida com tradição. Me dirijo logo para o espaço das erveiras - um lugar onde circula muita energia (quem tem uma certa mediunidade sabe do que estou falando). Sempre sou profundamente seduzida pelo perfume das ervas, especialmente o patchouli. É delicioso!

Compro meu banho de ervas para renovar as energias - descarregar as energias negativas e atrair boas vibrações. Só não imaginava que esse gesto bebia nas tradições negras. Pensei que fossem apenas heranças indígenas. Mas a história da nossa colonização demonstra que os brasileiros, especialmente os amazônidas, somos uma linda mistura de povos tradicionais, além dos europeus.

Confesso que muito me agrada flagrar nos meus hábitos tradições indígenas e africanas com as quais me preocupo em preservar. Elas me fazem me sentir peculiar, me sentir mais eu. Nada contra as tradições europeias, povo cujo sangue também carrego nas veias e artérias, mas, desculpem-me os brancos, me sinto mais índia e negra embora carregue um fenótipo que faz os nativos amazônidas terem sempre me tratado como estrangeira.