sábado, junho 21, 2014

Triângulo odioso

Sentimentos. Quando eu era guria, por volta dos 12, pelo que me recordo, lembro que comecei a pensar sobre o processo de sentir. "Acho que os sentimentos são compostos por uma seqüência de elementos químicos que, juntos, causam os efeitos que chamamos sensações", minha primeira especulação.

A cada vez que sentia algo muito ruim, desejava um remédio, uma solução com elementos químicos que neutralizassem aqueles que me causavam desconforto, como a base que neutraliza o ácido e acaba com a queimação no estômago.

Depois de viver dez anos em depressão, pulando de psicólogo em psicólogo, psiquiatra em psiquiatra com o intuito de encontrar o meu sossego, entendi que sentimentos não são soluções químicas. São pura pancada mesmo. Mesmo os bons sentimentos. A gente sempre sente um forte impacto quando eles nos acometem.

Será que eu sinto a dor igual vocês a sentem? 

As causas de cada dor, sei que são diferentes para cada pessoa. Mas sei também que dor dói em qualquer um e esse é nosso ponto em comum. Depois de sentir um bocado de dor, me familiarizei demais com o processo do sofrimento. Somos íntimos. 

Durante dez anos, todo mês, tomei benzetacil para evitar eventuais complicações cardíacas, resquícios de uma doença que tive na infância e que me deixou com dificuldade de andar.  A injeção mais doída que eu conheço. O medicamento dói por alguns minutos depois de aplicado. Quando injetado, por onde o líquido passa, parece levar junto um ferrolho que sai rasgando tudo o que encontra pela frente. Por ser tão dolorido, os médicos sempre recomendam aplicá-lo na bunda. No local perfurado, sempre há o carimbo de um hematoma que nos lembra a desagradável experiência. Ficamos sem poder sentar direito por alguns dias. É como se levássemos uma boa pancada.

A depressão e a benzetacil me deixaram íntima da dor da alma e da dor física. Estiveram presentes desde o final da minha infância até seis anos atrás, mais ou menos. Mas minha relação com a benzetacil começou mais cedo que o caso que tive com a depressão, e, por alguns anos, vivemos um triângulo odioso.

Como todo relacionamento desgraçado, elas me ensinaram muito. A benzetacil, que a dor física deixa de doer tanto, quanto mais a gente a sente. Dessensibiliza. Depois dos primeiros anos de agulhada na bunda, já recebia o medicamento em minhas entranhas falando ao telefone. Continuava a doer, mas meu corpo já recebia a tormenta com tranquilidade, já me poupando do sofrimento inevitável. Há muitos anos sou muito tolerante à dor física.

À dor da alma, emocional, também. Mas diferente da dor física, a gente pode sofrer pela mesma causa algumas vezes. Mas ela dói igual em todas. O que muda é a nossa capacidade de lidar com a dor. 

Eu sinto falta das pessoas falarem sobre sentimentos. Viver é um processo cheio de muitos detalhes, um deles é o sentir. Por alguns anos eu senti falta dos adultos conversarem comigo sobre sentimentos e acabei tendo que descobrir sobre eles sentindo. 

"Filha, algumas vezes na vida, as coisas acontecem de um jeito diferente do que a gente deseja. A gente perde pessoas, sente ciúmes, se desentende com quem a gente ama e magoa quem a gente ama. Essas coisas chatas da vida provocam no coração umas sensações desagradáveis. Lembra uma câimbra no peito. Por mais que a gente tente alongar o peito, massagear o coração, não para de doer. Mas é assim mesmo. Com o tempo e com o amor de quem te quer bem, passa." Isso teria resolvido muita coisa.

A gente vive a vida despreparado. Não nos ensinam sobre os sentimentos. Não temos um manual de instrução que identifique o sentimento de luto, o ciúme, a inveja, o orgulho, a tristeza, a melancolia e tantos outros sentimentos desagradáveis e seus respectivos tratamentos com orientações sobre como proceder diante de um peito com alta concentração de dor. Mas a conversa ajuda, alivia, descarrega, nos ajuda a digerir a dor. 

Assim como meu corpo respeitou a potência da benzetacil e aprendeu a conviver em certa paz com ela, eu aprendi a conviver em certa paz com o sofrimento. Quando a gente respeita a dor, ela nos ensina. Quem para e pensa sobre a dor, geralmente se torna uma pessoa um pouco melhor. Quando a gente entende a causa da dor, aprende a preveni-la, evitando as situações que as têm como efeito colateral. Tem que ser esperto e evitar a auto-sabotagem.

Desde que eu comecei a entender as minhas dores e reconhecer que também fui responsável pela causa delas, passei a viver em sossego. Tem sido tão bom que eu tento levar a paz às pessoas. Todos merecemos sentir a tranquilidade a maior parte do tempo.